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NO FEMININO

Teresa Caeiro
por Ana Paula Lemos - fotografias de V.E.R.


Politicamente correcta mas rebelde q.b. para afirmar que a pobreza na capital não a deixa viver tranquila. Qual o verdadeiro papel da governadora civil de Lisboa?

Solteira, jurista, militante do Partido Popular, amiga pessoal de Paulo Portas e fiel depositária da confiança política do ministro da Administração Interna, Teresa Figueiredo de Vasconcelos Caeiro, de 33 anos, "governa" o distrito de Lisboa desde Maio último, consciente de que o seu cargo, em virtude de uma promessa eleitoral, pode ser extinto a qualquer momento. Mas que importância tem esse facto?, questiona-se a governadora da capital. "Um médico que vá operar pela última vez não opera com a mesma responsabilidade e eficácia de sempre, mesmo sabendo que é a última vez?"

Apesar de as mulheres levarem "uma vida dos diabos", Teresa Caeiro tem dúvi-das acerca da eficácia das quotas de participação feminina na política impostas por lei. A sua tenra idade exige-lhe tenacidade e "determinada determinação", para mostrar o que vale. E o equilíbrio existencial é a sua maior obsessão. No Governo Civil de Lisboa, ali ao Chiado, num gabinete à moda antiga, rodeada de infracções ao trânsito por todos os lados, guardada pelo formalismo das forças de segurança e centrada no desfraldar das bandeiras de Portugal e da União Europeia, Teresa Caeiro enfrenta a imagem de Jorge Sampaio, para lembrar que o Estado é uno e democrático.

Fala com a convicção de quem já percebeu que, nestas "coisas" políticas,o que verdadeiramente interessa são os pro-jectos e a vontade. Porque, disse-nos, "o mais importante não são os cargos, mas a determinação de mudar Portugal com todas as nossas forças". E força não lhe falta.

Governar o distrito de Lisboa significa, antes de mais, representar o governo central na área geográfica deste território, tornando mais humano o rosto longínquo do poder central - menos distante, mais operacional - e sobretudo contribuir para que os apelos ansiosos das populações locais se possam ouvir com toda a pertinência no Terreiro do Paço. "Não imagina como o povo da Lourinhã pode estar tão longe de Lisboa...", afirma Teresa Caeiro. Dedicar--se ao governo de terras tão heterogéneas como Vila Franca de Xira, Oeiras, Cascais, Sintra ou Lourinhã obriga a horários rigorosos, total disponibilidade de tempo, muita resistência e, sobretudo, sentido de missão. Ao acordar deste sonho que a levou a acreditar que podia contribuir para mudar Portugal, não irá arrepender-se de não ter vivido com mais liberdade os seus 30 anos?

Teresa Caeiro não cede a tentações. "O maior desafio da minha vida é justamente o equilíbrio. Existem expectativas que não quero frustrar e que têm a ver com as minhas responsabilidades políticas e humanas. Estou em missão. Se tiver conseguido, nestas funções, me-lhorar a vida nem que seja de uma pessoa do distrito de Lisboa, jamais me arrependerei desta opção."

Ao conversar com uma figura do Estado português que tem apenas 33 anos, é mu-lher, espontânea mas intelectualmente madura, interrogamo-nos se terá tempo para namorar, casar, ter um filho. Não se sente sozinha? Com um leve sorriso e uma total disponibilidade, a governadora da capital confessou-nos não ter muito tempo para namorar. "Obviamente, o casamento e a maternidade não podem fazer parte do meu projecto actual de vida", mas "não tenho tempo para estar só".

Quanto a uma mudança operada no seu guarda-roupa para enfrentar as novas funções, confessa que teve de comprar algumas peças. Agora, "muito raramente" vai às compras. "E se for ao meu frigorífico, não encontra nada..."

