Rosto&Corpo

Falámos com o guru da longevidade: “Há muita medicação que pode ser desenvolvida para prevenir o envelhecimento”

E se lhe disséssemos que viver saudavelmente, com aspeto jovem, durante mais tempo é uma possibilidade no horizonte? Um dos maiores especialistas mundiais em envelhecimento partilhou a sua confiança sobre o tema. Falámos com o Dr. David Sinclair, da Harvard Medical School, durante o mais recente lançamento da Caudalie, em Bordéus.
Por Carolina Silva, 22.01.2018
Quinta-essência da alma da Caudalie, entre a floresta e as vinhas do Château Smith Haut Lafitte, Les Source de Caudalie é um paraíso que representa, na perfeição, o "paradoxo francês". A cozinha com estrelas Michelin e o melhor do lifestyle do Sul de França conjugam-se com a excelência dos tratamentos anti-envelhecimento.

Foi ali que conhecemos pela primeira vez, há nove anos, a linha Premier Cru e onde regressámos para desvendar o novo membro desta família, Le Sérum, e a sua nova patente exclusiva. Desenvolvida em colaboração com o prestigiado Dr. David Sinclair, da Escola de Medicina de Harvard, um dos maiores especialistas mundiais na ciência do envelhecimento, a patente Vinergy é, apenas, uma das pesquisas em curso pelo geneticista. Apelidado pela Time como o "guru da longevidade", Sinclair sentou-se com a Máxima, elogiou os cientistas portugueses como alguns dos melhores com que tem trabalhado e revelou o seu carinho pelo nosso país. Mas foi o desvendar do seu trabalho que nos deixou fascinados.  
 
O que é que nos pode revelar dos mais recentes estudos que tem feito para a Harvard Medical School e para a Caudalie?
Temos andado à procura de duas coisas para a Caudalie. Queremos encontrar mais boosters mitocondriais e aumentar os níveis de uma molécula chamada NAD (nicotinamida adenina dinucleotídeo). Esta molécula é essencial para a vida, necessária para mais de 500 das reações químicas do corpo e temos vindo a perceber que à medida que envelhecemos a sua quantidade também diminui no organismo. Isto é um problema porque o corpo não consegue desempenhar algumas das suas reações químicas e, mais importante ainda, as nossas defesas contra o envelhecimento também diminuem. Quando o corpo é jovem tem muitas defesas contra os radicais livres e danos ao ADN, responsáveis pelo envelhecimento e pelo aparecimento de doenças. Estamos a tentar encontrar moléculas que rejuvenesçam o NAD. Temos uma molécula que estamos a converter em medicamento, chamada NMN (nicotinamida mononucleótido), que eu estou a tomar agora, e que com base nas análises de sangue verificamos que pode reverter a minha idade biológica dos 48 de volta aos 31.
 
Esta molécula pode ser integrada na fórmula de um cuidado de rosto?
Não conseguimos incluí-la num produto para o rosto porque é instável em cremes e ainda mais em líquidos. Passamos os últimos dois anos à procura de uma nova molécula para cosméticos e partimos de um extrato com centenas de milhares de moléculas que retiramos de células de levedura esmagadas. Esmagamos a levedura à procura de alguma coisa que elevasse o NAD, dividimo-la em 20 vezes e procuramos entre todas as frações qual a que tinha potencial para aumentar o NAD nas células velhas. Encontramos uma e voltamos a dividi-la em 20, e repetimos o processo e ficamos com um extrato com três moléculas apenas. Depois de as identificarmos ficamos a saber qual delas é que aumenta o NAD. Abreviando uma história muito longa, agora acreditamos que temos na nossa posse o booster das células de NAD que podemos integrar num creme. Sabemos que é estável porque guardamo-lo por dois anos, enquanto os anteriores não duraram mais de duas semanas. Espero que esta molécula seja muito útil na cosmética e na medicina.
 
Como pode ser aplicada à medicina?
Há muita medicação que pode ser desenvolvida para prevenir o envelhecimento: diabetes, fragilidade e para as doenças mitocondriais (doenças genéticas) que são as intratáveis neste momento.
 
Quão otimista é, na sua opinião, pensarmos que podemos viver até aos 80 anos sem doenças? É algo que podemos esperar?
Estou confiante que será possível. O que pode não saber sobre mim é que trabalho em 15 empresas diferentes na área do envelhecimento e irei começar em outras quatro empresas nos próximos meses. Sou um dos mais prolíficos empreendedores em biologia e, portanto, uma destas empresas vai ter sucesso nesta demanda.
 
Quer isso dizer que poderemos envelhecer e conservar a pele e os órgãos perfeitamente jovens?
Não diria perfeitamente jovens, não vamos viver para sempre, mas nos nossos estudos com animais é fácil manter um rato vivo por mais 20 por cento do que a sua esperança de vida, por isso para os humanos… mais dez anos deverá ser uma possibilidade.
 
