Família

Qual a escola certa para os nossos filhos?

Continua a ser uma das grandes preocupações para quase todos os pais. Falámos com Carla Marina Mendes, autora do livro A Escola Certa Para o Seu Filho, para saber quais os pontos a ter (sempre) em conta no que toca ao estabelecimento de ensino das crianças.
Por Ângela Mata, 14.11.2017

A escola é um dos temas mais controversos entre pais, capaz de suscitar as mais diversas dúvidas sobre o futuro. Foi a pensar nisso que Carla Marina Mendes, jornalista há 19 anos, mãe de um rapaz e autora do livro A Escola Certa Para o seu Filho (Livros Horizonte), resolveu abordar o tema de forma mais aprofundada.

No livro, é feita uma análise pertinente do panorama nacional atual e são apresentados exemplos de diferentes pedagogias. Falámos com a autora sobre alguns pontos importantes a reter no momento de tomar decisões sobre a educação dos mais novos.

 

Por onde devem começar os pais, quando se veem na situação de escolher a escola para os filhos?

Posso apenas dar a minha opinião enquanto mãe e cidadã. Tenho um filho de dez anos e a questão da escola certa ou da melhor escola foi um tema que gerou grande preocupação lá em casa. Visitámos vários estabelecimentos de ensino pré-escolar e nada me agradou. E nem sei bem explicar porquê. Mas o que essa experiência e outras depois dessa me ensinaram é que é muito importante estar atento, confiar no nosso instinto. E visitar os locais, perceber qual o modelo educativo, quais as regras que estão subjacentes ao funcionamento das escolas (se os pais são bem-vindos ou se têm de ficar do lado de fora do portão, como se processa o acompanhamento das crianças e por aí fora). Mas sobretudo confiar no instinto.

A que parâmetros e características escolares é que os pais devem estar atentos?

No livro, tenho algumas linhas dedicadas a este aspeto, escritas com a ajuda da psicóloga clínica Filipa Jardim Silva, que defende que é preciso "retirar alguma da pressão associada a este momento". Porque, de facto, ela pode ser grande e o momento gerador de grande stress. É preciso definir e priorizar os aspetos considerados mais importantes, tendo em conta a análise das instalações, dos materiais disponíveis, dos espaços, dos métodos educativos, do grau de participação da família na escola, dos horários, das atividades, das ementas escolares, da localização...

Quais os sintomas de alerta (numa criança) que podem indicar que talvez aquela não seja a escola adequada?

Ninguém conhece os nossos filhos melhor do que nós. E é a eles que temos de estar atentos, às suas reações, à forma como agem perante determinada situação. E, lá está ele outra vez, o instinto. Os sinais podem ser muito diferentes porque não há duas crianças iguais.

 

Uma criança intelectualmente mais avançada pode ser um problema também?

Sim, e isto porque, tal como acontece com outras situações, não é respeitado o ritmo de aprendizagem das crianças. Se as que são lentas demais a aprender são um problema, as que aprendem depressa demais e precisam de motivação para continuarem atentas também o são. E a falta de resposta do sistema nestes casos é grande.

Quais os principais problemas ‘diagnosticados’ nas crianças consideradas problemáticas?

Há milhares de crianças identificadas como tendo necessidades educativas especiais. E dentro deste conceito ‘cabe’ muita coisa (problemas físicos, emocionais, cognitivos). Depois, há as outras crianças, aquelas que, não tendo diagnóstico, são consideradas problemáticas porque não ‘encaixam’ (mexem-se demais, falam demais, concentram-se de menos, etc.). De acordo com o Infarmed, entre 2010 e 2016, houve um aumento da procura do metilfenidato, medicamento conhecido comercialmente como ritalina e normalmente prescrito para combater as perturbações de hiperatividade e défice de atenção. De 133 mil embalagens dispensadas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde em 2010 passou-se, seis anos depois, para dispensas na ordem das 270 mil. Ou seja, temos cada vez mais crianças medicadas. E não é preciso ser especialista para considerar estes dados muito preocupantes.

Por vezes, o problema pode não estar só na escola e sim na família?

