
Da esquerda para a direita, Christine Reeh, Margarida Gil,
Inês Oliveira e Margarida Cardoso.
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Margarida
Cardoso, Inês Oliveira, Margarida Gil e Christine
Reeh.
O que têm em comum estas mulheres? Apenas a ousadia
de realizar cinema em Portugal
Por Ana Paula
Lemos
fotografia de pedro Ferreira
“É tudo
falso, mas falso do melhor que há”, afirma
Margarida Gil acerca de Adriana, o seu filme mais
recente, vencedor do Prémio Tobis de Melhor
Filme Português, recebido em Abril último
no festival IndieLisboa. Entre Adriana e Margarida
existe algo de profundamente comum. Ambas procuram
o absoluto em lugares aparentemente cheios de nada.
Assim falava Margarida quando conversámos sobre
o heroísmo de fazer cinema em Portugal. Mais
ainda: do modo como se ousa viver do cinema e para
o cinema, num país onde os criadores em geral,
incluindo os cineastas, são tratados como produtos
de luxo, bens acessórios, agentes desavergonhadamente
gastadores.
Adriana não é um filme autobiográfico.
Mas muito do que a vida trouxe a Margarida nos últimos
anos – nomeadamente a morte de João César
Monteiro, o companheiro de sempre, e de uma parte
da sua família próxima – projecta
em Adriana as mesmas angústias e sofrimentos
que assolam a sua vida.
Margarida (Covilhã, 1950) é
a mais velha das quatro realizadoras que escolhemos
para falar de cinema e da realização.
As outras três são Margarida Cardoso
(Lisboa, 1963), Inês Oliveira (Lisboa, 1976)
e Christine Reeh (Frankfurt, 1974).
É verdade que todas elas estão no cinema
de modo dissonante, como aliás confirmam os
seus currículos. As Margaridas realizam mais,
têm obra mais consistente e alguns críticos
afirmam, sem pudor, que são sem dúvida
duas das maiores realizadoras portuguesas de cinema.
Inês e Christine, muito mais novas, mais documentaristas
do que ficcionistas, igualmente premiadas, mas ainda
assim num estádio bem diferente das suas vidas
criativas, isto é, lutando pelo seu lugar no
mundo e afirmando-se como as promessas do futuro.
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| Margarida Cardoso, a realizadora
de A Costa dos Murmúrios, viu o seu filme
ser aclamado pelo público e pela crítica.
Tal como Inês Oliveira com a curta-metragem
O nome e o N.I.M. |
Apesar da disparidade de experiências,
do modo singular com que cada uma faz cinema, nenhuma
está satisfeita com a representação
social do cinema português. O programa do actual
Governo para a cultura começa por sublinhar o
facto de o cinema português se ter imposto internacionalmente
como uma das nossas artes mais prestigiadas. A sua presença
em festivais internacionais é frequente, afirma
aquele documento. Alguns dos seus maiores criadores
são conhecidos e respeitados e são hoje
grandes personalidades da nossa cultura. Vários
filmes produzidos são, enquanto obras de arte,
verdadeiras mensagens do nosso tempo às gerações
futuras, diz ainda o programa de Governo.
Só que Portugal é, paradoxalmente, o país
da União Europeia em que os filmes nacionais
são vistos pela mais baixa percentagem de espectadores
(entre 0,4 a 1,5 por cento dos espectadores nos últimos
anos), enquanto a média europeia ultrapassa os
20 por cento. Isto apesar de o apoio financeiro ao sector
ser, em percentagem do PIB, um dos mais elevados, atingindo
o terceiro lugar na UE.
Não é nossa intenção penetrar
no âmago do problema que coloca a resposta certa
a este enunciado político, até porque
já estamos a falar de mulheres, realizadoras,
que, embora não parecendo, só pelo facto
de o serem, já se encontram duplamente penalizadas.
Claro que o público potencial do cinema português
é o mesmo que invade as salas de cinema para
um filme americano. Por isso, há quem lhe atribua
uma parte do problema, nomeadamente o seu atávico
preconceito relativamente ao cinema nacional, e não
apenas aos criadores, estes sim, vistos em muitos casos
como os principais obreiros do enfado do filme português.
Só que são precisamente as nossas entrevistadas
alguns dos protagonistas que confundem as tais ideias
feitas acerca do fatalismo medíocre do cinema
realizado em Portugal.
Para não irmos mais longe, basta lembrar o que
aconteceu recentemente com dois dos filmes de Margarida
Cardoso e Margarida Gil, respectivamente A Costa dos
Murmúrios e Adriana. Pela crítica, soubemos
estar perante dois bons filmes da historiografia portuguesa.
E, segundo pudemos ler, ouvir e ver em toda a imprensa,
um e outro foram bem acolhidos pelo público em
geral.
Não é portanto por este canal que o mau
tempo arrasa o cinema português. Ser realizadora
de cinema, observa Christine Reeh, a mais nova das nossas
entrevistadas, “continua, infelizmente, a ser
uma profissão mais de homens do que de mulheres”.
E “também neste sector social se espelham
as características machistas da sociedade portuguesa.
As mulheres, em geral, deviam ser mais motivadas a terem
mais e maiores ambições”.
Hoje, as mulheres têm representação
maioritária nas escolas e universidades, na maioria
dos casos até são melhores alunas. Então,
o que lhes acontece depois?
