Família

As verdadeiras bases para uma família feliz

O que é que o novo livro da socióloga Maria José Núncio, Famílias felizes sem segredos, nos ensina? Acima de tudo, estratégias de coaching familiar para manter a união.
Por Rita Silva Avelar, 15.05.2018

Não há família, há famílias – é este um dos primeiros capítulos do novo livro da socióloga e mediadora familiar Maria José Núncio, que ao longo de 189 páginas oferece um guia completo de como sobreviver à era digital, onde o tempo parece ser cada vez mais escasso, a par da construção e fortalecimento das relações familiares e do núcleo da família. Conversámos com a autora antes do lançamento de Famílias felizes sem segredos - estratégias de coaching familiar (Porto Editora).

Aquilo a que chamamos o processo de construção de uma família mudou, de forma abismal, nos últimos 20 a 30 anos. Hoje em dia, quão determinante pode ser a tardia entrada na vida profissional para a decisão de começar de uma família, para a geração mais jovem?
Os processos de construção da família mudaram a par com as mudanças sociais. Conceitos como estabilidade, durabilidade ou permanência foram progressivamente substituídos por diversidade de experiências, instabilidade e satisfação individual. E se isto sucede no plano familiar, com uniões de tipos muito diversos, diferentes formas de viver em família e projetos de família de menor duração, sucede também noutros campos, designadamente o profissional, em que o conceito de trabalho para a vida ou mesmo de permanência numa mesma organização deixaram não apenas de ser possíveis, na maioria dos casos, como deixaram até de ser valorizados, em termos de avaliação curricular.

Onde antes se valorizava a permanência, hoje valoriza-se a diversidade e o mesmo ocorre com as famílias. E ocorre porque a família, enquanto instituição social, é plástica e, por isso, molda-se aos padrões sociais envolventes e, claramente, o padrão atual é de mudança rápida e de pluralidade de modelos, em permanente atualização. O que as famílias fazem, simplesmente, é adaptar-se a isto.

De qualquer forma, há a questão da mentalidade, que muda muito mais lentamente que a realidade, e que define que a família exige estabilidade, particularmente profissional e financeira e isto é uma realidade ainda muito marcada nos países do sul da Europa, como Portugal. Pelo facto de esta estabilidade surgir tardiamente, o projeto de construção familiar adia-se e isso tem, necessariamente, impactos, porque o facto de as pessoas viverem sós (ou com os pais) até muito tarde cria nelas um conjunto de hábitos e expectativas que nem sempre são conformes às exigências da vida a dois, o que ocasiona mais tensões. Acresce que, progressivamente, temos gerações menos habituadas aos "nãos" e às cedências, e este pode também, se não for devidamente acautelado, ser um fator de tensão na vida familiar.

A decisão de avançar com o "projeto filhos" é, por isso, muitas vezes adiada. Há aqui um gap de 10 anos entre a geração anterior (que assumia esta responsabilidade na casa dos 20) para a de hoje (que tende a ser na casa dos 30). Isto muda totalmente o conceito de família?

Muda, desde logo, o tamanho das descendências e torna ainda mais premente a questão da geração dos filhos únicos (que já se vem a desenhar há algumas décadas). E esta geração de filhos únicos depara-se com uma realidade muito distinta da das gerações anteriores: menores oportunidades de socialização com os pares (a escola é praticamente o único espaço de socialização, dado que já pouco – ou nada – se brinca na rua ou na vizinhança; maior isolamento e fechamento; substituição das interações reais pelas virtuais; educação virada para a competitividade e não para a cooperação (o meu filho tem de ser o "melhor" – e eu pergunto-me: então mas só temos sociedades de "melhores"?).
Por outro lado, este tempo de construção da família é também o tempo da construção da carreira profissional ou, simplesmente, da luta pela manutenção do emprego e, nesse sentido, o tempo e disponibilidade na família reduz-se. E os filhos precisam de tempo dos pais. E os pais precisam de tempo para os filhos.

Um estudo do ano passado da Fundação Francisco Manuel dos Santos concluía que o número de famílias monoparentais quase duplicou nos últimos 14 anos - 11% em 2016 contra os 6% de 1992 -, tal como o número de famílias com uma só pessoa – 22% em 2016 face aos 13% de 1992. O que é que, para si, motiva estes números?

A monoparentalidade resulta hoje, sobretudo, das situações de separação e divórcio, embora haja outras causas, designadamente a opção pessoal, mas que são estatisticamente muito menos relevantes. Ora a união entre duas pessoas, sobretudo quando há um projeto de parentalidade envolvido, representa um investimento afetivo e emocional fortíssimo e, naturalmente, não é exigível que as pessoas, quando não se sentem realizadas na união, se mantenham juntas em nome dos filhos. Não é exigível, nem é desejável, porque como eu costumo dizer nestas situações, isso é colocar sobre os ombros dos filhos o peso da responsabilidade pela insatisfação dos pais. Todavia, o que há que ter em atenção é que a passagem de uma situação de biparentalidade a uma situação de monoparentalidade tem impactos fortes nas dinâmicas familiares e em todos os elementos da família e isso deve ser acautelado e trabalhado com as famílias.

As mulheres continuam a ser o pilar da casa? Há mais homens conscientes de que as tarefas devem ser partilhadas ou ainda há um longo caminho a percorrer no que diz respeito a este padrão?

