Família

O meu casamento

Ser pedida em casamento em casa dos pais. Celebrar o noivado durante um ou mais longos anos. Casar na igreja primeiro, celebrar numa quinta depois. Fazer tudo como manda a tradição. Ou não. E fazer tudo como manda o coração. Foi o que fez Maria João Marques, que casou grávida e linda, com o filho de dois anos na primeira fila. Eis o seu testemunho.
Por Máxima, 14.02.2017
"No momento em que somos pedidas em casamento, depois do sim e dos beijos em lágrimas de alegria, espera-se, depois dos close-ups à mão esquerda com o seu novo acessório e um filtro de Instagram a condizer (preparem-se, é a primeira escolha, de longe a mais fácil de um longo rol que se seguirá), há uma parte do nosso cérebro que se ativa. Imagino que seja a mesma que utilizamos ao imaginar o que faríamos com o primeiro prémio do Euromilhões: num ápice conseguimos vislumbrar um mundo encantado, onde as nossas vontades se realizam sem qualquer esforço ou preocupação. Depois acordamos e lembramo-nos que 1) isto vai acontecer e 2) vai mesmo, mesmo acontecer. Ou seja, pés no chão e bem assentes na terra, vamos lá planear um casamento daqueles que são possíveis na vida real e não apenas nos nossos sonhos. Para quem já tem um filho, como é o nosso caso, assume-se que o título de dia-mais-feliz-da-vida já está preenchido. Retira muita da pressão e responsabilidade a este dia, mas não queria que fosse menos memorável.

A primeira decisão definiria todo o ritmo dos preparativos: escolher uma data. Depois de vários anos de coabitação, um filho juntos e outro na barriga a caminho, não fazia sentido para nós fazer um noivado longo. Pelo menos foi o que dissemos às pessoas, já que eu tinha na cabeça questões bem mais práticas: casar com uma barriga pequena ou grande? É que esperar pelo nascimento do nosso segundo filho implicaria sentir uma pressão ainda maior na recuperação pós-parto, superior inclusivamente à ânsia de caber nas velhas roupas e isso estava fora de questão. Mais: na minha cabeça, faltava uma eternidade até tudo isso acontecer. Também não queríamos um casamento enorme e tradicional, com centenas de convidados, fontes de chocolate e mesas de marisco (isto é fácil de explicar: não gosto de chocolate e estava proibida pelo médico de tocar em marisco). Lá decidimos: casaríamos exatamente dali a um mês. Em pleno verão, com uma barriga de cinco meses e uma pele resplandecente. Viva as hormonas da gravidez!
Bem sei que à primeira vista pode parecer uma decisão arriscada, mas foram várias as razões que a tornaram perfeitamente possível: queríamos um casamento civil, íntimo, perto de casa e que não nos obrigasse a fazer juras de amor a um banco ou à conta bancária dos pais. E conseguimos. Como? Não sei bem, mas, resumindo, deu-se ali um misto de sorte, decisões difíceis mas acertadas e uma equipa escolhida a dedo. Para o que tinha idealizado, não havia artigo de revista ou livro sobre o tema que me ajudasse. Tentei apenas ser rápida e muito prática.

Na semana seguinte, depois de algumas pesquisas online, conseguimos dar início ao processo de casamento na conservatória, visitar locais com potencial para a cerimónia, fechar a lista de 20 convidados a quem demos a notícia ao vivo ou por telefone e comprar as alianças. Já agora, não fazia ideia que, dentro do tradicional, havia tantos tipos diferentes de alianças. E sabiam que a maioria das joalharias precisa de quatro semanas para fazer as alianças à medida dos vossos dedos e agenda? Eu não, e foi por pouco que conseguimos ter as nossas prontas. Uma dica a quem procura local para um evento, seja casamento ou outra ocasião: evitem os pacotes pré-definidos e escolham quem vos ouvir e demonstrar capacidade de interpretar o vosso gosto. Para nós foi amor à primeira visita: o primeiro local que visitámos foi também aquele onde fomos melhor recebidos e onde a vista sobre Lisboa era mais deslumbrante. Não precisei de fazer prova do catering e as sugestões de decoração foram certeiras ao ponto de acreditar que me tinham lido a mente. Perfeito para noivas mais preguiçosas (eu) ou com falta de tempo (eu).
A partir daí, decidi rodear-me de profissionais que admirava alguns, com pouca ou nenhuma experiência de casamentos, outros eram amigos de longa data. Para o bolo, pensei nos mais deliciosos que já provara ? uns cupcakes de chá verde e cobertura de limão ? e desafiei a pasteleira a experimentar um novo formato e decoração; apesar de saber que não fotografava casamentos, contactei a minha fotógrafa favorita para registar o dia e pedi-lhe apenas para o captar com o seu olhar habitual, felizmente aceitou. O cabeleireiro foi o de sempre e a maquilhadora, uma amiga dos tempos de escola, que conhece o meu rosto de olhos fechados e cujo talento me tirou qualquer preocupação dos ombros. Deixei as flores nas mãos de um pequeno ateliê, cujo trabalho já seguia nas redes sociais e que construiu um bouquet-surpresa, com flores de época e locais, baseado nas minhas indicações vagas e confiança total.

