Saúde

Pensamento negativo é positivo?

Quem disse que ser pessimista, estar triste ou macambúzio está fora de moda? Todos os pensamentos contam para o equilíbrio emocional. E pensar negativo também tem as suas vantagens…
Por Máxima, 08.05.2017
"Alexandra a sentir-se entusiasmada." "Tiago com Catarina no Hawai." "Maria adicionou duas novas fotos – álbum Família em Festa." "António está agora em direto." Existe nas redes sociais uma espécie de acordo implícito de otimismo que fomenta a partilha de sucessos e likes e desencoraja o lamento dos ‘grus-mal-dispostos’ subtilmente ‘convidados’ a ir espalhar pessimismo para outro lado. A verdade é que a pressão do smile é tão forte que mesmo no gabinete de psicoterapia há quem se sinta envergonhado por não estar nos seus melhores dias. "Desculpe por estar a ser tão negativo", comentou um paciente ao especialista americano Tory Rodriguez, durante uma sessão de psicoterapia que tem precisamente como objetivo expressar todas as emoções, segundo explica o psicoterapeuta no Scientific American Mind, num artigo a que deu o título Emoções Negativas são Chave para o Bem-Estar. Como assim? O bem-estar é definido por um sentimento de satisfação com a vida que está associado à presença de emoções positivas e ausência de emoções negativas. E há estudos sobre o otimismo que nos motivam a ser autênticos Indiana Jones em busca do cálice sagrado: uma atitude otimista aumenta a produtividade, diminui a pressão arterial, reforça o sistema imunitário e até pode prevenir gripes, de acordo com a literatura. Nas prateleiras das livrarias, as capas em destaque realçam títulos como "aprenda a ser feliz" ou "dicas para pensar positivo". Tudo parece estar a favor de uma cultura cor-de-rosa e esquecemo-nos de que esta nem é válida para todos nem sequer é válida ao extremo. Catarina Rivero, psicóloga clínica, tem uma pós-graduação em Psicologia Positiva e é autora do livro Positiva-Mente. Diz-nos que, positivas ou negativas, "todas as emoções fazem parte do nosso reportório emocional e muitas vezes as emoções negativas podem ser adaptativas (como será o exemplo de uma situação de luto)". Catarina reconhece que "algumas pessoas podem entrar em negação das emoções negativas ou mesmo em evitamento. Todavia, as situações têm de ser vividas". A psicóloga clínica fala da importância de encarar todas as emoções, fazendo parte do caminho para identificar "as estratégias para lidar consigo próprio e com a realidade envolvente. É a partir destes processos que se poderá ter um maior equilíbrio emocional e relacional", conta.

Equilíbrio emocional. E assim começa a lista de pro-emoções negativas. Fernando António Magalhães, psicólogo clínico e psicoterapeuta, no Porto, chama-nos a atenção para mais um ‘detalhe’: "O estar negativo favorece um pensamento analítico, importante em muitas situações." Em contexto de trabalho, por exemplo, investigadores referem que os pessimistas tendem a sobrestimar a possibilidade de fracasso. O que faz com que muitas vezes trabalhem mais e estejam mais bem preparados. Numa comunidade de idosos, um grupo de investigadores (entre eles, Seligman, um dos pioneiros da psicologia positiva) verificou que os pessimistas eram menos propensos a sofrer de depressão após experienciar um momento negativo (como a perda de um amigo) do que os otimistas. Talvez porque estariam mentalmente mais preparados para a situação, avança-se como possibilidade.

Alegria sim, mas não a qualquer custo, alertam investigadores como Adler: "Lembre-se que uma das principais razões pelas quais temos emoções é porque, em primeiro lugar, elas ajudam-nos a avaliar as experiências." Fernando António Magalhães acrescenta mais uma pista útil: por exemplo, "a tristeza pode indicar necessidades psicológicas que não estão a ser satisfeitas ou alertar para coisas que precisam de ser alteradas, como relaxar do stress ou melhorar o apoio social". Os maus sentimentos surgem assim como indícios e alertas úteis. E têm vantagens associadas: "A tristeza leva-nos a evitar ações que conduzam a futuras perdas; chorar cria empatia e outros tipos de comportamento de conforto que ajudam a fortalecer laços entre as pessoas", destacam investigadores da Associação de Psicologia Japonesa, em artigo científico. Não há pretensões de fazer odes ou prestar homenagem aos pensamentos negativos. O que se pretende – ou o que pretendem especialistas como Christopher Peterson, da Universidade de Michigan, EUA – é encontrar os pontos positivos e negativos em cada perspetiva, e por isso distinguem também o otimismo realista, que espera o melhor enquanto permanece sintonizado com potenciais ameaças, do otimismo irrealista que ignora tais ameaças.

