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A pornografia está a mudar. Já não há tabus. As mulheres assumem abertamente o seu prazer e a diversidade dentro da indústria é cada vez maior e melhor. Mas a aclamada realizadora Erika Lust acredita que ainda há um longo caminho a percorrer.
Por Máxima, 07.03.2017
A sua história começou em 2000, quando um livro de Linda Williams sobre o discurso de pornografia, feminismo e o seu impacto na sociedade a inspirou a procurar mais sobre o tema. Desiludida com a pornografia convencional que encontrou, Erika Lust decidiu fazer a sua primeira curta-metragem, The Good Girl, que ultrapassou os dois milhões de visualizações em alguns dias. Apercebendo-se que muitas pessoas, tal como ela, procuravam alternativas aos filmes pornográficos convencionais, não parou de os fazer: nos anos seguintes dirigiu mais quatro filmes, escreveu cinco livros, ganhou vários prémios e decidiu começar a ouvir as fantasias reais de pessoas comuns. Foi o que deu origem às XConfessions, um projeto que escolhe duas fantasias partilhadas pelo público, todos os meses, transformando-as em filmes explícitos e artísticos. Já realizou mais de cem. O seu trabalho é aclamado pela imprensa e pelo público, considerado "bonito, divertido, transgressor e inteligente".
 
Estando nesta indústria há já alguns anos, tem verificado algumas mudanças ou continua a ver demasiado sexismo e preconceito em relação às mulheres?
Nem um pouco! A indústria pornográfica convencional tem vindo a piorar relativamente aos sinais que emite. As cenas, os anúncios e os pop-ups estão a tornar-se mais e mais abusivos. Alguns banners ainda utilizam o verbo "abusar" nos seus slogans! Olhe em volta, para todos os canais gratuitos com pop-ups péssimos, e anúncios para "fazer sexo com a adolescente da porta ao lado"… A indústria pornográfica global de 97 biliões de dólares está constantemente a perpetuar um tipo específico de pornografia, onde o sexo aparenta ser violento e negativo. Mostra-nos uma visão unilateral muito pouco realista e também nos dá uma imagem perigosa sobre os papéis dos géneros: as mulheres como objetos sem desejo, os homens como dominantes sem inteligência sexual. A indústria é dominada por um certo tipo de olhar masculino com a mesma visão sobre o sexo: homens brancos de meia-idade, chauvinistas obcecados por mamas e rabos, que apenas são capazes de divulgar cenas de sexo repetitivas porque têm uma inteligência sexual muito limitada. O foco é no prazer dos homens e as mulheres estão a ser usadas para satisfazer os outros, mas não a elas próprias.
 
Qual é então a maior falha do universo pornográfico?
O maior problema é que o discurso é acessível a qualquer pessoa, reforçando conceções erradas destrutivas, tabus e estigmas e impactando o comportamento social. Felizmente há um género feito maioritariamente por mulheres que estão a tentar mudar a indústria de dentro e criar filmes que são artísticos e realísticos, que espelham positivamente a sexualidade feminina e que ajudam a mudar as perceções de géneros. Muitas criativas desta nova onda de diretoras como A Four Chambered Heart e A New Level of Pornography têm provado que a erótica pode ser uma forma de arte, continuando a puxar as barreiras para novos extremos, prestando atenção a cada detalhe de uma produção e criando filmes que são mais estimulantes e relacionáveis.
 
Que mudanças podem e devem ser feitas tanto de dentro como de fora da indústria pornográfica?
Podemos ser mais responsáveis quando consumimos cinema para adultos. O que significa ver cinema adulto ético. Se a equipa e as pessoas por detrás dos filmes estão escondidos, e não se orgulham do seu trabalho, então provavelmente não estão a trabalhar eticamente ou a tratar bem os seus atores. O meu cinema e a nova onda de cinema adulto tem a ver com tratar todos os envolvidos como seres humanos, estar atento às necessidades deles, pedidos e emoções, compensando-os justamente e providenciando um bom ambiente de trabalho com boas condições laborais.
Já que a pornografia é um discurso sobre a sexualidade, acho que o verdadeiro controlo sobre o prazer na pornografia vem de conseguirmos tomar decisões ativas sobre como é produzido e apresentado. E isso significa ter mulheres em papéis dominantes como realizadoras, produtoras, diretoras de arte, de fotografia, etc. Há uma necessidade real de que as mulheres assumam a representação da sua sexualidade, para ganharem poder, em vez de deixarem os homens ditá-lo. É por isso que estou a fazer uma audição aberta para mulheres que fazem filmes. Acredito na importância do olhar feminino numa indústria pornográfica dominada pelos homens, por isso tenho um orçamento de 250 mil dólares para este projeto.
 
