Família

Era uma vez em Hollywood

Um casal, uma data de filhos… um divórcio?! Depois de enxugarmos as lágrimas sobre o fim dos Brangelina, chegou a altura de nos debruçarmos sobre o futuro: quem está na corrida pelo título de power couple?
Por Máxima, 08.02.2017
20 de setembro de 2016, o dia em que o amor morreu. E, desta vez, morreu mais ainda do que daquela em que Ben Affleck trocou Jennifer Garner pela ama, e já aí era dado como morto e enterrado. Depois de 12 anos juntos, Angelina Jolie pediu o divórcio de Brad Pitt. Assim, sem mais nem menos, a Internet crashou mais do que no dia da Kim Kardashian, sem um "temos de falar" ou "não és tu, sou eu". E vai ser difícil voltar a haver um romance público tão inspirador (viu-se bem o hiato depois de Richard Burton e Elizabeth Taylor). É que Brad e Angelina não eram só bonitos – eram incrivelmente bonitos, talentosos e com uma faceta solidária. Em 2006, quando Angie viajou para a Etiópia para adotar a segunda criança, Brad foi com ela e deu a Zahara - e também a Madoox! - o seu último nome. E eles tinham acabado de tornar a relação pública! Depois veio a primeira filha biológica, depois Pax, os gémeos, a dupla mastectomia e as declarações de amor eterno. Quando casaram, em 2014, foi como se estivéssemos na cerimónia (tudo muito bem organizado, a comida ótima!). Durante uns bons tempos, eles contrariaram as estatísticas e os tabloides, limaram a imagem de um casal de traidores e deram a Hollywood o casamento estável de que andava a precisar. E, sejamos francos, a nós também (mesmo para quem não acredita em nada do que se passa para lá da colina da fama, admita, eles eram um casal credível!). Se as celebridades são a manteiga do pão que os media amassam, cozem e nos oferecem, os casais de celebridades são aquela camada generosa de doce que colocamos por cima. Tornam tudo mais saboroso e, mesmo sabendo que o açúcar em excesso faz mal, devoramos até fazer migalhas. Agora, é como se nos tivéssemos tornado intolerantes ao glúten, descoberto que a manteiga afinal é creme vegetal, e o doce? Azedou… Puff, de um momento para o outro o mundo mergulhou num emoji de cara triste e até Adele dedicou o seu concerto dessa noite ao casal (#brangelina foi mencionado 720 vezes por minuto no Twitter – mais do triplo da Assembleia das Nações Unidas que estava a decorrer no mesmo dia…). Os detalhes do divórcio ainda são parcos e até Jolie reaparecer fabulosa numa capa da Vanity Fair com declarações como "foi o melhor para as crianças" teremos de dar um espaço entre Brad e Angelina (literalmente) e seguir com a nossa vida. Ou… procurar um novo casal de pombinhos do cinema que conjugue as nossas três qualidades preferidas: ricos, bonitos e influentes.
Estamos aqui hoje reunidos para unir estas mulheres e homens no próximo casal de Hollywood. Mas antes de perguntar as objeções, quero começar por clarificar algo: afinal de contas, o que é que este luto mundial diz sobre nós? Somos assim tão fúteis e sem nada melhor para fazer do que seguir a vida dos casais da red carpet? Não preciso de ter assistido a muitas aulas de psicologia no liceu para responder. Primeiro, as relações são a base da maioria das sociedades e porque as celebridades fazem parte da nossa vida através dos mais variadíssimos meios, seguimo-las e acabamos sempre por investir nelas. Tornam-se parte das nossas memórias, de momentos da nossa vida, tornam-se modelos de comportamento e muitas vezes um barómetro para distinguir o certo do errado. Quando um casal de famosos se junta, oferece escapismo e esperança, da mesma forma quando se separam, é a prova de que nem o amor, nem a fama, nem a beleza são garantias de um final feliz. A cultura das celebridades é como brincar às bonecas - e porque estamos a falar de Hollywood, a mansão de luxo da Barbie. "Foi o cinema, particularmente a indústria de Hollywood, que desenvolveu o estrelato", escreve Ana Jorge, docente e investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo, na sua investigação de doutoramento publicada O Que é Que os Famosos Têm de Especial?’ – A Cultura das Celebridades e os Jovens. "Em Hollywood, na década de 1910, o star system humanizava o cinema, distinguia-o do teatro ou da fotografia; este sistema tinha sobretudo uma motivação económica, mas oferecia também ao público figuras que funcionavam como corpos e rostos para resolverem as contradições de discursos e valores vigentes. Até aos dias de hoje, o sistema de estrelato de Hollywood usa mais a vida privada dos atores do que faz o cinema europeu, por exemplo, para os aproximar das audiências e manter a sua visibilidade nos media." Tudo começou com Douglas Fairbanks e Mary Pickford, considerado o primeiro casal de Hollywood, passando por Greta Garbo e John Gilbert – os Gilbo –, o primeiro portmanteau [junção linguística de dois nomes], Marilyn e os seus maridos, depois [inserir nomes das mil listas disponíveis online sobre os casais mais poderosos da sétima arte], até hoje, início de 2017, altura em que apostamos todas as fichas e perdemos (menos a #teamjennifer). Quais as lições a retirar de qualquer uma destas histórias de amor?

