Sexo

E agora, quem paga a conta?

Nos Estados Unidos já há uma app que nos ajuda a decidir, mas, aqui e agora, parece que nunca foi tão difícil chegar a um consenso.
Por Carlota Morais Pires, 18.10.2017

Não deixa de ser interessante ou, pelo menos, peculiar que uma das situações mais recorrentes nas nossas vidas levante tantas (e tão pertinentes) questões. Quem deve pagar a conta? Devemos dividir sempre? Deixamos que um homem nos ofereça o jantar – se sim, por que motivo o devemos fazer? Não estaremos a abrir um precedente errado ou a alinhar em jogos de poder que, ainda que pareçam superficiais, estão carregados de significados sociais mais profundos?

"Se estamos a falar no âmbito de encontros amorosos ou de sedução heterossexual, temos de perceber que estamos perante rituais de interação para os quais transportamos todos os nossos dispositivos para pensar e agir", explica Bernardo Coelho, sociólogo e professor no ISCTE que se tem especializado no estudo de questões ligadas à igualdade de género. "Isto é, para estes encontros, homens e mulheres trazem consigo toda a bagagem que lhes permite ir atuando de acordo com o que acham certo, avaliando o que está a acontecer, adequando o que fazem e dizem (a encenação de si e da sua apresentação) ao outro, enquanto o avaliam", continua. Tudo isto "é estruturado pela classe social, pelos seus recursos económicos, sociais e culturais, mas também pelo género, desde a forma como é suposto uma mulher ou um homem comportar-se ao que é suposto ou não é aceitável que uma mulher ou um homem faça".

Mas, mesmo depois dos primeiros encontros, a questão mantém-se. Se alguns casais (ou amigos) preferem dividir todas as contas ao cêntimo, também há quem faça questão de pagar sempre sem que, aparentemente, exista um motivo maior que o leve a fazê-lo. Quando isto acontece, não estaremos a alimentar estereótipos conservadores, empoeirados e, acima de tudo, profundamente errados? Não há uma deslocação de poder, mais ou menos subtil, para quem assegura todas ou a maior parte das despesas?

Podemos imaginar que pessoas com um background (ou um ponto de vista) mais conservador ou tradicional (e, nesse sentido, reprodutor de estereótipos de género) continuem a imaginar as relações íntimas afastadas do universo do dinheiro e a perceber a mulher num lugar subalternizado e dependente. Inversamente, exigem do homem o sucesso económico e "tendem a atuar de forma a parecer natural ou evidente que o homem tenha de pagar a conta", explica ainda Bernardo Coelho.

O desconforto causado pela questão parece ser generalizado. Agora, uma app norte-americana foi criada para facilitar (ou para nos confundir, dependendo do ponto de vista) a questão, mas está a causar polémica e a minar amizades. A Vemno traz as nossas contas bancárias para o ecrã do telemóvel e divide as contas ao cêntimo, enviando mensagens por nós ? tudo para nos tirar a desconfortável tarefa dos ombros. Mas também está a matar um dos gestos mais humanos: a generosidade e a vontade de dar. "Está a tornar-nos mais egoístas", escreve o The New York Times. "Antes íamos a um restaurante, pedíamos bife do lombo e frango e dividíamos a conta ao meio. Agora pagamos exatamente o que comemos. Se temos três bolachas, eu posso comer uma e outra pessoa pode ficar com a segunda e a terceira. Não temos de ser meticulosos a dividir tudo até à última migalha."

"A existência destas aplicações e a forma como pretendem ajudar a dividir contas ou a manter o registo das contas entre pessoas que têm relações de alguma intimidade (amigos, namorados, entre pais e filhos, etc.) é um sinal de como o dinheiro ocupa um lugar central nas relações de intimidade, mas que é sempre um elemento que provoca constrangimento", esclarece Bernardo Coelho. "Estas aplicações acabam por funcionar como uma forma de regulação das transações que existem entre amigos, namorados, casais."

Uma outra questão (não menos importante) é a da confusão do machismo com gestos de cavalheirismo. "Diria de outra forma, demasiadas vezes, esses atos de cavalheirismo são a demonstração de uma visão desigual do lugar dos homens e das mulheres no mundo social. Até porque na génese da ideia do que é o cavalheirismo está subentendida uma relação desigual entre homens e mulheres, eles detentores de poder e elas subalternizadas e dependentes." Claro que isto não quer dizer que um homem não deve pagar o jantar a uma mulher ou que isto não aconteça em relações entre pessoas com visões igualitárias, em que se pode alternar.

"Isto é, a lógica da igualdade assenta na ideia do encontro entre iguais, na cidadania plena de mulheres e homens. No limite, assenta na ideia de cidadania sexual: possibilidades de todas as pessoas expressarem e viverem os seus desejos. Assim e idealmente, qualquer um dos intervenientes poderá pagar a conta, torna-se até indiferente quem o faz. Podem dividir a conta. Podem pagar cada um à vez: num dia paga ele, noutro paga ela", desmistifica o sociólogo. "No entanto, o dinheiro continua a causar algum desconforto nestas situações. Basta estarmos atentos ao momento em que se pede a conta ou quando a conta chega à mesa ou a forma como se tenta fazer do pagamento um momento discreto."

O dinheiro é um tema constrangedor não só à mesa (lugar onde, por educação, nunca devemos falar sobre ele) mas na maior parte das situações, principalmente quando não existe confiança ou intimidade entre duas pessoas. Nos tempos de agora, em que vivemos tão autocentrados, talvez o melhor seja pensar no assunto com mais generosidade e menos preconceito – e dar o primeiro passo para a mudança de mentalidades.

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