Moral da história: os pensamentos negativos existem. E não vale a pena escondê-los porque… a verdade vem sempre ao de cima: na sequência dos estudos que sugerem que o evitar de emoções negativas conduz ao overeating emocional, um grupo de investigadores de uma Universidade de Sydney pediu a um grupo de participantes que suprimissem um pensamento indesejado, ao contrário do outro grupo que não recebeu qualquer indicação nesse sentido. Aqueles que tentaram abafar o pensamento negativo… acabaram por sonhar mais com o tema. O psicólogo clínico Fernando António Magalhães reforça a ideia: "A aceitação da ansiedade é crucial! Em geral, nós queremos lutar ou evitar as emoções negativas, mas curiosamente, quando desistimos da ideia de controlar a emoção, é que ficamos com maior ‘controlo’ da emoção. Está a aceitar emoções negativas quando não estiver a lutar, batalhar, esmagar, tentar contrariar, pressionar ou a atacar essas emoções.Quanto mais conseguir deixar a ansiedade chegar, por exemplo pela prática do mindfulness, mais ela vai desaparecer. A aceitação e pacificação têm muito poder. Quanto menos atenção prestar às emoções negativas, menos poder elas vão ter."
 
O mau faz parte do bom

"Numa situação de equilíbrio emocional, conseguimos apreciar o bom e especial, mas também conseguimos viver os momentos de tristeza sem desmoronar", conta a psicóloga Catarina Rivero. "Pode haver alturas em que as emoções negativas se mantêm dominantes e durante um período longo. Pode ser tempo de recorrer à psicoterapia de forma a melhor compreender e ativar recursos internos no sentido de recuperar um equilíbrio e mais bem-estar."
 
Como gerir emoções?

O psicólogo Fernando António Magalhães explica que gerir emoções implica passar pelas seguintes fases:

1. Identificar as emoções (tristeza, ansiedade, etc.).

2. Compreender as emoções: como estou a interpretar a situação? Estou desesperançado, assustado, amedrontado, etc.? O que causou os meus sentimentos? O que as emoções me estão a tentar dizer? As emoções que senti são proporcionais ou adequadas à situação? Qual é a mensagem que a ansiedade lhe está a enviar? Há duas possibilidades: precisa de agir de forma diferente ou precisa de pensar de forma diferente. 

3. Regular a emoção: o que devo mudar na minha vida? O que posso fazer agora para melhorar a situação? Como posso interpretar a situação de maneira mais lógica ou construtiva? 
Respirar lenta e pausadamente, durante vários minutos, ou praticar mindfulness (treino mental).
 
Como aceitar emoções como a ansiedade?

O psicólogo Fernando António Magalhães responde: "A aceitação é um processo ativo, não é um processo passivo. Uma pessoa pode aceitar escolher a sua ansiedade. Escolher aceitar a ansiedade normalmente dá uma sensação de domínio sobre a experiência. Em algumas pessoas é útil usarem o humor e o sarcasmo com a própria ansiedade e dizer para si próprias: ‘Olá ansiedade!’ Pode ainda dizer olá aos seus piores medos e à correspondente possibilidade: ‘Olá, eu posso fazer uma figura ridícula de mim próprio(a)’, ‘Olá posso ter um ataque de ansiedade e daí?’ e ‘Olá, também pode não acontecer nada disto’. Pode ser útil para aceitar a ansiedade quando ela aparecer, porque quanto mais a aceitar, mais rapidamente ela vai desaparecer."


Por Paula Cristóvão Santos
*Originalmente publicado na edição de maio da Máxima (Nº344)
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