"Até a mulher mais bonita do mundo pode ser traída!", exclama a brincar Mariama Barbosa, relações-públicas da ModaLisboa e apresentadora do programa Tesouras e Tesouros da SIC Caras.  Agora a sério: "No amor não há diferenças, somos todos iguais, mas eles têm mais dinheiro." Mariama, fã fervorosa da magia da passadeira vermelha onde, "mesmo que tenham estado a discutir no carro dois minutos antes", os casais aparecem "perfeitos", aponta Warren Beatty e Annette Bening como um modelo de união e sobrevivência (o casal, junto há 25 anos, disse numa entrevista recente que "aceitar as diferenças", "respeito" e um "fogo" são os segredos). A aposta da RP para 2017? Blake Lively e Ryan Reynolds. "A história de amor do conto de fadas, com filhos lindos, carreiras graduais, nada de macabro… Ainda [risos]." Inês Mendes da Silva, diretora executiva da Notable e responsável por projetos como o Daily Cristina e Hyndia.Tv, duplica a aposta em Blake e Ryan e põe na mesa Chrissy Teigen e John Legend. Sobre o cantor e a modelo, justifica a escolha "por serem casais reais, que abrem as portas de casa e partilham um pouco dos seus bons momentos no Instagram, proporcionando assim um pouco mais de voyeurismo que outros. Desde o bebé a chorar ao colo do Pai Natal, às primeiras asneiras da filha, até à junk food que comem de vez em quando. Os power couples são duplas fortes, que se complementam e que transmitem uma imagem do amor bem mais real e verdadeira e por isso mais favorável a que o público se consiga rever neles". Façamos o teste. Coloque James Rightone e Keira Knightley no Google e veja o que aparece. Dou uma ajuda: "Keira e James passeiam como simples turistas", "Keira sem maquilhagem enquanto beija marido na rua", etc. Parecem… reais? E é muito fácil apontar mais uns quantos nomes que se tornaram a imagem do play it cool (aqui que ninguém nos ouve, às vezes até demais). Os atores Channing Tatum e Jenna Dewan Tatum, Mila Kunis e Ashton Kutcher, Jessica Biel e Justin Timberlake podiam ser os nossos amorosos vizinhos do lado que, só por acaso, têm um Óscar na mesa da sala. Diogo Miranda, designer de moda, concorda: "Através das redes sociais conseguimos ficar a saber por onde andam, que filme fizeram, com quem estão a jantar, ou até mesmo o que estão a vestir, o que faz com que as pessoas acabem por se rever na imagem destes casais e acreditem no true love." Vanessa Paradis e Johnny Depp, Katie Holmes e Tom Cruise ou – novamente, começa-me a cheirar a par vencedor. Blake Lively e Ryan Reynolds são exemplos (mesmo falhados) para o criador "de elegância na red carpet e transmitem cumplicidade como casal. E isso torna-os inspiradores e fascinantes".Calma: estarão as estrelas de Hollywood a ficar mais banais, mais… mundanas?

