Família

“A ideia de estarmos destinados a conhecer uma única pessoa em todo o mundo é absurda”

Conversámos com o psicólogo britânico Frank Tallis sobre as histórias de pessoas que enlouqueceram por amor, descritas pelo próprio no seu novo livro.
Por Rita Silva Avelar, 16.05.2018
"There ain’t no cure, there ain’t no cure, there ain’t no cure for love." A letra é de uma das músicas mais conhecidas de Leonard Cohen, mas a frase pode ser considerada universal. Pelo menos o amor é, em última instância, algo que todos partilhamos nas nossas vidas. Universalismos à parte, a cura para o amor que é elevado a um extremo estado de loucura é algo que o psicólogo clínico britânico Frank Tallis procura, para os seus pacientes que precisam de ajuda para ultrapassar situações críticas. Foi precisamente a conversar sobre o tema que nos sentamos com Tallis num hotel em Lisboa, a propósito do lançamento do seu mais recente livro O Romântico Incurável (Leya). Neste livro, que acaba de chegar às livrarias portuguesas, o psicólogo conta as histórias dos seus pacientes que se apaixonaram loucamente e ficaram literalmente endoidecidos por amor. A história de Megan, uma mulher (diagnosticada com síndrome Clèrambault) que acreditava que o amor platónico pelo seu dentista era correspondido após acordar de uma anestesia ? e o perseguiu até este mudar de país; a história de uma mulher que, por causa dos seus ciúmes incontroláveis, destruiu sucessivas relações; ou a história de uma septuagenária atormentada pelas suas fantasias sexuais – todas elas são narradas ao pormenor por Tallis. Conversámos com o autor sobre como começou a tratar o tema, sobre o amor juvenil e sobre aquilo que mais faz diminuir a "chama" do amor num relacionamento.

O tópico do amor sempre foi algo que o interessou, como psicólogo clínico?
Não estava interessado no tema no início da minha carreira, mas trabalhei numa clínica sexológica e, nesse aspeto das relações, eu estava interessado. A razão de me ter interessado pelo amor foi porque uma das minhas especialidades é uma condição chamada transtorno compulsivo-obsessivo. E uma das características principais da doença são pensamentos obsessivos e possessivos que a pessoa não consegue controlar ou parar. Comecei a detetar aspetos em comum entre pacientes com pensamento obsessivo e pacientes que recebia que estavam a apaixonar-se por alguém. Agora que já temos tecnologia que faz um scan ao cérebro, detetam-se frequentemente similaridades entre pessoas que acabam de se apaixonar e que têm este transtorno. Acabei por começar a receber mais e mais pacientes cujas vidas haviam sido desestabilizadas pelo facto de se estarem a apaixonar e a interessar-me pelo facto de não levarem este estado de "paixão" muito a sério ? como algo que pode mesmo provocar desequilíbrio de um indivíduo. Na comédia romântica, por exemplo, banalizamos o amor. E este é um assunto sério (…) as pessoas que se apaixonam e que sentem emoções fortes podem sofrer muito. As consequências podem ser graves.

Qual é o risco de o amor entrar nas vidas dos jovens cedo demais?
As pessoas apaixonam-se muito cedo. E podem existir grandes diferenças ao nível físico e emocional de pessoa para pessoa. Por exemplo, pode estar-se preparado a nível físico, mas a nível emocional existir ainda imaturidade. Como resultado, algumas pessoas não conseguem controlar as suas emoções neste ponto, que se podem transformar na síndrome de "coração partido", em rejeição e em casos extremos o risco de suicídio.

A Internet influenciou em larga escala as expectativas que se têm do sexo, vendo-o como uma performance elaborada e pornográfica. Onde fica o romantismo no meio desta ideia?
A Internet teve um efeito negativo neste aspeto. O acesso à pornografia relaciona-se com as expectativas irrealistas que hoje em dia se tem em relação ao sexo. Como consequência, muitos jovens estão a evitar ter sexo, porque é percecionado como uma verdadeira performance em vez de algo natural. Nalgumas culturas em que a tecnologia está fortemente enraizada, os jovens têm cada vez menos relações sexuais. Por exemplo, isso está a acontecer no Japão.

Como se descreve alguém que está apaixonado?
Por milhares de anos, a condição de amar e desejar alguém era considerada uma condição médica séria. Não só na poesia egípcia antiga há referência ao amor, como também foi estudada pelos antepassados gregos e fez parte dos primórdios da cultura romana. Só entre o fim do século XVIII e o início do século XIX é que os médicos deixaram de tratar o amor. O estado de estar apaixonado pode manifestar-se de várias maneiras, mas geralmente o que acontece é que existe um pensamento obsessivo pela pessoa de quem está apaixonado, alterações de humor, descritas como uma montanha-russa de emoções, como euforia, alegria, mas também depressão ou ansiedade. É também um estado semidelirante, porque as expectativas de alguém apaixonado são muito altas, é algo pouco realístico. Relaciona-se com a ideia de que a outra pessoa é perfeita ou que a relação que se pode ter com ela é algo "obra do destino". A ideia de estarmos destinados a conhecer uma única pessoa em todo o mundo é absurda. Isso não pode ser verdade, se formos pensar de forma racional.