Mas vamos à parte que interessa, o vestido. Será que sou uma noiva boho ou sofisticada? Romântica ou clássica? Arrisco dizer que não fui nenhuma delas. A trabalhar, sem tempo para recorrer a uma costureira e com o desafio de encontrar uma silhueta que favorecesse uma barriga já saliente, recorri ao net-a-porter e aos conselhos da única amiga com autoridade no assunto e bom gosto (é que ter todo o grupo de amigas a opinar é irritante e contraproducente). E que felicidade foi perceber que os saldos já tinham começado! Encomendei vários vestidos e escolhi um modelo curto da Self-Portrait, com alguma renda, folhos e espaço para crescer. Encontrar os sapatos foi mais simples. Já os namorava há meses e o casamento foi a desculpa perfeita para comprar as sandálias floridas Dolce & Gabbana que, para minha sorte, também tinham um simpático desconto.

Tudo ia decorrendo tranquilamente. Perguntavam-me se estava nervosa e eu respondia sempre ‘com o quê?’, até que, num belo domingo, estava eu a aproveitar a tarde para bronzear as pernas numa esplanada, recebo uma notificação histérica no meu telefone. Tratava-se da captura de ecrã de uma publicação de Instagram que mostrava a Beyoncé, em Wimbledon, a torcer pela amiga Serena Williams. Incrédula, em ligeira apneia, pisquei os olhos repetidamente, não fosse estar a ver mal. Estava? Não, não estava. Era a Beyoncé acompanhada de Jay-Z, longas tranças, óculos de sol redondos e… o meu vestido de noiva! A rainha Beyoncé, de quem sou doentiamente fã, tinha o meu vestido de noiva e estava a usá-lo uma semana antes do meu casamento. Telefonei à minha irmã, à minha mãe, à minha melhor amiga. Até ao meu pai contei, que não percebeu logo: ‘Quem? Mas isso é uma coisa boa ou uma coisa má? Ajuda-me a perceber!’ Problema: eu não sabia responder-lhe. É que, pela primeira vez desde o início do processo, a minha confiança sofrera um duro golpe. Vejamos: eu adoro a Beyoncé, mas, passado o entusiasmo inicial e a inevitável conclusão ‘great minds think alike’, olhei com mais atenção e como dizê-lo? O vestido não lhe ficava, digamos, assim espetacularmente bem. Não lhe ficava mal, claro, como se tal coisa fosse possível. E, sendo impossível superá-la, provavelmente também não me ficaria espetacularmente bem a mim. O dia seguinte foi passado a visitar lojas e a experimentar vestidos. Só perante a clara impossibilidade de encontrar algo que me servisse e agradasse, confiei em todas as amigas que se esforçaram para fazer o ar mais sério do mundo enquanto diziam: ‘És doida, fica-te muito melhor a ti do que a ela!’

Agora que penso, talvez tenha sido o stress deste primeiro drama que provocou o seguinte, esse sim, uma verdadeira tragédia. Faltavam menos de 48 horas para a cerimónia e, às três da manhã, a luz do telemóvel acordou o meu noivo. Era eu, desesperada, a googlar palavras-chave como ‘borbulhas tratamento infalível’ e ‘urgências dermatologia Lisboa’. A manhã seguinte foi passada em frente ao espelho (espremer ou não espremer, eis a questão) de telefone na mão, a tentar encontrar uma vaga para esse mesmo dia em qualquer dermatologista da cidade. Consegui.
Assim que entrei no consultório, a minha esperança foi esmagada sem qualquer misericórdia. Tentei argumentar, falar-lhe dos tais tratamentos infalíveis sobre os quais tinha lido horas antes, como se uma pesquisa desesperada no Google fosse mais confiável do que alguém de bata com anos de dermatologia e pacientes tão ou mais desesperadas. Devo gabar a paciência deste médico. Perante a minha teimosia, manteve a calma enquanto explicava porque é que, na minha situação, nenhum desses tratamentos funcionaria. ‘Não há nada que possa fazer... Já experimentou disfarçar com maquilhagem?’ Nesse momento nem tentei conter as lágrimas, deixei-as correr livremente e adotei outra estratégia: implorar. Não é que resultou? Cinco minutos depois, com um spray analgésico e um pequeno bisturi, o bondoso médico lá acedeu às minhas súplicas, o que mais tarde facilitaria o trabalho da maquilhadora. É tão mais simples disfarçar uma cicatriz plana e contida.

Em retrospetiva, consigo perceber que eram dramas muito patetas, mas haverá noiva que não passe por eles? Nessa noite, já mais descansada e feliz com todas as minhas escolhas, dormi em casa dos meus pais, terminei de escrever os votos num papel de rascunho e confiei que tudo iria correr bem."

*Originalmente publicado no Suplemento da Revista Máxima, edição nº341
Fotografia: Anna Balecho
Maquilhagem: Lea Louro

Cabelos: Cláudio Pacheco para Chiado Studio
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