"Não há diferença nenhuma nos conteúdos, era igual no tempo da Elizabeth Taylor que se povoou de relações, casamentos, divórcios, medicamentos e excentricidades. Só a roupa e a atitude é mais descontraída e mais visível. E como nós, do lado de cá, também mudámos, ficamos igualmente fascinados com a identificação", diz Carlos Pissarra, relações-públicas (organizador de festas e antigo diretor da Lux). E explica: "A minha avó seguia as poses da Ava Gardner e sonhava... A minha filha deve seguir no Instagram uma atriz de 20 e tal anos e sonhar. Tudo igual, a distância é a mesma. Nem a minha avó almoçou com a Ava Garnder, nem a minha filha almoça com a  Jennifer Lawrence... A minha avó seguia a Ava Gardner nas matinés de cinema ou nas revistas mensais. A minha filha segue a Jennifer Lawrence, sobretudo, no ecrã do telefone..." Para Carlos, o futuro passa pelo território digital, mas há outro campo que, quem quer que seja o próximo Sr. e Sr.ª Poderosos, tem de chegar: a nossa imaginação. "Há novas dinâmicas no star system que alimentam o sonho, mas na verdade só mudou a roupa, a atitude e os meios para construir o sonho. O resto é o mesmo: na raiz, o fenómeno de uma pessoa ou de uma dupla que tem a capacidade de fazer sonhar é isso mesmo, um fenómeno!" Paulo Petronilho, fotojornalista desde os anos 80 e antigo editor da revista Caras e da revista Mundo Vip, é da opinião que há uma dose de mistério que deve ser mantida. Ryan Gosling e Eva Mendes: lindos, poderosos, mas diga-me o que sabe sobre a vida deles? Nada. Jennifer Aniston e Justin Theroux? Nem do casamento há fotos. Zooey Deschanel e Jacob Pechenik. Quem? "São casais que conseguem manter algum distanciamento. O George Clooney e Amal, o Tom Cruise e a Nicole Kidman na altura, a Sarah Jessica Parker e o Matthew Broderick. Sabemos pouco sobre eles. Depois há os que mostram demais e matam o sonho". Oiço Kimye ao fundo… "Esses casais [do show biz] têm de facto uma projeção, mas não sei se o sonho está lá. São pessoas conhecidas, mas não sei se aspiramos a ser como eles ou se temos apenas curiosidade. O sonho é outra coisa." [Mariama definiu o sentimento por Kim Kardashian e Kanye West da seguinte forma: "Adoro-os mas é como ver um filme de domingo que já sei o final"]. Haverá então mais casais de sonho, chamemos-lhes assim? "O Bradley Cooper e a Irina? Não sei se têm esse peso", reflete Paulo. "Acredito que a Irina poderá fazer cinema, se à indústria der jeito projetar essa imagem. Se não interessar à indústria nada feito. E depois há outra coisa: têm de ser verdadeiros. Têm de mexer com as pessoas. Hollywood criou muitos casais de fachada, mas houve uns que foram magníficas histórias de amor. Eu acho que se gostam mesmo um do outro nota-se. Mas isso sou eu que sou um romântico." E não somos todos?

Em 2012, um jornalista do The New York Times e um cientista uniram-se para criar uma espécie de equação que determina a frio x ou y casal de famosos vai ao não ter sucesso e que joga com a idade, historial de matrimónios e nível de fama. Se casarem muito novos ou se a mulher for mais conhecida que ele, por exemplo, estão tramados. Na altura, o resultado favorecia três casais: Will Smith e Jada Pinkett; Matt Damon e Luciana Barroso; Ben Affleck e Jennifer Garner (bom, já sabemos o que aconteceu a este último…). São tempos complicados para o #relationshipgoals, embora a luz ao fundo do túnel – ou o dinheiro tenha colocado a expressão power couple oficialmente no Oxford English Dictionary em 2016 (talvez porque, apesar de existirem há dezenas de anos, a mulher está, finalmente, a chegar ao mesmo degrau económico que o homem Bom, isso são outros 500). A verdade é que o power couple promete um unicórnio das relações, dentro e fora da red carpet: casamento e independência. E sobretudo amor. Quando, após ter sido nomeado Men Of the Year pela GQ, Ryan Reynolds se abriu sobre a sua vida pessoal, em particular o momento em que percebeu que Blake Lively era a ‘tal’, o mundo inteiro ecoou num tremendo ohhhhhhh. "Estávamos neste restaurante em Tribeca, que fica aberto até muito tarde e começou a tocar uma música e eu disse: queres dançar? Não estava lá ninguém... E foi daqueles momentos em que a meio da dança pensei: ‘Oh, acho que ultrapassei a linha.’ E agora estou à beira de ter uma verdadeira família americana. Todos os clichés idiotas da Hallmark-card [uma empresa de postais] são verdade." Por mim, o próximo "e viveram felizes até que um comunicado oficial os separe" está escolhido.

Por Patrícia Domingues

*Originalmente publicado na revista Máxima, edição nº341

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