Família

Os métodos de ensino alternativos que deve conhecer

Há escolas que ensinam diferente, com métodos High Scope, Waldorf, construtivista, com ou sem manuais. É de queimar as pestanas para leigos na matéria. E por isso visitámos alguns exemplos para lhe fazer esta cábula.
Por Paula Cristovão Santos, 08.09.2017
Escolas João de Deus
Onde
55 centros no país e ilhas
Modelo de ensino
Cartilha Maternal
Propina Em função do IRS dos pais

Desde o jardim-escola ao ensino superior
A antiguidade nem sempre é um posto. Sobretudo num tema alternativo (no sentido restrito de opção ao convencional). Mas António Ponces de Carvalho, diretor dos Jardins-Escolas João de Deus, as mais antigas do país, ajuda-nos a contextualizar: "A Constituição Portuguesa consagra aos pais a escolha livre da educação para os seus filhos, da mesma forma como acontece com a liberdade religiosa, política…" E nestes 55 centros educativos distribuídos pelo país e ilhas, os pais escolhem um método de ensino que remonta a 1877, ano em que João de Deus escreveu a Cartilha Maternal. Através dela, as crianças aprendem a ler na sequência da aprendizagem da linguagem oral e, apesar de ter mais de 100 anos, este processo "tem resultados extraordinários", garante. "A criança aprende a ler e a escrever com mais facilidade, adquirindo competências metalinguísticas." Ponces de Carvalho destaca os prémios e conquistas da Escola inspirada pelo seu avô: "Nos últimos exames nacionais, não houve uma única negativa entre os alunos do 6.º ano." Aqui, a tradição ainda é o que era e a disciplina das Escolas nem sempre tem angariado simpatias. Ponces de Carvalho salienta porém ter os olhos postos no futuro. Em breve, está pensado um centro João de Deus no Belas Clube de Campo com a perspetiva de ser bilingue. "A neurociência diz-nos que as crianças bilingues estão mais aptas a desenvolver outras capacidades, além das linguísticas."

Onde Santo Tirso
Modelo de ensino Projeto educativo que promove a autonomia e responsabilidade 
Propina Escola Pública
Pré-escolar, 1.º, 2.º e 3.º ciclos
Falar em "ensinar diferente" é falar da Escola da Ponte.O desafio é ‘como’. A gestora da escola a quem enviámos um conjunto de perguntas por e-mail sugeriu-nos uma visita. Uma resposta semelhante àquela que obteve o pedagogo Rubem Alves, antes de visitar a Escola: "Você vai lá e vê." Não faltam reportagens nem investigações sobre este projeto educativo, sem professores (há tutores), campainhas (há relógios de parede) nem disciplinas (há valências), criado há 40 anos, em Santo Tirso, por José Pacheco. Recentemente, nasceu também um livro: Voltemos à escola. Ainda que a matéria aqui seja a mesma (a abordagem é que é diferente), o jornalista e escritor Paulo M. Morais conta que, quando começou a anunciar a algumas pessoas que ia escrever um livro sobre a Escola da Ponte, ouvia comentários como: "Mas, afinal, eles aprendem alguma coisa?" A resposta está por exemplo no Plano de Quinzena, no qual os alunos inserem eles próprios "as matérias que vão aprender, autonomamente, durante duas semanas". Mas isto, como refere o autor, "seria reduzir num parágrafo o que me levou 200 páginas a explicar". Acerca do projeto educativo, Paulo Morais destaca o "espírito de ajuda e entreajuda entre os alunos, professores, auxiliares e encarregados de educação". E após ter abandonado a Escola, continua com perguntas: "Passei a interrogar-me sobre os porquês de o sistema de ensino estar estagnado há mais de um século."

Jardim dos Fraldinhas (Leiria) e Escola da Árvore (Lisboa, Restelo)
Onde Leiria e Lisboa
Modelo de ensino Construtivista
Do Berçário aos 3 anos
Propina: Privada, sob consulta


A Escola da Ponte tem lançado algumas sementes pelo país. Foi assim que nasceu a Casa da Árvore, apadrinhada pelo mentor da Ponte, José Pacheco. A história deste centro de 1.º ciclo começou pela criação do Jardim dos Fraldinhas, em Leiria: "Um espaço muito familiar" com sistemas inovadores de acesso, em que os pais têm a ‘chave de casa’ e podem entrar a qualquer hora e dirigir-se ao espaço educativo dos seus filhos". Rui Inglês fala de um projeto de ensino "construtivista": Arca dos sonos e oficina das emoções em jardim são alguns dos projetos aqui desenvolvidos. O centro acabou entretanto por se alargar, de forma a acompanhar as crianças no primeiro ciclo. Na Casa da Árvore, "trabalhamos os conteúdos programáticos e desenvolvemos as aprendizagens quando estamos a desenvolver projetos. Estes projetos são propostos pelas crianças e após serem desenvolvidos, as crianças tiram conclusões". Rui acrescenta que "as crianças desenvolvem ainda assembleias todas as semanas dirigidas por elas, onde contribuem com ideias para a vida desta micro-sociedade que é a instituição onde estão inseridas".

