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Páginas da revolução

Uma lutou contra o regime de Salazar, a outra é filha do último líder do Estado Novo. Mulheres antes do feminismo de agora testemunharam a mudança e a luta pela liberdade.
Por Máxima, 25.04.2017
O seu amor por dois homens (marido e pai) tornou-se parte da História e as suas estórias mostram que o 25 de Abril não nasceu nem terminou num dia só. 

Maria José Morgado
 
Com o marido José Luís Saldanha Sanches fez dupla contra o regime de Salazar. Foi militante do MRPP, esteve presa, entrou para o Ministério Público e dedicou-se à investigação criminal. Hoje, é procuradora geral distrital de Lisboa e já foi considerada a mulher mais poderosa do país.

"A vontade de mudar o mundo nasceu com as circunstâncias de olhar para um mundo com fenómenos de pobreza insuportável, desigualdades sociais, opressão. Eu vivia com os meus pais no interior de Angola, no tempo do colonialismo, e percebia-se a opressão dos colonizados. Essa opressão sempre me impressionou e revoltou intimamente. Não gostava de ver pessoas sofrer.
Conheci o Zé Luís [José Luís Saldanha Sanches] na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1972 e nunca mais nos separamos até à sua morte, em maio de 2014. Ele tinha acabado de sair da prisão de Peniche, saído do cumprimento de uma pena de seis anos por razões políticas. Era o chamado preso político, mais velho do que eu. Eu era uma jovem sonhadora que queria e acreditava que podíamos mudar o mundo através da revolução proletária. No fundo, unia-nos o desejo de combater a ditadura fascista, de conquistar a liberdade e um país melhor, com mais justiça e mais igualdade. Na altura, o movimento estudantil contra o fascismo e a guerra colonial agitava as faculdades em Lisboa e no Porto, havia uma enorme efervescência, com meetings e manifestações diárias que quase sempre acabavam na rua com a distribuição de comunicados à população. Sentíamos o apoio de toda a população cada vez que vínhamos para a rua. As pessoas tinham uma enorme ânsia de mudar, mas tinham medo de falar e de serem presas por causa disso.
Nessa época houve muitos estudantes presos pelo regime, eu também fui presa e havia lutas intensas nas faculdades. De tal forma que as principais Faculdades estavam ocupadas por um corpo especial de seguranças conhecidos pela designação de ‘gorilas’. Os tais gorilas tinham por missão impedir as reuniões de estudantes e impor uma forte repressão. Estávamos nos anos 73/74 e o regime estava podre, sem que o soubéssemos. Percebemos isso na forma como caiu facilmente com o movimento dos capitães, no 25 de Abril de 74.
Estive presa muito pouco tempo, de outubro de 1973 a fevereiro de 1974. Fui presa pela PIDE por ser maoísta e militante do MRPP. A prisão fazia parte do programa de luta. Para mim foi uma experiência dura, mas importante. Fui submetida à tortura do sono, fui espancada, mas resisti com alegria. Eram as regras do jogo. A PIDE era uma polícia política ao serviço da ditadura fascista e o processo seguiu os trâmites habituais. As provas eram os comunicados contra o regime encontrados na minha posse, a minha participação em atividades contra o regime (manifestações, reuniões, etc.) e fui acusada de um crime contra a segurança do Estado e de associação de malfeitores, por fazer parte de um grupo maoísta. Não existia qualquer liberdade de pensamento e de expressão e seguir ativamente orientações ideológicas contrárias ao regime era considerado crime. Eu acreditava no que fazia e o sofrimento ou a prisão eram uma espécie de purificação pessoal, uma aproximação do sonho – ainda que com sangue, suor e lágrimas. Mas era assim. A recordação é de uma luta gratificante e não há nenhuma memória traumatizante. Há por vezes até a saudade de um tempo obscuro onde a luta dos jovens estudantes simbolizava ideais de liberdade, humanidade, democracia.
Por vezes, recordo as visitas da minha mãe na prisão de Caxias. Ela vinha muito comovida, a visita era vigiada por um PIDE, não podíamos falar do que nos interessava e passávamos o tempo a olhar muito uma para outra, os olhos diziam tudo. A minha mãe e o meu pai foram muito corajosos e sempre me apoiaram. Nessa altura o meu marido voltou a ser preso. Mandávamos mensagens um ao outro em minúsculos papelinhos que enfiávamos nas bainhas das calças e das saias, para a PIDE não se aperceber.
