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O lado negro de Hollywood

O maior escândalo sexual da Meca do Cinema está a revolucionar a forma como a sociedade percepciona os limites do nepotismo machista. A queda estrondosa de Harvey Weinstein pode ser um enorme despertar para uma tentativa de um mundo com maior igualdade sexual. Alguém tem de fazer uma série ou um filme com estas histórias...
Por Rui Pedro Tendinha, 26.12.2017

Uma cultura do medo. Foi isso que Harvey Weinstein, talvez o produtor de maior relevância em Hollywood, instalou durante o seu reinado, só agora desfeito após o escândalo sexual finalmente revelado por um artigo no The New York Times. O seu poder foi o exemplo de uma prepotência muito americana, a via do "Quero, posso e mando". Harvey, como típico predador sexual, queria sempre mais, queria sempre forçar. Queria, afinal de contas, exercer a velha máxima machista da indústria americana: para uma actriz ter sucesso, também pode consegui-lo pela via horizontal, ou seja, o cliché supremo de se deitar com o produtor. O que mais assusta neste conto moral é a maneira como se percebe, agora, a conivência de todos em Hollywoood. "They all knew" ("Eles todos sabiam") é o que mais se ouve. "Eles" quer dizer os executivos, os actores, os agentes, enfim, a dependência sexual de Harvey era conhecida de todos. Era como se não fizesse mal, como se fosse "apenas" uma pequena particularidade de um génio. Sabe-se também que as actrizes assediadas ou molestadas só começaram a falar por terem deixado de ter medo das consequências. Bastou a posição de topo de Harvey na indústria ter diminuído um pouco para que as vítimas ganhassem coragem para falar. De alguma forma, este caso é a ponta de um iceberg que vai mudar as práticas de comportamento sexual em Hollywood. Não é à toa que, depois de Harvey, tenham surgido alegadas histórias de outros predadores sexuais no showbizz, do cineasta James Tobak ao fotógrafo de moda Terry Richardson, passando pela acusação a Kevin Spacey, neste caso a um jovem. E vão continuar a surgir. Por muito que se fale em "caça às bruxas", há uma noção que importa não esquecer: as vítimas são mulheres. Nunca poderemos cair na banalização do mal nesse aspecto. Quanto mais se falar destes escândalos é quanto mais Hollywood irá respeitar mais as suas mulheres.

Harvey Weinstein caiu no lodo porque, a dada altura, a imensidão dos seus crimes foi tão vertiginosa que o próprio sistema de Hollywood já não o pôde proteger. A sua mulher abandonou-o, os sócios deixaram-no para trás e, até fora dos EUA, começa a ser investigado. Lembro-me de o ter conhecido no hotel Cap d'Antibes, em 1997. Fui o único jornalista português convidado para participar na operação de lançamento do filme da Miramax, Copland - Zona Exclusiva, de James Mangold, com Robert De Niro, Sylvester Stallone e Annabella Sciorra, actriz que já se queixou dos abusos de Weinstein. A memória mais forte é a de um líder mandão, sempre de um lado para o outro. Não me esqueço da forma delicada como falava com Stallone, antes do encontro com a imprensa. E muito menos me esqueço da maneira como foi carrancudo para os jornalistas convidados. Depois, anos volvidos, no Festival de Cannes, vi-o, muitas vezes, sempre em esplanadas dos melhores hotéis de Cannes, onde, certamente, conseguia o que queria. O homem que produziu Pulp Fiction e O Paciente Inglês era um mestre nos lobbies para os Óscares e foi pródigo em tirar o controlo dos seus filmes aos cineastas. Que o diga Terry Gilliam que o acusou de nepotismo, mal acabou de rodar Os Irmãos Grimm. Aliás, a esplanada do hotel Martinez, em plena Croisette, era o local onde Harvey fazia acordos implacáveis e onde exibia, orgulhosamente, a sua barriga de macho "old school". "Um homem prático", dirão alguns. Outros acreditam que tinha o dom da manipulação, o que nos deixa a pensar como conseguiu contratar Brad Pitt para Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino, que, na altura, já o tinha confrontado devido aos seus avanços a Angelina Jolie. Ou Harvey instituía um reinado mafioso ou a hipocrisia era muita. E a influência do produtor também chegava à música. Para o afago do seu ego, quis ser o produtor do concerto de beneficência no Madison Square Guarden a favor das vítimas do furacão Sandy, conseguindo colocar no mesmo evento Roger Waters, os The Who, os Coldplay, Paul McCartney, os The Rolling Stones e tantos outros. Transformou-se em herói. No fundo, somos todos culpados pelo status quo da Hollywood machista. Culpados ou distraídos profissionais. Ainda há pouco tempo, estreava nos cinemas (por cá foi atirado para o home cinema) Excepção à Regra (óptimo filme, já agora), de Warren Beatty, que mostrava a vida sexual de Howard Hughes (interpretado pelo próprio Beatty) quando era produtor de cinema e cuja prática era "entreter" jovens aspirantes a estrelas. Não era preciso este filme para nos mostrar os velhos vícios de predação sexual dos poderosos de Hollywood. O que Harvey fez era prática comum dos antigos moguls da indústria. A Hollywood machista que nunca mudou e que nos anos 90 corou quando apareceu Disclosure, de Barry Levinson, onde Demi Moore interpretava uma mulher poderosa que assediava um empregado (Michael Douglas). Terá sido areia para os nossos olhos.