Apaixonar-se não tem, assim, nada a ver com o pensamento racional?
Se estivermos perante uma pessoa que acredita que o amor é algo destinado, e que existe uma pessoa no mundo com quem está destinado/a a casar, ter filhos e amar eternamente, se pensa que encontrou essa pessoa – e a relação não resulta – é uma catástrofe. Quando falo com pacientes que acreditam nisso é como se acreditassem que nunca mais voltarão a ser felizes. Quando se investe muito numa pessoa em particular, tudo se torna irracional. Somos humanos, nem sempre tudo corre como esperamos. Se o relacionamento acaba e se a pessoa pensar que aquela era a única hipótese de amar alguém, e que aquela pessoa era perfeita e nunca mais se vai encontrar ninguém assim outra vez, este acaba por ser um pensamento depressivo e devastador. O amor pode ser experienciado como uma condição saudável e prazerosa se se tiverem expectativas mais racionais. Por outro lado, acho que é quase impossível que, no início de uma relação, seja possível pensar de forma racional em relação à outra pessoa. Pode apaixonar-se loucamente por alguém e, gradualmente, pode começar-se a pensar de forma mais racional. A natureza do amor é ser-se irracional, tornamo-nos outra pessoa.

Quais são as razões mais comuns para o "fim" do amor durante a terapia de casal, por exemplo?
Esta transformação nota-se mais nos homens do que nas mulheres. As queixas mais comuns, quando os relacionamentos não estão a funcionar, são as mulheres a dizer que os homens deixam de falar, ficam pouco comunicativos e tornam-se como estranhos. No início, os homens ficam mais interativos, mais sensíveis, mais alertas para ouvir e emocionalmente responsivos. Três ou quatro anos depois, ficam mais silenciosos. Quanto aos homens, a queixa mais comum (nos meus consultórios) é a de que as mulheres deixam de ficar tão interessadas no sexo como quando estavam no início da relação. Por outro lado, ao analisar as pesquisas da Internet no Google, podemos ver que há milhares de mulheres a queixar-se do mesmo – que os homens não estão mais interessados em ter sexo, passados uns anos do relacionamento.
No livro constam histórias de pessoas que enlouqueceram por amor. Que lhes aconteceu, depois da terapia?
Em O Romântico Incurável quis escrever algo que fosse mesmo real. Em muitos destes casos, as pessoas desapareceram, simplesmente deixaram de aparecer. Acontece muitas vezes, em consultas clínicas. Geralmente é quando se chega ao ponto crítico dos seus problemas. Isto acontece porque muitas pessoas não gostam de se sentir pacientes, e se de repente ficam a sentir-se melhor com as consultas, elas querem ser só pessoas normais, o mais rápido possível, outra vez. Seguir as suas vidas. Há pessoas ambíguas, que querem ajuda mas não querem ao mesmo tempo. Assim que há progresso, mais e mais, chega-se a um ponto em que têm mesmo de ser o mais honestas possível em relação aos seus sentimentos – e isso torna-se demasiado pesado. Aí, desaparecem.

Recorda-se do primeiro paciente que tratou, por ter enlouquecido por amor?
O que descrevo em primeiro lugar no livro, uma mulher com a síndrome de Clérambault. O que acontece, com esta síndrome, é que a pessoa se apaixona loucamente por alguém e acha, com toda a certeza, que esse amor é recíproco. Quem tem esta doença experiencia um sentimento bem mais forte, poderoso, real e romântico do que as outras pessoas experienciam com o amor. O que era fascinante no caso desta mulher [que se apaixonou pelo seu dentista após acordar de uma anestesia] é que em qualquer outro aspeto da sua vida era a mulher mais normal do mundo. Esta síndrome pode ocorrer em pessoas casadas, com filhos, felizes – de repente, do nada, a pessoa apaixona-se doentiamente por alguém.

Que o aconteceu a esta paciente?
Foi-me pedido que a recebesse no meu consultório para a ajudar a viver com esta paixão "impossível". No fim da terapia, apercebi-me de que continuava loucamente apaixonada por este médico, o seu dentista. A única razão por que ela o deixou de perseguir foi porque ele se mudou para outro país.

Alguma vez recusou tratar um paciente?
Nunca. Eu sempre vi todas as pessoas que me procuraram, mesmo as que eu sabia terem feito coisas horríveis. É como ser um advogado, não é parte nosso trabalho julgar, só resolver.

Qual foi a coisa mais romântica que um paciente lhe disse? E a mais louca?
É uma pergunta difícil. De certa forma, estes pacientes [os do livro] eram todos simultaneamente românticos e loucos.

A cura para o amor é amar outra vez?
É a descoberta de que é possível amar outra vez, que se pode ser feliz com outra pessoa, que cura um desgosto de amor. Tudo se resume ao facto de a pessoa acreditar, ou não, de que existe alguém predestinado para cada pessoa para sempre ? como se esse alguém fosse assumido como o destino. A cura para o amor é amar de novo.

O livro O Romântico Incurável, de Frank Tallis (Leya) está à venda por €16,90.
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