Ainda há poucos meses, Teresa andava de cabelo apanhado, usava com frequência calças de ganga, tinha tempo de ouvir jazz, lia muito, visitava compulsivamente as salas de cinema. E hoje? "Continuo a ler, mas já não vou tanto ao cinema nem ouço música como gostaria." Deixou de usar calças de ganga? "Não. É a primeira coisa que faço quando chego a casa: visto-as!"

Da leitura, fala-nos como um bem precioso. "Sempre fui habituada a ler muito, mas as minhas características pessoais também me ajudaram a dar à leitura este lugar preferencial."

Teresa Caeiro adora estar em casa. Entretanto soubemos que, em vez de jurista, a nossa governadora teria gostado de ser arquitecta. "Não sei explicar porquê, mas creio que se prende com a mi-nha paixão pelas casas. Sempre preferi o espaço privado. Sou intimista..."

Este encantamento pelas casas levou--a recentemente a percorrer muitos quilómetros, de Nova Ioque à Pensilvânia, apenas para visitar a famosa casa da cascata que Frank Lloyd Wrigth desenhou em meia hora, depois de ter sido pressionado pelo dono da obra numa visita-surpresa ao seu atelier, alguns anos depois da encomenda. "Que casa fantástica!", diz-nos, desenhada mesmo em cima da cascata para satisfazer a exigência do seu cliente, mas sobretudo, segundo o arquitecto, por não encontrar melhor solução. A casa da cascata passou a ser uma das principais referências da arquitectura moderna.

O quotidiano da governadora civil de Lisboa não é invejável. E agora quase não tem tempo para estar em casa. Palmilha o distrito de Lisboa de lés a lés, trabalha mais de 12 horas por dia, não tem sábados, domingos nem feriados. Gira de concelho em concelho. Já os conhece de cor. Inteira-se da realidade social e económica das populações.

Ouve, ouve - queixas… muitas queixas. "Mas este é que é o verdadeiro sentido do meu cargo. Ir ao encon- tro das pessoas e deixá-las falar." E depois? O que faz às queixas? "Quando não as posso resolver, dirijo-as ao poder central."

Aprendeu a distinguir a pobreza da miséria. "Aqui, em Lisboa, encontrei pessoas que acorrentam filhos deficientes e os colocam em espaços absolutamemente inenarráveis. Isto é miséria. Mas há outras histórias tão miseráveis como esta. Por exemplo, as sucessivas gerações que vivem de actividades ilícitas. Nem lhes ocorre pensar a vida de outro modo. Isto é terrível."

Quando penetramos mais fundo no olhar de Teresa Caeiro, parece que a síntese entre o humano e o inumano da nossa sociedade se faz com dor e muita impaciência. Sem nunca dizer nós, adianta que os políticos nunca deviam frustrar as expectativas do povo que os elegeu.

"As pessoas têm de ser sóbrias no exercício das funções públicas. Repugnam-me aqueles que não têm a noção de que os políticos são os fiéis depositários do dinheiro de toda a gente. Não podemos perder a noção da seriedade e do rigor. O di-nheiro é de todos."

Apesar de os governos civis terem
um enorme peso institucional na vida do Estado (o de Lisboa, por maioria de razão), a dinâmica política destas instituições parece não corresponder à sua dimensão constitucional. Claro que ser representante do governo da nação em Lisboa não tem o mesmo peso, nem institucional nem político, que em Bragança, Coimbra, Porto ou Viseu. Aliás, quem partilha a vida da governadora durante um dia apercebe-se muito bem desta realidade.

O seu gabinete é composto por três pessoas: o chefe de gabinete, um adjunto que lida com o lado burocrático da função e uma secretária. O mobiliário é velho. O aspecto, apesar de digno, é decadente.

De repente, aquele espaço físico traduz exactamente a ideia que o cidadão comum tem do Estado. A governadora representa a esperança, a força, a energia, a ideia da possibilidade de uma profunda revolução do Estado. E as paredes, os móveis, o próprio edifício, traduzem um Estado burocrático, gasto, sem esperança, onde mudar significa alterar mentalidades.