Felizmente, a velha guarda de Hollywood está a mostrar telhados de vidro. Hoje, sobretudo depois do escândalo, tudo tem e vai mudar. Não é "fixe" ou "cool" uma estrela de cinema gabar-se de muitas conquistas, como acontecia nos tempos de Warren Beatty ou de Jack Nicholson. O facto de uma das maiores produtoras ser Megan Allison, da Annapurna Pictures, e de Cheryl Boone ser a directora da Academia [de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood] também quer dizer muita coisa. Mas tudo isto é tão voraz que, não tarda muito, estão a aparecer actores a queixarem-se de assédios sexuais feitos por mulheres poderosas. A acusação da actriz Ashley Judd, a primeira mais mediática nesta história a abrir o livro de queixas, deixa-nos a pensar no poder ilimitado de um director de um estúdio em Hollywood. "Nunca mais trabalharás nesta cidade", frase emblemática que se teme ouvir, a frase que calou muitas jovens actrizes. Calada ou não, não será complicado adivinhar que Judd foi prejudicada no auge da sua carreira, ela que chegou a estar na lista A de Hollywood, nomeadamente com papéis de destaque em filmes proeminentes como Heat - Cidade Sob Pressão, de Michael Mann, e Duplo Risco, de Bruce Beresford, com Tommy Lee Jones. Depois desse período, coincidência ou não, deixou de receber os convites para ser protagonista. Nos últimos tempos e apenas como secundária, tem sido vista e o que não lhe faltava era talento... Deduz-se que foi posta na lista negra sob a desculpa machista de "não estar a envelhecer bem", outra das atrocidades criminosas da própria indústria feita às actrizes que já foram consideradas atraentes (e, como se sabe, o prazo de "validade" etária está a apertar, que o diga uma Lindsay Lohan que já é considerada "entradota" aos 31 anos). De todas as estrelas que acusaram o patrão da Weinstein Co. de assédio, Cara Delevingne foi a que pôs o dedo na ferida com melhor pontaria, ao lembrar que as vítimas nunca são culpadas dos abusos que sofrem, por muito grandes que sejam os seus decotes. Essa é a verdade que não convém esquecer. A lição que o affaire Weinstein parece querer dar ao mundo do cinema é que a hipocrisia pode estar com os dias contados. E como George Clooney, "promovido" como realizador por Weinstein, dizia, "já não fazem sentido reuniões de trabalho em quartos de hotel. Acabemos com isso!" A avalancha de casos de outras acusações de assédios já fez mossa na reputação de Brett Ratner, o realizador de Hora de Ponta, de Dustin Hoffman e de Jeremy Piven. A coisa está incontrolável. A primeira consequência passa por baralhar as contas na temporada dos prémios. Por exemplo, Dustin Hoffman tinha uma interpretação de velho moribundo, em The Meyerowitz Stories (New and Improved), que costuma chegar aos Óscares, enquanto a crítica já estava a elogiar Kevin Spacey, em All The Money in The World, de Ridley Scott, onde o actor interpreta o multimilionário Jean Paul Getty numa transformação física daquelas que também costuma fazer estragos na temporada dos prémios. Aliás, aconteça o que acontecer, as carreiras destes homens já estão manchadas (veja-se como o Old Vic, prestigiado teatro londrino, abriu uma hot line para eventuais homens assediados por Spacey poderem fazer as suas queixas). O cancelamento da Netflix da sua galinha de ouro, House of Cards, quer dizer muita coisa. Tanta que Spacey, depois de muito silêncio e de desculpas envergonhadas, teve de admitir que precisa de tratamento. Ao público cabe a decisão de acreditar na presumível inocência dos acusados ou de estar do lado de quem teve coragem de expor um pedaço da intimidade. Nada vai voltar a ser como antes. Pode ter sequelas e mais sequelas e ficar uma novela interminável, mas também pode originar situações ridículas, como aquela em que, num programa inglês de televisão, o comediante Adam Sandler tocou, inocentemente, no joelho da actriz Claire Foy e foi um ai-Jesus. Podemos estar todos mais vigilantes, mas o puritanismo excessivo só nos faz rir. Que a banalização do assédio sexual não nos faça chorar... As regras do jogo mudam e a coragem de todas as mulheres que expuseram os seus casos vai evitar que muitos artistas, financiadores, cineastas e produtores pensem duas vezes antes de tocarem indevidamente uma jovem. O vendaval chegou a outras áreas, como a política, no Reino Unido, em que um deslize verbal de Sir Michael Fallon lhe custou o lugar de Secretário da Defesa do governo de Theresa May. Agora, a simples sugestão de um mero innuendo ou de um simples flirt pode ter consequências. Se estamos a entrar num mundo de vigilância desmedida? Se este clima politicamente correcto não é algo fundamentalista? Talvez, mas antes isso do que o silêncio de quem foi abusado. O medo combate-se com coragem e, em Portugal, os rumores de assédios, mais tarde ou mais cedo, vão começar a ser conhecidos. Patrícia Vasconcelos não teve medo das consequências e já veio a público afirmar que, há uns anos, se insurgiu contra um avanço abrutalhado de Gérard Depardieu, quando o actor francês veio a Portugal. O efeito Harvey Weinstein vai chegar a todos os cantos do mundo e a sua queda vai deixar marcas. Vamos apenas esperar que, em Hollywood, comece a haver mais cuidado na forma como filmes como os da saga Velocidade Furiosa filmam os corpos de jovens mulheres de forma pornograficamente objectivada, onde os rapazes musculados têm companheiras de vestido curto para apenas decorar. É logo aí que as mentalidades têm de mudar.

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1 Comentários
Anónimo taditas
Há 3 semanas
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