Saúde

Do caos para a clausura

A autora do livro Da Cidade para o Convento conta à Máxima, na primeira pessoa, até onde a levou esta viagem interior.
Por Máxima, 28.04.2017
Com 37 anos, a espanhola Leire Quintana decidiu largar tudo. Deixou uma carreira de sucesso, a família, os amigos e partiu para um convento de clausura onde, durante quatro anos, foi apenas mais uma, num espaço onde impera o silêncio, onde a obediência é uma obrigação e o isolamento uma imposição. A autora do livro Da Cidade para o Convento conta à Máxima, na primeira pessoa, até onde a levou esta viagem interior. 

"A minha vida era aparentemente perfeita. Trabalhava com dois sócios e amigos numa empresa criativa, tinha a minha casa, uma boa família e amigos fantásticos, era voluntária numa organização não-governamental e uma eterna sonhadora com um mundo mais justo, um mundo melhor. Não tinha naquela altura nenhuma relação amorosa, mas já tinha tido vários namorados. Também não tinha filhos, talvez porque sentia que iriam crescer à sombra da minha frustração. Tinha, de facto, conquistado uma vida confortável, mas intensamente medíocre. Decidi então colocar um ponto final. Com 37 anos, sabia que precisava de uma mudança radical, uma perspetiva diferente, aquela que se consegue no meio do silêncio, no despojo, no abandono progressivo e doloroso da velha identidade.

Entrei no convento porque sentia que a minha vida se tinha tornado insípida, que o tempo tão valioso que nos dão para viver me escorria por entre os dedos, que o meu coração estava seco e a minha mente cheia de preconceitos e de medos. Cheguei ao convento com a autoestima em baixo e a sensação de que tinha fracassado em tudo aquilo que era mais importante. A clausura era como que uma garantia de que nada se poderia intrometer entre a minha solidão. Ou que pelo menos o bálsamo do silêncio me envolveria e curaria o meu coração dorido.

E apesar de a vida num convento não ser tão tranquila como aquilo que se costuma imaginar, o certo é que atravessar a porta do convento produz como que uma travagem brusca. Os códigos são muito diferentes, os ritmos, as prioridades são outras, bem distintas das que se vivem no ‘ruído da multidão’. É uma aprendizagem lenta e custa assimilar que a vida monástica não é organizada para que se façam muitas coisas, se fabriquem muitos produtos, se acumulem experiências ou relacionamentos. Esta é uma vida que não está virada para fora, mas em vez disso para o interior, para o próprio coração e é fantástico deixar para trás a velocidade da mente e entrar numa quietude que, apesar de ser desejável, consegue, paradoxalmente, causar-nos alguma resistência. O ritmo frenético foi o que me pareceu, ao fim de algum tempo, uma das armadilhas que a vida moderna nos coloca e que não nos deixa conectar connosco, com o nosso ser interior. A a calma é o ritmo que permite a maravilha e a alegria duradoura. Quando a descobrimos, amamos essa lentidão e a simplicidade do tempo presente.

De início, senti como se tivesse perdido a família e os amigos. Não foi fácil – nem para eles, nem para mim –, mas sabia que tudo aquilo tinha um propósito, tinha uma razão de ser. Separar-me do mundo conhecido e atravessar um deserto tinha por detrás um ensinamento. As emoções que isso provoca (tristeza ou até mesmo desolação) abrem uma dimensão mais profunda e desconhecida da própria pessoa. Põem-nos em contacto com a solidão do coração e esse é um terreno fértil para que possa crescer algo de novo. Depois, a pessoa recupera as relações com mais vigor e com mais alegria.

Claro que a minha família teve pena e algumas amigas e amigos também. O facto de ter escolhido ir para um convento de clausura pareceu-lhes algo muito difícil e duro. Pensavam que, de alguma forma, me iria perder, que as coisas não voltariam a ser como eram antes. Outros, como foi o caso dos meus sócios, fizeram um grande esforço por aceitar a minha decisão e apoiaram-me ao longo de todo o caminho percorrido. Também houve quem se tivesse alegrado com sinceridade.
Com o passar do tempo, a vida começou a tornar-se mais agitada e comecei simplesmente a desfrutar, como os corvos brincalhões que planam com as suas asas negras em dias de tempestade. Não sei se o motivo da minha alegria foi amanhecer todos os dias antes da aurora ou sentar-me sozinha na minha cela e olhar de frente para o meu próprio conflito, antes de ter qualquer pretensão de solucionar os problemas dos outros. Não sei se foram os dias de nevoeiro, em que tinha de ir a correr fechar as estufas para evitar que a plantação de tomates se perdesse, ou se me transformaram os abraços das irmãs depois de ‘lutar’ com elas, ou se até mesmo foram os dias de jejum, nos quais me sentia particularmente corajosa. Caminhei pela floresta durante quatro anos e por fim encontrei a fonte corrente. Não fui sozinha. E apesar de lá ter chegado, continuo a regressar. Esta é a minha fé: acredito que naquilo que está escuro conseguimos encontrar a luz e naquilo que parece morto ressurge a vida.

Ao entrar no mosteiro tive de dar baixa do meu telemóvel, mas isso não significa que não pudesse falar pelo telefone ou fazer uso da Internet. A verdade é que a necessidade de estar permanentemente conectada com o exterior vai desaparecendo e as chamadas ou os acessos à Internet se vão fazendo com cada vez menos frequência. Por outro lado, no convento reflete-se muito sobre o uso das novas tecnologias e não se nega a sua utilização, mas em vez disso o seu uso é orientado tendo em conta de que forma pode beneficiar a vida da monja ou da comunidade. E isso significa que estávamos informadas sobre o que se passava no exterior, tínhamos acesso às notícias.

A parte mais difícil foi, sem dúvida, a perda de autonomia. Eu tinha sido freelancer e depois disso tinha trabalhado numa empresa da qual era sócia. Vivia sozinha, estava habituada a definir a minha própria agenda… Passar a ter um horário tão estipulado e organizado e receber ordens de trabalho acabou por se converter no meu cavalo de batalha. Tinha como missão varrer o claustro ou pendurar a roupa ou até mesmo cortar as ervas do campo e era isso que simplesmente devia fazer. Nada mais. Mas não estava habituada a realizar trabalhos físicos, apesar de ser isso mesmo que estava a precisar. Foi uma prova importante e que, no final, me proporcionou muito mais liberdade, dentro da escassa capacidade que tinha para tomar decisões, porque compreendi que era realmente livre para escolher com que atitude queria realizar a atividade que me estava destinada.
 
Entrei disposta a ir até o fim... fosse isso o que fosse. Até ter reconhecido que a sede que me tinha conduzido até ao mosteiro tinha sido colmatada. Foi nessa altura que entendi que era hora de voltar a casa. A readaptação tem sido fácil. Saí feliz, com uma mala cheia de ensinamentos que tenho colocado em prática, que é algo que pretendo continuar a fazer. Sinto-me amada pela comunidade de freiras e elas sabem que eu sinto o mesmo por elas. Se pudesse voltar atrás faria o mesmo? Não tenho dúvidas: mil vezes sim!" 

Testemunho recolhido por Carla Marina Mendes
*Texto originalmente publicado na edição de abril de 2017 (nº 343)

Da Cidade para o Convento, de Leire Quintana, €14,90 (ASA)
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Do caos para a clausura

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