Naquele tempo, sair da prisão era continuar a luta. As emoções eram muito fortes, mas sempre canalizadas nesse sentido. Por isso, pouca coisa mudou, só me sentia mais importante com uma prisão no ‘currículo’. Ou seja, tinha resistido à prova de esforço que era enfrentar a PIDE, estava mais forte e confiante. Era assim.
Reconstituir o dia do 25 de Abril é algo muito difícil. Foi um enorme turbilhão, não tínhamos a informação completa do que se estava a passar. Quando percebemos que era um golpe militar contra a ditadura juntamo-nos às multidões que encheram as ruas em manifestações. Lembro-me de não dormir durante vários dias, não ir a casa, andar só em manifestações e reuniões populares. É indescritível a fome de liberdade que se sentia nas pessoas. Eramos todos revolucionários. O Zé Luís foi libertado nessa altura do forte de Caxias, onde estava preso com dezenas de antifascistas que foram soltos na mesma altura. Durante vários meses a nossa vida foi um rio que correu para a liberdade, no meio da multidão, numa alegria coletiva imensa de comemoração da queda do regime. O 1º de Maio de 74 é o exemplo dessa libertação embriagada, festejada com o povo.
Em setembro de 1975 saí do partido. Saí com o Zé Luís. Tínhamos chegado à conclusão de que o marxismo-leninismo maoísmo era uma ideologia errada que conduziria o país a um desastre, estávamos numa descrença profunda. Eu fui percebendo isso durante o período em que fui presa pelo COPCON, o que me permitiu uma reflexão especial. Tínhamos de cortar com o que já não acreditávamos. Eu era a mesma pessoa, o partido é que já não nos convencia. Não servia para nada, era preciso sair com urgência. Foi o que fizemos. Regressamos à Faculdade para acabar o curso e retomamos uma vida normal. Não foi fácil. Foi muito mais duro do que ser presa pela PIDE. Porque estávamos estigmatizados pela nossa atividade extremista, radical, tínhamos cortado com tudo e não foi fácil voltar à normalidade. Deixar uma revolução que afinal não existia e tratar da vidinha. Era isso que tínhamos de fazer e fizemos. Aliás, nunca mais voltei a pensar em atividades político-partidárias, fiquei mesmo alérgica. Escolhemos um caminho completamente separado da atividade política que deixou de nos interessar. O Zé Luís foi para a Faculdade de Direito e eu para o Ministério Público. Entretanto, nasceu a nossa filha Laura, em junho de 1976. Ela era no fundo o maior sinal do regresso à normalidade, consagrou o fim das militâncias revolucionárias e agarrou-nos a uma vida nova.
Os meus amigos chegaram a chamar-me Mizé-Tung. Não sei como nasceu o nome, talvez do meu radicalismo e fanatismo típico. Sempre fui muito teimosa e nessa altura, há mais de quarenta anos, as teimosias eram os extremismos maoístas. A alcunha foi bem posta, mas é passado muito distante. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa normal, consigo juntar a combatividade à flexibilidade, a dureza à ternura, tenho as minhas fraquezas. As injustiças e a pobreza dão-me uma incómoda sensação de impotência. É preciso ter cuidado com os retratos estereotipados transformados em caricaturas e pouco verdadeiros. Depois, é preciso saber ler a história e ter a noção da época longínqua e diferente destes acontecimentos. Não vivo agarrada ao passado."
Ana Maria Caetano
 
Fundadora e coordenadora do Externato Grão Vasco, terapeuta da fala e técnica de saúde mental. A única mulher entre os quatro filhos de Marcello Caetano. Chegou a acompanhar o pai nas cerimónias de Estado e viveu com ele até ao 25 de Abril e a sua partida para o exílio. O 25 de Abril contém também a sua liberdade.
