Saúde

Agora é que são elas

Com a vitória de Trump o feminismo perdeu. Com a marcha mundial do dia 21 de janeiro o feminismo ganhou. O novo inquilino da Casa Branca levou do Facebook à rua milhões de mulheres a quem serviu a carapuça (ou deveríamos chamá-la pussy hat?) dos direitos das mul… perdão, dos direitos humanos.
Por Máxima, 08.03.2017

Quando os resultados eleitorais americanos saíram, Teresa Shook, uma reformada do Havai sem qualquer passado ativista, fez o mesmo que a maioria de nós ? desabafou no Facebook. "E se, no dia da posse, as mulheres marchassem em Washington?" Depois, criou um evento na rede social e foi dormir. Antes de fechar os olhos eram 40 as confirmações; na manhã seguinte o evento tinha mais de 10 mil ‘eu vou’ e a partir daí é difícil seguir-lhe o rasto.

Sabe-se que, no dia 21 de janeiro, foram mais de 60 países, milhões de mulheres encapuçadas numa maré cor-de-rosa (certamente em 2005, quando Donald Trump proferiu a célebre – e nojenta – frase "grab her by the pussy" nunca pensou que isso se fosse tornar o motor e dress code de um novo ativismo político). No final, a Women’s March foi/é a metáfora exata do momento que vivemos: nasceu online, cresceu fora das organizações feministas políticas e deu luz a um desejo antigo, o movimento interseccional. É que tal como as mulheres de Simone de Beauvoir, também o feminismo "não nasce, faz-se".

No feminismo do século XXI, como na lista do supermercado, estamos à distância de um clique para tomar uma atitude. Muitas das novas militantes, educadas na era digital, passaram a vida a achar que o feminismo era um assunto que tinha sido deixado tratado pelas mães ou avós (checked!), mas com a chegada à vida adulta, e ao mercado de trabalho, levaram com o primeiro balde de machismo  segundo os últimos dados das Nações Unidas, dez mulheres servem como chefes de Estado e nove como chefes de Governo; nos parlamentos, não chegam a 22% o número de mulheres eleitas; nas 500 maiores empresas do mundo há apenas 23 mulheres CEO; o World Economic Forum estima que demoremos 118 anos até que a igualdade de pagamentos seja alcançada.

Só lhes restava abanar a cabeça, citar Hillary Clinton "da última vez que verifiquei, não havia nenhum desconto por ser mulher" – e defenderem-se da forma que melhor sabem: online. Plataformas como a portuguesa Capazes, emojis de mulheres a amamentar e hashtags que competem com megafones, como #freethenipple e #everydaysexism (e outros, como #nãoéviolaçãose, que demonstram porque 29% dos portugueses acha que sexo sem consentimento pode ser justificado e porque a batalha vai a meio…), são exemplos do feminismo 3.0, fenómeno que alguns especialistas descrevem como a quarta vaga feminista. (Outros acham que ainda nem chegámos à terceira, outros acham que não há vagas nenhumas. Adiante.)

Num ponto, todos concordam: o feminismo deixou de ser um movimento único para dar lugar a grupos fragmentados. Mas não leia isto como sinal de enfraquecimento, bem pelo contrário: "O feminismo, que tem diversas correntes, ampliou-se e ganhou outras dimensões que hoje procuram desconstruir o binarismo de género e assumir a fluidez de identidades", diz Manuela Tavares, fundadora da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), a associação de mulheres que há mais de 40 anos contribui para este tipo de lutas ‘cruzadas’, desde a despenalização do aborto às agendas de outros movimento sociais nas áreas do trabalho, da orientação sexual, de imigrantes.

Manuela (uma das mulheres que apareceu na Assembleia da República vestida com a frase "Eu Abortei", muito antes de ser cool usar t-shirts com frases) acha menores os estereótipos que relacionam as feministas a buço e soutiens a arder (mais uma vez: não aconteceu) e aposta as suas fichas nas camadas jovens e até no sexo oposto. "As causas não morreram, ganham alianças, mesmo entre os homens, conscientes da necessidade de defender os direitos das mulheres como direitos humanos.

A forma democrática como os grupos são organizados, a diversidade das participantes e a pluralidade de reivindicações é aquilo a que se chama feminismo interseccionado, que é basicamente tudo o que Emma Watson já disse no discurso Heforshe em 2014 ou a "forma de vida solidária e tolerante" da organizadora ‘quase por acaso’ da marcha de 21 de janeiro em Lisboa, Joana Grilo (se mesmo assim continuar sem perceber, veja o vídeo sobre pizzas criado pela comediante Akilah Hughes!): "Só com esta grande rede a nível mundial é que se conseguem travar pessoas como o Trump", conta ao telefone a feminista de 29 anos, responsável pelo espaço cultural Com Calma (www.comcalma.org). "A marcha foi o exemplo perfeito de solidariedade. Serviu para mostrar que não estamos todas sentadas no sofá, que o feminismo é maior, temos de estar todas na luta. Juntas." Mesmo a Kim Kardashian? "Se alguém luta e se diz feminista temos de estar sempre juntas. Não podemos dizer mal umas das outras", contesta, faz uma pausa e continua: "Claro que temos de saber desmontar estes discursos e perceber o que está por trás. É fácil dizer que somos feministas se isso vender… Mas discutir se a pessoa é ou não efetivamente feminista é uma não discussão, é olhar para o lado. Interessa-me ir para a rua e fazer as coisas acontecer."

 Vestir a camisola

O feminismo está na moda (basta ver a passerelle da estação quente da Dior ou quem ocupa o seu leme criativo), mas a ideia é torná-lo uma tendência intemporal, pensa Micaela Sapinho, designer portuguesa de vinte e poucos anos que defendeu em género manif (do set aos looks) a igualdade de géneros na coleção The Other apresentada na  47.ª edição da ModaLisboa.

Sobre o futuro do feminismo "As estruturas mentais são de todas as mais difíceis de remover e, como tal, alguns hábitos culturais arcaicamente enraizados continuam a existir."

Sobre as suas causas "Uma das causas de que me sinto mais próxima é a sexualização do corpo feminino e, consequentemente, o slut shaming,tanto por parte dos homens como de outras mulheres tudo isto decorre do problema-mãe, a desigualdade de género. Vivemos numa sociedade que julga uma mulher que veste uma saia ‘demasiado curta’ ou um decote ‘muito ousado’. Em vez de dizer às mulheres como se devem vestir, deveríamos dizer aos homens como agir."

Sobre o poder da moda "Para mim, é essencial criar coleções com conceitos atuais, apelativos e, sobretudo, bem estruturados, de maneira a transmitirem uma mensagem importante. Porque a moda pode muito bem ser usada de modo a ultrapassar obstáculos e revolucionar mentalidades.

Quem são os novos feministas? Veja, na galeria acima, alguns dos nomes mais falados.

Por Patrícia Domingues
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