Pode falar-nos sobre a sua filosofia acerca do cinema para adultos?
A minha filosofia para um novo tipo de cinema para adultos baseia-se em quatro ideias principais: o prazer das mulheres é importante, o cinema para adultos pode ter valores cinemáticos, precisamos de mais tipos de corpos, idades e raças, e o processo de produção tem de ser ético. Emite uma imagem positiva sobre a sexualidade e o enorme leque de diferentes sexualidades por aí, mostrando o sexo como divertido e cheio de paixão. Reflete a minha visão sobre o sexo como uma parte da vida saudável e natural, que devemos celebrar. Mostro homens e mulheres como colaboradores sexuais que representam a sexualidade feminina e os desejos, tendo em consideração a perspetiva feminina e o prazer feminino. E enquanto faço isto, tento torná-los o mais esteticamente bonitos e cativantes que consigo. Oh! E os atores têm prazer real, em vez de orgasmos altos e fingidos! Também é ético em relação aos sinais que estou a enviar com as histórias! Faço o consentimento acontecer, não mostro cenas irresponsáveis ou algo que tenha a ver com a coação, etc.
 
Qual é o aspeto mais desafiante de trabalhar na indústria pornográfica?
Devo dizer que nunca senti que trabalhava na indústria pornográfica. Faço filmes que têm sexo explícito, é tudo. Todas as cenas dos filmes são igualmente importantes porque acrescentam algo à narrativa. O erotismo dos meus filmes, a razão pela qual estes personagens têm sexo, é igualmente essencial. O que faço em termos de processo de produção, estética, histórias… não tem nada a ver com pornografia convencional. Por isso, para mim, a parte mais desafiante é lutar contra o facto de a palavra pornografia ser tão estigmatizada. Uma vez que a vasta maioria da pornografia que por aí há é irrealista na melhor das hipóteses, e violentamente racista, sexista e homofóbica na pior das hipóteses, acho normal haver tantos preconceitos. No entanto, é muito difícil fazer as pessoas perceberem que há uma pornografia alternativa que pode ser uma ferramenta para educar, desfazer estigmas e estereótipos e contribuir para a igualdade sexual. Acredito verdadeiramente que, além de ser divertido e saudável observá-los, os filmes explícitos podem ser utilizados como uma ferramenta para a libertação e educação sexual. Para muitas das pessoas que assistem, ajuda-as a celebrar a sua sexualidade e encoraja-as a terem poder através do sexo numa variedade de maneiras e a livrarem-se dos tabus! 
 
As suas séries XConfessions, baseadas em confissões sexuais anónimas, são um enorme sucesso. Como escolhe quais filmar?
Obrigada! Há muitos elementos para levar em consideração: a produção e localização, a linha editorial e a diversidade. As XConfessions são uma produção de elevado esforço, já que libertamos dois filmes por mês. Filmo cinco a cada três meses para que tenham cerca de quatro ou cinco meses antes de serem divulgados ao público online desde a sua ideia inicial e confessada. A produção é cara, é o mesmo do que qualquer outro filme independente. Aliás, funciona tudo praticamente de maneira semelhante, exceto que também contém sexo explícito. Por tudo isso, quando escolho uma fantasia depositada no XConfessions, os custos de produção são sem dúvida algo ao qual tenho de olhar imediatamente! O enredo também é importante. Quero que as histórias sejam sobre algo diferente e excitante. Quero mostrar o sexo como uma maneira divertida e natural de as pessoas se identificarem com as situações e com as personagens, como se fosse algo que pudesse realmente acontecer-lhes. Tento sempre narrar uma história que responda à pergunta: "Porque é que estas pessoas estão a fazer sexo?" Quando escolho uma fantasia submetida no XConfessions, a autenticidade é importante para mim.  
 
 
Na sua TEDx Talk refere que a Suécia é provavelmente um dos melhores países para se crescer com uma consciência feminista, o que foi o seu caso. Como é que a sua educação ajudou a desenvolver esta feminista sex-positive que há em si?
 
Cresci em Estocolmo, numa casa onde nem o sexo nem a sexualidade foram assunto alguma vez. No entanto, aprendi tudo na escola. A educação sexual apropriada à idade abordava tudo, desde carícias ao consentimento, respeito e emoções. Aprendi que o sexo pode ser mais do que físico; pode envolver emoções e conexão. Os rapazes e as raparigas são separados em duas salas para a aula de educação sexual e podíamos perguntar tudo o que quiséssemos, não éramos censurados e tudo era privado. As conversas que podíamos ter e as nossas questões não eram explicadas aos nossos pais. A nossa privacidade era muito respeitada. Permitiu-me ter um espaço seguro para falar sobre a sexualidade, para aceitá-la e vê-la como uma parte natural da vida e não como um tabu. Encorajou-me a ter um pensamento crítico.
 