"Adorava sair ao meu pai em inteligência, em cultura, em capacidade de trabalho. Considero-me boa trabalhadora, mas não como o meu pai. Eu gosto de olhar para o ar, ele nas suas horas do dia não tinha um minuto de descanso, de preguiça. Tinha uma cultura geral… Sabia tudo! E não o digo daquela forma que dizemos quando somos pequenas e depois passamos a crescidas e os nossos pais já não sabem nada. Ele sabia tudo e tinha uma memória… Chegámos a zangar-nos por causa disso. Eu achava que tudo o que ele sabia já não era cultura, mas memória. E ele defendia que a memória era a atenção que dávamos às coisas ? e ele sempre achou que eu não sabia as coisas porque não lhes dava a devida atenção. Éramos muito parecidos na maneira de reagir e até as mágoas eram semelhantes. Às vezes magoávamo-nos um ao outro e deixávamo-nos de falar. Durava um ou dois dias, não mais. Se eu tinha culpa, batia-lhe à porta do escritório e pedia desculpa. Se era ele, fazia a mesma coisa. Eu admirava-o muito e ele a mim. Ele sempre achou que eu era capaz de tudo. Quando fui tirar o meu curso de Terapia da Fala, por volta dos 26 anos, já não estudava há tanto tempo, desde o liceu, que tive receio de não ser capaz. Ele disse-me: ‘Tu és capaz de tudo o que tu quiseres.’
O meu pai foi Ministro das Colónias muito cedo, teria eu uns sete anos. Lembro-me de as meninas do colégio perguntarem o que o meu pai fazia e eu respondia com uma certa vaidade: ‘É Ministro.’ Mas não fazia ideia do que isso significava, nem tinha essa noção. Os meus pais sempre fizeram a mesma vida e na nossa casa nunca houve mudanças por causa do lugar que o meu pai ocupava. Não se comprava nada a mais. O meu pai também nunca faltava às refeições em família. Às vezes tinha reuniões e atrasava-se um pouco, mas de resto estava sempre à hora. E ouvia-nos muito. Havia uns serões que nos dedicava e contava histórias. A Dona Redonda e a Zipiti – ele dizia que eu era a Zipiti e quanto contava as histórias fazia vozes diferentes para os personagens. Era muito engraçado. Eu era a menina do meu pai – não é que os meus três irmãos não fossem, porque admirava cada filho pelas suas capacidades, mas sempre exigiu mais deles do que de mim. Tive algumas benesses por ser a menina ‘engraçada’.
Chegou uma altura em que os meus irmãos começaram a tomar as suas decisões políticas. E isso incluía estar a favor do meu pai ou não, seguir as suas ideias ou não. Eu nunca pus em questão, embora me inquietasse imenso. Sempre tive uma inquietude imensa durante a vida – e ainda bem. Interrogava-me sobre a guerra colonial, sobre a liberdade de expressão, a PIDE, a pobreza e a riqueza, e ia perguntando ao meu pai. Ele explicava tudo. Mas deixava-me sempre a pensar.
Fomos educados de uma maneira interessante porque o meu avô era democrata republicano, poeta, uma pessoa excecional e adorava o genro, meu pai, que tinha ideias completamente diferentes. Às quartas-feiras íamos jantar todos juntos e ele falava muito com o genro sobre literatura, não importa se de esquerda ou de direita. Costumo dizer que bebemos biberões de duas correntes diferentes e que seria assim o ideal democrático: que as pessoas pudessem todas dizer as suas ideias e depois entendiam-se. Mas não é assim. Em casa, o meu pai sempre nos deu liberdade. Aceitava as nossas críticas, minhas e dos meus irmãos, desde que bem fundamentadas. Tínhamos liberdade de ideias, de estudos, de companhias. É engraçado porque eu nunca casei, mas tive um romance durante vários anos. E quando as pessoas diziam alguma coisa sobre vivermos juntos mas não estarmos casados o meu pai respondia: ‘Eles são solteiros e não estão a fazer mal a ninguém.’
Tirei Terapia da Fala, depois interessei-me por Psicologia e fiz Psicanálise durante muitos anos. O que me interessava na saúde mental? Fui parar a esta área por acaso, mas parece que a nossa vida nos forma para o resto. A minha mãe tinha uma doença mental, uma depressão, e tomei conta dela até falecer. Nunca substituí a minha mãe, mas quando era preciso uma figura feminina era eu que acompanhava o meu pai nos eventos. Fiz isso com muito gosto e aprendi imenso, conheci pessoas interessantíssimas.
Já estava a trabalhar no Centro de Saúde Mental Infantil quando aconteceu o 16 de Março [golpe das Caldas]. Era de noite ? e de noite era sempre eu que atendia os telefonemas lá em casa. Ligaram a dizer para o meu pai sair de casa, ouvi o carro, as motas e essa coisa toda, mas não dei muita importância. O meu pai tinha uma maneira de estar que herdei: não nos assustamos, perante as situações graves fico calma. Só pensava: ‘Tenho de ir dormir porque amanhã vou trabalhar.’ De manhã fui para o meu trabalho e quando voltei ele estava no escritório. Nessa noite perguntei-lhe como seria se o golpe tivesse acontecido. Ele falou-me de várias hipóteses: ‘Posso ser morto, ir para o exílio, ser preso.’ Perguntei o que devia fazer para estar informada. ‘Vais sabendo pelos meios de comunicação’, respondeu. Assim foi.