Por isso, teimamos em repetir a pergunta: o que faz Teresa Caeiro no Governo Civil de Lisboa? Espera o Governo que a governadora, com a sua energia, altere os destinos daquela instituição? Ou o ministro da Administração Interna encontrou a diplomata certa para extinguir com serenidade e inteligência a instituição Governo Civil?

"Fui educada para cumprir as tarefas da minha vida com humildade, mas com um profundo sentido de missão. Para mim, é tão importante visitar um Centro de Dia, no mais completo anonimato, como participar numa cerimónia com a presença do senhor primeiro-ministro", explica-nos.

Diz-se que a educação e a cultura germânica de Teresa Caeiro contribuem muito para este sentir "asceta" e rigoroso. "Vivi nove anos na Bélgica e, durante esse tempo, estudei na escola alemã." Mas diz-nos que não é exactamente aqui que se encontra a justificação para as exigências que imprime à sua forma de viver. Até porque a sua passagem pela Bélgica ou (anteriormente) por Cabo Verde serviu para a governadora perceber, ainda adolescente, que não conseguia fechar o mundo dentro das casas de que tanto gosta.

Os temas sociais voltam sempre à nossa conversa, mesmo quando o assunto são os livros - "O meu escritor preferido é Thomas Mann" - ou a música que ouve - Rachmaninov comove-a com o seu Concerto n.º 2 para Piano - ou o estilista que aprecia, ou ainda o perfume de que não prescinde. Teresa Caeiro fala de violência doméstica com a mesma fleuma com que analisa o papel das mulheres na vida política e com o mesmo vigor com que despacha centenas de processos.

"Percebo perfeitamente a razão pela qual as mulheres não participam mais na vida política, embora fosse muito desejável. Em primeiro lugar, as mulheres têm um tipo de vida que as inibe completamente de serem membros políticos activos. Que mulher é que pode ir a uma reunião de esclarecimento às nove horas da noite? Quem é que trata dos filhos? E quem é que fica em casa a resolver os assuntos domésticos? Com este tipo de vida, é muito difícil uma mulher fazer política activa", afirma. E desabafa: "Penso tanto na vida das mulheres... Às vezes, vejo-me grega para tomar conta de mim..."

Então, por que duvida da política das quotas? "Porque acho que estes problemas não se resolvem por decreto. Temos é de criar condições para que as mulheres participem. Por exemplo, alterar as mentalidades de modo a que os homens intervenham mais na vida doméstica. O Estado deve preocupar-se com os equipamentos sociais, mas não podemos continuar a exigir que o Estado se substitua à iniciativa dos privados. Claro que é urgente alterar as leis de trabalho, mas também é fundamental que a sociedade aceite como normal o facto de as mulheres quererem ser mães", diz-nos.

Na Assembleia da República, onde na anterior legislatura desempenhou as funções de chefe de gabinete do PP, todos lhe reconhecem inteligência, competência e sentido de dever. Sempre ao lado de Paulo Portas, Teresa corria ao ritmo do líder, procurando satisfazer obstinadamente uma visão perfeccionista do mundo. A sua vida tem sido a síntese entre o sonho de mudar e a vontade de fazer.

"Vou tentar com todas as minhas forças não perder este idealismo. Espero nunca me desiludir da vida", diz-nos Teresa Caeiro, com os olhos fechados de esperança. Sente que Deus a ajuda? "Ah sim, claro, muito, muito..." E quando sai do seu gabinete, depois de tantas horas de trabalho, o que é que lhe apetece fazer? "Dormir..."

E conclui: "O que mais me custa é chegar ao fim do dia e perceber que não fui tão atenciosa para a minha família e para os meus amigos como tentei ser no tratamento das matérias que traba-lhei. Não queria nada perder o sentido do humano. A minha questão existencial é mesmo esta. Procurar um equilíbrio entre a minha vida privada e as exigências públicas do meu cargo."




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