Também fala sobre a parte "agridoce" da pornografia tradicional como sendo uma espécie de prazer com culpa. Pode explicar esta ideia?
Quando vemos cinema para adultos, estamos a enfrentar um dos instintos mais animais que os humanos têm e enfrentamos algumas das realidades mais profundas sobre nós. Quando as pessoas se apercebem, por exemplo, de que gostam ou que se sentem atraídas por coisas tidas como "não normais" isso pode perturbá-las porque temos uma mão-cheia de sentimentos contraditórios com os quais ainda não sabemos lidar. Obriga-nos a fazer um esforço consciente para aceitar a sexualidade. Sair da nossa zona de conforto é sempre uma tarefa difícil. Por outro lado, muita desta pornografia grátis online é racista, sexista e degradante para as mulheres. No entanto, tem um conteúdo sexual que nos excita. Instinto. Tudo junto pode deixar-nos com um sentimento de vergonha e desconforto e não deveria ser esse o caso.
 
A primeira vez que alguém vê pornografia pode ser uma experiência memorável e nem sempre boa. Qual é a sua opinião sobre a ligação entre cinema para adultos e os mais jovens?
A triste verdade sobre a sociedade moderna é que, hoje em dia, as crianças estão a aprender sobre sexo não na escola ou com os pais mas através de pornografia online. Ainda temos de perceber como é que a pornografia de massas está a afetar as nossas crianças. É a primeira geração a crescer com smartphones e acesso instantâneo à Internet. É a primeira geração que não tem de espreitar às escondidas para dentro da caixa secreta de Playboys dos pais, porque simplesmente escrevem "sexo" no Google, por curiosidade natural, e são inundados por um mundo de vídeos grátis e imagens.
Como disse recentemente a Cindy Gallop, "esta área [pornografia] irá impactar a felicidade dos vossos filhos mais do que qualquer outra para o resto das suas vidas" e ela tem toda a razão. As nossas crianças e os olhos adolescentes são inexperientes e podem interpretar mal estas situações sexuais e vê-las como realistas.
 
Para a maioria dos pais, falar com os filhos sobre sexo não é uma tarefa fácil. Que temas considera importante abordar neste tipo de diálogos?
Acho que todos queremos que os nossos filhos cresçam respeitando-se a si próprios e uns aos outros, evitando situações perigosas e mantendo presente a ideia de que os seus corpos pertencem-lhes, que qualquer envolvimento sexual deve ser consentido mutuamente e que nunca se devem sentir pressionados a ter relações sexuais. Mas, ao mesmo tempo, que o sexo é uma coisa bonita e que não devem ter vergonha de sentir desejo, luxúria e apetite sexual. Frequentemente, quando falamos com as crianças e adolescentes, advertimo-los para os perigos dos comportamentos sexuais e deixamos de fora os sentimentos positivos. Também precisam de ouvir sobre o prazer por detrás da responsabilidade sexual.
 
Tem um projeto dirigido à educação dos mais novos. Em que consiste?
Eu e o meu marido temos duas filhas que provavelmente irão "tropeçar" em pornografia online e queremos que estejam preparadas e que tenham um pensamento crítico, por isso começamos um movimento através de um website não lucrativo chamado #Theporntalk. Achamos que a proibição e a vergonha não são a resposta, acreditamos, ao invés, na educação e conversação e fazemos campanha para alertar e equipar melhor os nossos jovens. Para os pais estarem preparados, neste website podem fazer o download de três guias que são apropriados e específicos para determinadas idades, que os irão encorajar e guiar ao longo do processo de ter "A Conversa" com os seus filhos e adolescentes, assim como uma coleção com artigos e vídeos. No futuro, queremos acrescentar espaço para que os pais possam interagir uns com os outros e partilhar histórias e já estamos a falar com sexólogos de renome que irão contribuir com o seu expertise para esta secção de recursos. 
 
Qual é o aspeto mais recompensador do seu trabalho?
Adoro o que faço! Adoro ver o resultado final do trabalho de toda a minha equipa e adoro receber feedback a toda a hora. Todas as semanas temos comentários positivos de homens e mulheres! Solteiros, casados… não há um grupo demográfico específico, o que todos têm em comum é que apreciam o trabalho que estou a realizar para uma cultura mais positiva sexualmente, onde o prazer feminino importa, e agradecem-me por trazer uma luz mais positiva na vida sexual deles e sobre a sexualidade. É essa a minha missão!
 
Carolina Silva
 *Originalmente publicado na edição nº 341 da Máxima (Fevereiro 2017). 
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