Na noite de 24 para 25 de abril, pelas 5 da manhã, recebi um telefonema de um ministro a perguntar se o meu pai estava em casa. Eu não sabia, mas fui ver. Liguei para os vários sítios onde ele podia encontrar-se, o quarto, a biblioteca, o escritório. Ele não respondeu, achei esquisito, levantei-me e fui ver que não estava em casa. Perguntei o que se passava e o tal ministro mandou-me ouvir as notícias na rádio. Não sabia muito bem o que se ia passar porque nunca tinha vivido uma revolução. Fui-me deitar e de repente liga o meu irmão a dizer que um primo me vinha buscar para ir ter com ele, que não era seguro estar em casa. Saí de camisa de dormir e saco de água quente. Já não sei se voltei no mesmo dia, se fiquei lá a dormir, mas fomos acompanhando tudo. Depois, tive de trabalhar as coisas práticas, ou seja, voltar para casa, desfazer-me dela e ir trabalhar. Antes de o meu pai partir para o Brasil telefonaram-nos a pedir para lhe levar uma malinha com alguma roupa e dinheiro. Era fim do mês e ninguém tinha nada. Fui ao emprego receber o meu ordenado e quando fui à Madeira (porque ele antes de ir para o Brasil esteve na Madeira) visitar o meu pai levei-lho. Ele disse-me: ‘Por lei não posso sair daqui com mais do que vocês já me deram.’ Acho que foi um gesto muito bonito da parte dele para eu não ficar sem dinheiro…
O 25 de Abril foi uma mudança necessária para a sociedade. Tinha de haver liberdade. Democracia. Parlamento, partidos. Era óbvio. Para mim, foi uma mudança grande e também necessária. Digo muitas vezes que também tive um 25 de Abril: deixar a casa dos meus pais e ir viver sozinha. No trabalho, questionei o diretor do Centro de Saúde Mental Infantil sobre a minha presença nos plenários. Ele respondeu-me: ‘Alguma vez teve um papel especial aqui?’ Então lá fui. E foi espantoso: não sei quantos éramos, talvez umas 300 pessoas, e podiam falar do governo, da ditadura e de tudo o resto, mas não referiam o nome do meu pai. Porque eu estava ali. Quiseram que continuasse a trabalhar, designavam-me para comissões de trabalho. Todos diziam que não concordavam com o meu pai (porque logo no dia seguinte ao 25 de Abril já ninguém era fascista…), mas que tinha sido um grande professor, um bom homem e um homem honesto. Cheguei a sentir medo e às vezes ouvia uns ‘recados’, mas não sofri perseguições e em situações em que podia ser hostilizada deparava-me com o oposto. Sempre defendi o meu pai conforme pude, mas nunca percebi porque foi político. Não sabia fazer intrigas. Não sabia fazer jogos políticos. Era um homem da cultura.
Quando foi para o exílio deram-lhe a escolher: Espanha ou Brasil. Ele quis ir para mais longe.  Chegou ao Brasil a 26 de maio, um domingo, e foi viver provisoriamente para o Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, sem nada, como um monge. Em junho, arranjou uma casa própria e eu fui visitá-lo logo no verão. Ele era tão despojado do dinheiro e dos bens materiais, não ligava nenhuma aos ‘teres’, tive de lhe arranjar umas coisinhas, uns sofás, forrar umas cadeiras… Todos os anos lá ia passar os anos dele, a 17 de agosto, menos no último ano, que decidi ir lá passar o Natal, mas ele morreu em outubro… Uma vez fomos lá a um casamento. Estava a noiva a entrar e ele disse-me ao ouvido: ‘Se casares, ainda te dou um casamento assim.’ Julgo que era mais a ideia de ter alguém a olhar por mim. Ou então queria que eu tivesse casado. Lembro-me de quando era pequenina, vivíamos num andar no Saldanha com um corredor enorme. Ele dava-me o braço, cantava a marcha nupcial e lá íamos nós a passo até à casa de jantar."
 
Testemunhos recolhidos por Patrícia Domingues
*Texto originalmente publicado na Máxima de abril (nº 343)
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