Família

Entrevista Dulce Neves: “As mães da geração millennial estão a desafiar os cânones estabelecidos há décadas”

Afinal, o que significa construir uma família hoje? A socióloga Dulce Neves antecipa os temas de género, parentalidade e nascimento, que serão discutidos na conferência que se realiza a 27 de outubro no ISCTE, em Lisboa.
Por Rita Silva Avelar, 13.10.2017

Há cada vez mais espaço de debate para os temas de género, parentalidade e nascimento – e também mais pessoas interessadas em discuti-los. É o caso da socióloga Dulce Morgado Neves que, em conjunto com o também sociólogo Mário Santos, é mentora da conferência Nascimento e outros debates: género, parentalidade e criação, que acontece a 27 de outubro de 2017 no ISCTE-IUL, resultado do encontro de diferentes investigadores e pesquisas que estão, neste momento, a refletir sobre os temas. Conversámos com Dulce Neves para perceber porque é tão importante o debate.

Como surgiram os temas associados a esta conferência?

A conferência pretende reunir e dar visibilidade a algumas das pesquisas mais relevantes na área das ciências sociais e humanas sobre estes domínios e conta com um programa dividido em duas grandes áreas: Género e Parentalidade (I) e Gravidez e Nascimento (II). No encerramento, o debate será aberto à participação de representantes da sociedade civil que, em mesa redonda, falarão sobre individualidade e norma nas experiências de nascimento e de educação/cuidado das crianças. Na definição do programa quisemos mostrar um pouco da diversidade atual da investigação nesta área, privilegiando pesquisas que refletem uma alternativa às narrativas mais convencionais sobre a parentalidade.

Qual a importância de os debater?

As experiências de parentalidade, como provavelmente todas as vivências familiares, são lugares privilegiados para observar efeitos da mudança social mais alargada e são também um espaço dinâmico para a produção de transformações. Neste sentido, falar de parentalidade é sempre muito mais do que falar de reprodução humana ou de um tipo particular de relações intergeracionais nas famílias. A forma como cada um ou cada uma de nós vive a maternidade ou a paternidade está intimamente ligada às características dos contextos sociais em que vivemos, mas isso não isso não retira importância nem significado a tais experiências. Acredito que, na maioria dos casos, ser mãe ou pai constitui um marco muito significativo na biografia das pessoas, sendo este um domínio, por excelência, de agência e realização individuais. E é porventura esta relação entre a individualidade e a norma que torna o tema da parentalidade tão cativante e tão significativo nos dias de hoje. Falar dele é falar da sociedade onde vivemos e é também projetar a sociedade onde gostaríamos de viver e construir para as gerações vindouras.

Por ocasião do Dia Mundial da População, a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou uma infografia com as principais estatísticas sobre a população portuguesa. Entre outos dados, concluiu-se que o número de famílias monoparentais quase duplicou nos últimos 14 anos (11% em 2016 contra os 6% de 1992) tal como o número de famílias com uma só pessoa – 22% em 2016 face aos 13% de 1992. Acha que, de facto, os portugueses estão cada vez mais independentes na parentalidade?

As grandes tendências de recomposição demográfica e social verificadas nas últimas décadas em Portugal fazem-se acompanhar de importantes mudanças nas formas de organização familiar. Das alterações nos padrões demográficos às mudanças políticas, passando pela aproximação do país a padrões normativos de outras sociedades ocidentais, vários são os fatores que operam na transformação das famílias em Portugal, fazendo deste campo um meio privilegiado para observar os efeitos da modernização sobre os comportamentos privados. Realmente, a diminuição do número médio de pessoas por grupo doméstico (3,1 em 1991 e 2,6 em 2011), o aumento das famílias monoparentais (que duplicaram desde 1992), o aumento dos agregados de pessoas sós (que em 2016 correspondiam já 22%) e a diminuição dos agregados numerosos (apenas 2% em 2009) refletem, por si só e com propriedade, a consolidação de modelos familiares que se distanciam dos do passado e que, efetivamente, apontam para novas formas de estar na parentalidade e, em particular, para a individualização dos comportamentos.

Outra das conclusões foi que – enquanto em 1990 apenas 15% dos bebés nasciam fora do casamento – hoje mais de metade dos filhos nasce fora do casamento (53% em 2016). Como interpreta esta viragem?

O facto de mais de metade dos nascimentos ocorrer fora do casamento traduz, antes de mais, uma mudança simbólica importante no lugar do casamento na vida das mulheres e dos homens portugueses. Algumas pesquisas sobre intimidade e vida afetiva vêm mostrar-nos que a família e a conjugalidade continuam na mira das ambições dos jovens portugueses, mas são os seus significados que vão sendo relativizados ou redefinidos. Reflexo disso mesmo, em alternativa ao casamento formal, a coabitação assume-se como uma prática cada vez mais comum e será a forte adesão a este modelo que justifica em parte as cifras atuais dos nascimentos fora do casamento.

Ou seja, houve mudanças importantes, mas também muitas coisas se mantêm?

Se olharmos para as tendências específicas da conjugalidade, o tipo de agregados domésticos continua a confirmar a centralidade da vida a dois na constituição da família, no sentido em que, não obstante as mudanças introduzidas, em 2012, mais de 60% das famílias continuavam por ter na sua génese a formação de um casal. Em particular, e ainda que se denote um aumento da proporção de casais sem filhos (que, de 15% em 1960, passaram a representar 37,1% do total de casais, em 2012) é o casal com filhos que subsiste enquanto formato predominante das famílias portuguesas.

Como definiria as mães portuguesas da geração millennial?

Comummente denomina-se de millennials as pessoas que, tendo nascido na década de 1980, viveram a sua juventude ou transitaram para a vida adulta na viragem do milénio. Diria que não é muito fácil fazer um retrato único das mães portuguesas millennials porque de facto são muito diversas as formas de estar e de representar a maternidade nesta geração de mulheres. Mas falar de mães millennials é, incontornavelmente (e por sugestão das definições veiculadas pelos media a este respeito), falar de uma geração familiarizada com a tecnologia e com os suportes digitais e, no fundo, com o acesso a formas de comunicação e de informação muito mais amplas e diversificadas que as da geração anterior. Falamos também de mulheres escolar e profissionalmente qualificadas que foram socializadas em contextos mais igualitários em termos de género e mais abertos e diversificados no que se refere a valores e éticas de vida.

São mães que estão a mudar a ideia de família?

São, porventura, estas mães as que "dão corpo" às inúmeras partilhas, aos fóruns de discussão e ao frutífero debate que encontramos na Internet e nas redes sociais acerca das experiências de maternidade e das escolhas relativas à educação e ao cuidado das crianças.

Por outro lado, a mãe millennial é uma mãe informada que adota, na criação dos seus filhos, padrões de comportamento e consumo inovadores e, às vezes, desafiantes dos cânones mais comuns e estabelecidos há décadas pelas famílias, profissionais de saúde, educadores ou pelos mercados. Em certa medida, é também a estas mães que podemos associar a crescente adesão a ideais naturalistas ligados à maternidade, os quais, entre outras coisas, vemos espelhados em práticas cada vez mais popularizadas como o consumo de produtos ecológicos para o cuidado e alimentação das crianças, a procura de experiências de parto menos medicalizadas, ou a amamentação dos bebés. 

A conferência decorre no Auditório J. J. Laginha, no ISCTE-IUL, e a entrada é gratuita. Consulte o programa completo, abaixo.



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