Mais dez anos de vida saudável?
Sim, mantendo as pessoas jovens, não me refiro a prolongar a velhice. Tem tudo a ver com manter as pessoas saudáveis. Nos nossos estudos com animais, os ratos ficam mais saudáveis e jovens por mais tempo e depois morrem muito rapidamente. É por aí que eu quero ir, com humanidade, de modo a que as pessoas não tenham de se preocupar com o cancro quando têm 70 e 80 anos. E quando tiverem 90 e 100 podem morrer rapidamente.
 
Há algum ceticismo da parte da comunidade científica em relação a esta ciência do "não-envelhecimento"?
Não me parece. Ganhei muitos prémios pela minha pesquisa. Julgo que já são 38, ganhei um ainda ontem… A crítica não me afeta muito. Tive muita sorte porque quando comecei, há 20 anos, fizemos descobertas muito importantes, como o facto de existirem genes que controlam o envelhecimento. Comecei a investigar no campo do envelhecimento precisamente quando ele começou a ganhar reputação e a ser considerado uma "boa ciência". Antes disso "atiravam-se" químicos a organismos e nada funcionava. Assim que identificámos os genes que controlam o envelhecimento… aí, sim, houve uma revolução. E o campo manteve-se na vanguarda da biologia desde então. Alguém vai ganhar um Prémio Nobel por esta pesquisa.
 
Já experienciou em algum momento o medo de envelhecer?
Não necessariamente de envelhecer, mas mais de ver os meus pais envelhecerem. Quando tinha quatro anos fiquei muito perturbado por perceber que os meus pais não iriam viver para sempre. Pensei: "Que ideia terrível." E fiquei muito zangado porque achei uma crueldade saber que isso iria acontecer. É um momento pelo qual todos passamos, mas eventualmente tentamos esquecer esse pensamento à medida que vamos crescendo. Vi os meus filhos nesta mesma situação e sempre pensei que gostaria de fazer a diferença neste mundo, de deixar uma marca positiva. Vi o envelhecimento como um dos maiores problemas por resolver.
 
A solução passa então por este bio-hacking?
Sim, mas bio-hacking é apenas uma palavra para fazer ao corpo aquilo que ele já não é capaz de fazer. Acho que, da maneira como temos vindo a desenvolver a tecnologia que possibilita o bio-hacking, é preciso ter em mente que umas moléculas funcionarão para atrasar o envelhecimento, mas outras ainda são muito perigosas.
 
Como quais?
A modificação genética, por exemplo, ainda é demasiado perigosa. O bio-hacking é algo que faço em mim próprio. Com o Resveratrol durante 12 anos, com o NMN, o comprimido que tenho vindo a tomar há cerca de dois anos. Faço outras coisas, como a vitamina D, mas isso não é hacking. Estou a trabalhar em reverter de facto o envelhecimento a um nível genético, mas ainda não está disponível para humanos.
 
Não está a experimentá-lo ainda, portanto?
Não, ainda não. O vírus que muda o genoma para reverter o envelhecimento está no processo de ser testado por ratos. Já mudamos o genoma dos ratos para ver se vivem mais tempo. Mas se isso funcionar e se considerarmos que é seguro, talvez o experimente, mas ainda não.
 
De onde surgiu o seu interesse em colaborar com marcas de cosmética?
Só colaboro com a Caudalie e faço-o porque eles têm este elevado nível de ciência e de ética.
 
Quais têm sido, na sua opinião, os maiores avanços nesta área do anti-envelhecimento, além do Resveratrol?
O NAD foi um grande avanço. Há centenas de cientistas a trabalhar rapidamente nesta molécula, mas ainda não faz parte da consciência pública. E há uma nova tecnologia, chamada senescência (senolytics). Refere-se a moléculas que destroem células velhas do corpo. Matam células específicas chamadas senescentes. Quando estão muito velhas, as células param de dividir-se e tornam-se senescentes, o que causa que as outras células, as jovens, também se sintam velhas. Isto acontece porque as células velhas têm sinais químicos que transmitem às células novas, tornando-as menos funcionais. Pelo que temos visto nos ratos, se eliminarmos estas células senescentes com medicamentos, eles permanecem jovens, porque as células jovens podem funcionar novamente. Mas isto é uma nova área.
 
Quando falamos num futuro para esta tecnologia, refere-se a um futuro próximo?
Bem, há quatro empresas a trabalhar em medicação neste momento, por isso vai acontecer em breve. Uma delas, a Unity Biotechnologies, tem 150 milhões de dólares disponíveis, por isso já está a ver onde é que quero chegar…
 
 
 
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