Sim, há famílias problemáticas, famílias com muitas dificuldades, que acabam por ter reflexos nos mais pequenos e no seu rendimento escolar. Até porque, se é nas escolas que passam a maior parte dos seus dias, é natural que isso aconteça.

Considera perigoso os pais que passam para os filhos os seus próprios sonhos?

Eu acho que acaba por ser um pouco inevitável que assim seja. Acabamos por projetar neles muita coisa e desejamos para eles muito do que gostaríamos de ter tido, mas não tivemos. O que temos de perceber é que eles têm os seus interesses, os seus desejos, os seus sonhos. E respeitá-los.

Atualmente, ouvimos muitos pais queixarem-se de que os filhos têm atividades escolares a mais e trabalhos de casa em excesso… Este é de facto um problema no nosso país, que deveria ser revisto?

Basta olhar para os números. Quando frequentava o 1.º ciclo do ensino básico, o meu filho entrava na escola às 9h00 e saía às 17h30. E isto porque eu tinha a sorte de ter alguém que o podia ir buscar a essa hora, já que o meu trabalho não me permitia sair tão cedo. Caso contrário, ele teria de ficar mais uma hora e meia todos os dias. Contas feitas, entre os 6 e os 9 anos, ele passava 41,5 horas por semana na escola. Depois, tinha trabalhos de casa, que ocupavam mais umas quantas horas. Onde está o tempo para brincar, para não fazer nada, para ser outra coisa que não alunos? Onde está o tempo para serem crianças? Sim, acho que é muito importante que se reveja a carga horária escolar, os TPC... Mas também é importante dar aos pais condições, e aqui falo das laborais, para não terem de deixar os seus filhos horas a fio na escola.

 

Como é que viu a recente polémica criada em volta de dois livros publicados pela Porto Editora que diferenciavam o sexo das crianças (o livro para as meninas e o livro para os meninos)?

Acabei por dedicar, no livro, um capítulo à questão das diferenças entre meninos e meninas. E cheguei à conclusão que este é um tema que nem no meio científico encontra consenso. Abigail Norfleet James, investigadora norte-americana e especialista em educação, não tem dúvidas de que os rapazes e as raparigas aprendem de forma diferente, o que ela diz ser resultado da neurobiologia ? as diferenças estão no cérebro. Uma outra investigadora com quem falei, Lise Eliot, professora de neurociências da Chicago Medical School, da Universidade Rosalind Franklin de Medicina e Ciência, reconhece essas diferenças, mas não as valoriza. Segundo ela, "todas as crianças aprendem de forma diferente. E as diferenças individuais na forma de aprender geralmente ultrapassam as diferenças de género". Dá, em vez disso, mais valor aos aspetos educacionais e culturais, referindo que somos nós que educamos os rapazes para gostar de azul e as meninas de rosa. Ou seja, este é um tema que está longe de ser pacífico.

Quais os pontos-chave que deveriam ser mudados no ensino em Portugal?

Eu acredito na escola pública, mas acho que não tem havido uma aposta na educação em Portugal. E tendo em conta que é o futuro que está em causa, não consigo perceber este desinvestimento, que tem sido uma constante. A pesquisa que fiz para o livro deu-me a conhecer melhor uma série de pedagogias que existem há décadas e que, por alguma razão, continuam a ser vistas como alternativas. Falo do Movimento da Escola Moderna (MEM), do Highscope e de outros, com resultados comprovados, mas que não são (ou são pouco) implementados nas escolas públicas. O professor Sérgio Niza, um dos principais nomes por detrás do MEM, dizia-me que esta mudança na educação é como uma mudança de cultura. "E uma mudança de cultura é quase como uma mudança de pele." Parece fácil, mas não é.

Em poucas palavras, num mundo ideal, como seria a escola perfeita?

Uma escola que, acima de tudo, olhe para as diferenças das crianças não como um problema mas como uma oportunidade. Uma escola que respeite os diferentes ritmos de aprendizagem, que seja capaz de conquistar as crianças, que as envolva, que lhes dê voz, que as motive, dando-lhes a possibilidade de serem mais do que meros espectadores.

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