Voz do Operário
Onde Graça, Baixa da Banheira, Restelo, Ajuda, Creche – Ajuda, Laranjeiro, Lavradio
Modelo de ensino Escola democrática com projeto educativo apoiado nas teorias socioconstrutivistas
Berçário, Creche, Pré-Escolar, 1.º e 2.º ciclos
Propina Em função do IRS dos pais


Próxima paragem: uma sala na Calçada da Ajuda, onde começo por fazer a pergunta errada: "Qual é esta turma?" Nas sete escolas da Voz do Operário não existem turmas no conceito tradicional. Há grupos heterogéneos de crianças do 1.º ciclo, dos 6 aos 10 anos, que se distinguem pelas metas definidas para aprendizagem. "Nós consideramos que as nossas crianças aprendem comunicando", explica um dos responsáveis, Ivo Serra. "E quanto maior diversidade de idades houver numa sala, mais comunicação e interação haverá", acrescenta. A disposição das mesas obedece ao mesmo princípio: as crianças estão voltadas umas para as outras e não sentadas em frente a um professor que debita matéria. "Ou seja, os professores são parte do grupo, não são elementos fora do grupo", salienta. Nesta escola, "não somos apenas nós que sabemos o programa oficial, as crianças também conhecem as metas a atingir", explica. Dora Agostinho, uma das professoras da Voz do Operário, explica que as metas atingem-se através dos projetos desenvolvidos. E introduz mais um conceito importante neste projeto educativo: o conselho. Em cada sala há um conselho que reúne, prevê aprendizagens e avalia. Na Voz do Operário, estimula-se a autonomia e o grupo. "Queremos que cada criança seja um agente transformador. Cada aluno tem planos individuais de trabalho e é ele que, com a orientação do professor, toma a decisão de quantas fichas vai fazer por semana. Próxima pergunta errada: onde é que estão os manuais? "Não existem. Aqui todas as crianças começam com um caderno em branco que vai sendo construído por elas ao longo do tempo," responde Ivo.
 
PaRK
Onde
 Belém, Restelo, Alfragide, Cascais
Método de ensino Escola bilingue marcada pela tecnologia e projetos inovadores 
Berçário, Creche, Jardim de Infância, 1.º, 2.º e 3.º ciclo
Propina Privada, sob consulta

Está na altura de conhecer o primeiro (e único) colégio em Portugal com conteúdos oficiais publicados no iTunes. O PaRK International School, o primeiro colégio internacional de Lisboa, recentemente destacado como uma das cinco escolas portuguesas do núcleo de Escolas Changemaker, permite assim aos alunos acederem a informação em qualquer lugar: basta que tenham um tablet! Inovação é um dos três pilares da PaRK, conta Bárbara Beck Lancastre, fundadora e diretora-geral desta escola que celebra 15 anos. E está também explícita nos projetos diferenciadores aqui desenvolvidos. No My Time, os alunos têm uma tarde livre por semana para se dedicarem a uma área de que gostem, no Big Idea, "durante uma manhã ou tarde por semana, é dada aos alunos do 5.º, 6.º e 7.º ano uma questão que eles têm de desenvolver por eles próprios". A PaRK criou ainda o Fellowship, "um projeto comunitário em que as crianças, a partir do 5.º ano, têm de ajudar dentro do colégio, na comunidade e a nível mundial". Responsabilidade é mais um pilar desta escola bilingue: "Não queremos que os nossos alunos vivam numa bolha. Queremos que estejam preparados para o que existe para além dessa bolha. Só dessa forma acreditamos que serão verdadeiramente felizes e que vão fazer alguma diferença na sociedade." E a conversa encaminha-nos para o terceiro pilar essencial: Felicidade. "Na PaRK não selecionamos os alunos por capacidades cognitivas, selecionamos as famílias por fit com o modelo do colégio e só aceitamos os alunos que acreditamos que podem ser felizes no colégio, porque se não estaríamos a ser desonestos com a nossa missão", refere.

Os Aprendizes
Onde
 Cascais
Modelo de ensino Waldorf e High Scope
Jardim de Infância até ao 6.º ano; em fase de implementação até ao 12.º ano
Propina
 Privada, sob consulta


Era uma vezuma mãe insatisfeita com a oferta escolar para os seus filhos. Tendo trabalhado no estrangeiro em consultoria durante 20 anos, Sofia Borges tinha bem presente os conceitos de soft skills, aprendizagem experiencial. E quando pensou em abrir uma escola, teve "logo procura de muita gente a querer trabalhar desta forma". E os pais foram chegando ao Os Aprendizes. A escola inspira-se na metodologia High Scope e na pedagogia Waldorf. "De Waldorf, vamos buscar inspiração à visão sobre o desenvolvimento da criança que Rudolf Steiner (educador austríaco e fundador da pedagogia Waldorf) tinha, assim como o respeito pelos ritmos da natureza e o potenciar da criatividade. High Scope traz a criança para o centro da aprendizagem ("ao contrário do tradicional"). Nesta Escola aprende-se ainda a… comer. "A alimentação é biológica, pois se nos entendemos como corresponsáveis pelo melhor desenvolvimento da criança em todos os aspetos do seu ser, a sua saúde física emocional e mental é altamente influenciada pela sua alimentação."

Tom da Terra
Onde 
Sesimbra
Modelo de ensino
 Waldorf
Creche e Jardim de Infância
Propina Escola Privada, valores sob consulta
 
Se uma imagem vale por muitas palavras, experimente ver as fotografias da Tom da Terra. Há crianças a pular no jardim, deitadas sobre o feno, e também a passarem a noite em tendas, no exterior da escola. "Somos uma escola inspirada na pedagogia Waldorf, em que as crianças aprendem pela experiência e não pelo conceito. Trabalhamos ao ritmo das quatro estações, respeitando a natureza (recolhimento, abertura/interior, exterior). As aprendizagens do Tom da Terra assentam em três princípios a que chamamos LAR: Liberdade, Autonomia e Responsabilidade", refere Susana Pinto. O dia na Eco Escola Tom da Terra começa com a "roda da manhã", feita em silêncio (meditação) e com uma "oração de agradecimento à terra". A diretora pedagógica conta que "as crianças participam nas ações do dia a dia, como lavar a mesa, varrer o chão, trabalhar na horta", sendo que "a brincadeira é a atividade mais séria da criança".
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