Saúde

Será a restrição calórica o novo elixir da juventude?

Hoje na Culturgest há uma conferência sobre a prevenção do envelhecimento celular. Antecipámos a conversa com Cláudia Cavadas, a oradora, e encontrámos esperança numa nova e excitante descoberta científica.
Por Carlota Morais Pires, 02.10.2017

"Agora sabemos que o envelhecimento depende, naturalmente, de fatores genéticos - mas 75% desta equação está relacionada com o nosso estilo de vida", começa por dizer Cláudia Cavadas, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. Falamos ao telefone a propósito da conversa sobre o cérebro e a idade que está a preparar e que vai acontecer hoje às 18h30 na Culturgest, no contexto da série de conferências Discursos do Cérebro - Revelações das Neurociências, que começou no início do mês de setembro e que tem "como ponto de partida a investigação de excelência que se faz em Portugal na área das neurociências, para uma conversa aberta, pensada para o público curioso". Já falámos sobre uma das conversas, sobre a importância do cérebro no comportamento alimentar, aqui

"Hoje não vou falar sobre o envelhecimento cutâneo, mas sobre as células. Têm sido realizados vários estudos que mostram que a restrição calórica tem efeitos benéficos no hipotálamo, uma área do cérebro que controla as nossas funções vitais básicas (tão importantes, como o apetite, o sono, o crescimento, o desenvolvimento, os ritmos cardíacos, o metabolismo e a reprodução) e que pode desacelerar o processo de envelhecimento celular, além de melhorar a nossa qualidade de vida quando envelhecemos", explica Cláudia Cavadas, que está neste momento a liderar o estudo.     

Será que a restrição calórica retarda o envelhecimento e as doenças relacionadas com a idade através de mecanismos relacionados com o hipotálamo? A investigadora acredita que sim. "Todos os estudos realizados em animais mostram que a redução calórica está diretamente relacionada com o aumento da esperança média de vida e da qualidade de vida", explica com entusiasmo.

Nos estudos conduzidos pelo grupo de investigadores que coordena, reduziu-se em 20% a 40% o número de calorias ingeridas por ratinhos, diminuindo as quantidades das porções sem provocar subnutrição. As conclusões foram esclarecedoras: esta diminuição não só atrasou o envelhecimento dos animais, como também prolonga a sua qualidade e esperança de vida.

"A alimentação tem uma importância enorme no processo de envelhecimento celular", assegura Cláudia Cavadas. Com o passar do tempo, o sistema de autofagia (isto é, o mecanismo intracelular que leva as células a reciclarem os seus próprios componentes que, entretanto, deixam de ser necessários) também perde força e capacidade. Se o organismo está desnutrido, a autofagia surge como uma estratégia de sobrevivência que permite que a célula redistribua os nutrientes para as atividades essenciais. Além disso, inicia-se um processo natural de destruição de estruturas que ficam no interior das células, responsáveis por funções essenciais, mas que já estão desgastadas ou envelhecidas – é no fundo uma espécie de detox e limpeza. O jejum desencadeia a autofagia (a descoberta é do biólogo japonês Yoshinori Ohsumi, distinguido com o Prémio Nobel em dezembro do ano passado) - mas agora o que os cientistas querem aprofundar é a forma como esta restrição calórica pode contribuir para a longevidade das células.

"O que estamos a concluir agora é que a restrição calórica pode travar o envelhecimento, mas também aumentar a qualidade de vida durante esses anos que vivemos, no fim de vida", acrescenta Cláudia Cavadas. Por outro lado, também pode ser forma de evitar doenças neurodegenerativas graves, como o Parkinson ou Alzheimer.

É difícil testar os resultados no cérebro humano – mas em todos os animais submetidos às experiências no âmbito da investigação viveram mais tempo quando lhes diminuíram a ingestão calórica, mesmo que em pequena percentagem.  "A primeira investigação científica a estudar o hipotálamo é de 1935 – a potencialidade desta área do cérebro não é uma novidade", diz Cláudia Cavadas. "O que é difícil é por em prática o que sabemos, encontrar formas de impedir o processo natural de envelhecimento sem afetar o organismo", garante a investigadora. "Para já estamos a investigar os efeitos benéficos da restrição calórica e já chegámos a bastantes conclusões. Acredito que num futuro próximo vamos ter ainda mais conhecimento e certezas".

A conferência Elixir da Juventude acontece hoje na Culturgest, em Lisboa, às 18h30. A entrada é livre.    

 

 

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