Eu prefiro pensar que o pilar da casa é a família como um todo. Só assim faz sentido.
Sucede, de facto, que as mulheres são ainda as grandes obreiras do doméstico, no sentido em que ainda lhes cabe a maior parte das tarefas domésticas e de cuidado (quer aos filhos quer a familiares mais velhos e/ou dependentes). Todavia, os níveis de participação dos homens têm vindo, de facto, a aumentar, mas ainda assim há um longo caminho a percorrer e que terá de resultar do modelo de educação e socialização. Ou seja, há um conjunto de estereótipos muito arreigados em relação ao que é ser mulher e ao que devem ser as prioridades das mulheres e mesmo quando a realidade contraria esses estereótipos – com cada vez mais mulheres altamente qualificadas e de carreira –, a verdade é que os estereótipos ainda fazer emergir um sentimento de culpa e uma dualidade no feminino como se fosse "normal" que da mulher se espere que opte entre trabalho e família, quando tal opção não é pedida aos homens. Houve, de facto, um progresso significativo, nomeadamente em matéria legislativa, agora há que trabalhar mentalidades e modelos e esses não mudam por decreto, mas apenas por via de uma educação mais paritária.

Quais são as bases que devem fortalecer um ambiente familiar saudável?

Vontade, realismo, determinação, comunicação, respeito e rotinas. Explico cada uma delas: a vontade de construir um projecto sólido e satisfatório, mas que seja sobretudo realista, ou seja, a nossa família, não a do vizinho, a do Facebook ou a da novela, a nossa, em conformidade com quem nós somos e ao que aspiramos, harmonizando identidades, expectativas e vontades individuais. A determinação e o empenho em levar a cabo as ações que nos propomos realizar para mudar e melhorar enquanto famílias, pesando os prós e os contras e definindo metas e objetivos. A comunicação entre todos, sobre tudo e sempre. A família deve ser o espaço do conhecimento profundo e empático do outro e isso só é possível através da comunicação. Não valem os argumentos do cansaço, da televisão, do trabalho ou dos e-mails a responder. Por pouco tempo que tenhamos, há que reservar tempo para comunicar, para que não nos tornemos uns desconhecidos que partilham uma casa – e se isto pode parecer duro, há famílias que se convertem exatamente nisso! Do conhecimento do outro resulta o respeito: por muito que amemos os nossos companheiros ou os nossos filhos, eles são criaturas com identidades e expectativas próprias, não são feitos "à nossa imagem e semelhança", amar e viver em família é respeitar e integrar as diferenças para que todos possamos sair melhores, mais fortes e mais ricos, enquanto pessoas. Finalmente, as rotinas e as regras. Dois conceitos que, de repente, se tornaram uma espécie de "maldição" e que foram adquirindo uma conotação negativa que os confunde com marasmo (a rotina) ou com autoritarismo (as regras). Ora nada mais errado – as rotinas e as regras são estruturantes, equilibradoras e dão-nos a todos, enquanto grupo familiar, e a cada um, enquanto indivíduo, um sentido de identidade e de pertença que nos torna mais fortes e seguros de nós próprios.

Quais são os maiores truques para que se construa uma relação forte e de confiança com os filhos?

O diálogo, o tempo, o não-julgamento, o respeito, o riso. Porque é pelo diálogo que, desde os tempos mais precoces, nos vamos conhecendo mutuamente. Vamos conhecendo aquela criatura que, ainda que gerada por nós, tem uma identidade e um sentir e um pensar próprios. O tempo, porque nada é mais importante do que o tempo em que estamos com os nossos filhos, mas o tempo a sério, em que conversamos, jogamos, desenhamos… não o tempo em que estamos sentados lado a lado, no sofá, cada um com o seu telemóvel ou o seu tablet. E são tempos que não são recuperáveis, por isso eu apelo aos pais que deem este tempo aos filhos. Vale muito mais do que qualquer gadget de última geração. O não-julgamento, como já referi: os filhos não são feitos "à nossa imagem e semelhança", por isso devemos apoiar, aconselhar, mas não julgar, nunca dizer que "no meu tempo…", porque este, agora, "é o tempo deles…". Das atitudes anteriores resulta o respeito mútuo. Os filhos respeitam os pais que os respeitam enquanto pessoas. Finalmente, o riso: a partilha da boa disposição, do lazer, a capacidade de nós, adultos, sendo pais – e, por isso, responsáveis – não nos esquecermos de ser também crianças, e sentar no chão e rebolar na relva e rir até nos doer a barriga!

E, quando se chega à adolescência, esta fase continua a ser a derradeira prova de que ser-se pai é um verdadeiro desafio?

Ser-se pai é um desafio a vida toda. A adolescência é apenas mais uma fase. Mais ou menos complicada, algo tumultuada, mas que com calma, ponderação e, de novo, muita comunicação, se vive sem dramas, tal como deve ser vivida. E aqui falei de comunicação e não apenas de diálogo, porque a verdade é que a adolescência, pela ambivalência própria da construção da identidade, pode levar a uma diminuição no diálogo entre os filhos e os pais. Os pares tornam-se os interlocutores privilegiados e os pais sentem-se, por vezes, excluídos desse universo que ? ainda por cima ? lhes parece mudar à velocidade da luz.

Quais acha que serão as maiores mudanças que a família enfrentará, nas próximas gerações?

Acho que os grandes desafios passam, em primeiro lugar, pelo ultrapassar do individualismo e por uma sociedade que nos faz estar muito centrados no "eu" e as famílias são a realidade do "nós" (e isto não implica que a segunda exclua a primeira, obviamente, mas antes que a integre) e, em segundo lugar, pela comunicação, o que pode parecer paradoxal, vivendo nós em sociedades ditas de comunicação: a questão é que comunicamos superficialmente e artificialmente. Nunca tivemos tantos amigos virtuais e nunca nos sentimos tão sós. Nunca tivemos tantos modelos para escolher e nunca nos sentimos tão vazios. Regressar a valores essenciais de partilha e de empatia, de capacidade de nos colocarmos no lugar do outro serão essenciais para a felicidade individual e familiar.
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