É pois a paixão pelo cinema e pela realização
o ponto transversal a estas quatro personalidades tão
díspares, mas ao mesmo tempo tão coesas
enquanto agentes criadores.
Margarida Cardoso é a formiga dos múltiplos
projectos. Concentrada em África, que a fascina,
é, porém, no absurdo da guerra, nomeadamente
da Guerra Colonial, que a realizadora procura o “tema”
da sua filmografia.
O cinema “é a forma de dizermos alguma
coisa aos outros. Para mim, é o meio através
do qual eu comunico com os outros e com o mundo”.
Neste ponto todas as nossas realizadoras estão
de acordo. O realizador é um comunicador por
excelência, se quisermos, um dos mais importantes
contadores de histórias da modernidade,
enfim, o criador mais massificado de todos os tempos.
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| Margarida Gil recebeu o
Prémio Tobis de Melhor Filme Português
com o filme Adriana. Christine Reeh optou pelos
documentários para marcar a diferença. |
Inês Oliveira ia partir para
Marrocos, frustrada com o modo como a sociedade portuguesa
encara o cinema português. Acabara de descobrir
a importância da sociedade civil na dinamização
das obras de arte e do próprio processo criador.
Percebeu que, para realizar cinema em Portugal, é
preciso correr os mesmos riscos que qualquer outra actividade
dependente da iniciativa individual.
“Vou gastar o dinheiro que recebi do Prémio
Melhor Curta-Metragem com o filme O Nome e o N.I.M.
para poder continuar a filmar”, afirmou Inês.
Senão, disse-nos ainda, “continuarei esperando
que venham os apoios estatais”.
É claro que as novas gerações estão
mais aptas para travar esta luta infernal dos criadores
portugueses pela afirmação da sua arte.
Mas não deixa de ser desolador verificar a desmotivação
que já reina junto dos mais novos para travar
estes combates.
E Inês lá partiu rumo
ao Marrocos profundo, numa roulotte equipada para
filmar, na esperança de conseguir travestir
as regras de jogo da realização tradicional,
já que não leva um guião pré-estabelecido
nem estudou sequer a geografia do país.
“O filme que nascer será profundamente
inovador”, admitiu Inês Oliveira. “Vou
filmar sem rede. O que acontecer desta nossa longa
estada (eu e o actor) será o filme.”
“Fazer cinema em Portugal não é
necessariamente pior ou mais difícil do que
no resto dos países europeus”, afirma
Christine Reeh, de 30 anos, alemã de gema a
viver em Portugal desde 1996. O que está em
crise “é o cinema europeu em geral já
que todos nós temos de competir com a omnipresença
das superproduções americanas”.
O que existe em Portugal de complicado “é
existirem várias fontes de financiamento e
muitas vezes os produtores portugueses limitarem-se
a ficar à espera das respostas do ICAM (Instituto
do Cinema, Audiovisual e Multimedia). Temos de agir
como europeus e, sobretudo, resolver o problema da
fronteira que separa o dinheiro dos talentos e vice-versa”.
Margarida Gil filmou em Adriana uma das mais completas
histórias acerca do actual imaginário
social português, considerou a crítica:
numa ilha imaginária nos Açores, uma
comunidade fecha-se em torno de Edmundo, um aristocrata
rural, que acabou de perder a mulher, na sequência
do nascimento da sua filha. Atravessado pelo desgosto,
Edmundo declara o luto e proíbe qualquer forma
de contacto sexual entre os habitantes. É neste
ambiente que Adriana, a filha de Edmundo, cresce,
ela que é uma das últimas crianças
a nascer nesta ilha. Anos mais tarde, quando a desertificação
da ilha se agudiza, Edmundo é levado a tomar
uma decisão drástica: enviar a sua filha
para Lisboa, para que ela “possa constituir
família por métodos naturais”.
E é assim que, para Adriana, começa
a saga na grande cidade. Assaltada por uma elegante
mulher logo à saída do aeroporto, Adriana
não só fica sem os seus pertences como
perde também a identidade. Perdida na grande
cidade, será ajudada por Estela e pelo seu
filho Saturnino, um travesti, que a levará
através de uma Lisboa misteriosa e surpreendente.
Aqui temos um bom exemplo de como a pedagogia dos
públicos não é uma vã
glória, como aliás prova a imprensa,
ao considerar Adriana um filme muito bom. Como já
o fizera, anteriormente, com o cinema de Margarida
Cardoso e com as últimas obras de Inês
Oliveira e Christine Reeh.
E o que acontece depois? Depois, dizem as nossas entrevistadas,
é lutar para poder continuar a realizar cinema
em Portugal. É aprender a viver com quase nada
ou apenas um pedaço de tudo. É aceitar
que o estatuto de criador supõe e até
pressupõe esta manifesta aprendizagem pelo
desenrasca, e que viver só do cinema e para
o cinema, mesmo quando estamos perante realizadoras
premiadas, é um verdadeiro luxo. Neste caso
que viva o luxo!
Realização: Gabriela
Pinheiro. Cabelos: Miguel Catrica. Maquilhagem: Joana
Moreira. Agradecimentos: Cartier, Loja das Meias,
Manuel Alves e José Manuel Gonçalves,
Patrizia Pepe e Pedro Del Hierro. A Máxima
agradece ainda a colaboração dos Espaços
da Tapada - ADISA/Instituto Superior de Agronomia
pela cedência dos espaços para a realização
da sessão fotográfica.
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