“Queres sair comigo
hoje?” A pergunta parece simples, inocente. Há
algumas décadas, poderia abrir caminho a uma sequência
de expectativas que, na melhor das hipóteses, levaria
a um hipotético compromisso futuro e, na pior, se
ficaria por uma amizade morna, com futuro incerto.
A amizade entre sexos sempre foi encarada como utópica
ou improvável, independentemente de qualquer das
partes ter (ou não) um relacionamento com terceiros.
Se ambos forem livres, o mais certo é que comecem
a correr rumores de que “aqueles dois têm um
caso”. Quando um deles – ou ambos – tem
parceiro ou cônjuge, o fantasma do ciúme costuma
ganhar terreno e tende a alimentar o receio de um triângulo
amoroso.
Por todas estas razões, as amizades entre sexos nunca
foram um assunto pacífico, sendo etiquetadas de platónicas
ou eróticas – o que raramente sucede entre
pessoas do mesmo sexo, embora actualmente seja cada vez
menos líquida essa certeza, devido à crescente
aceitação da homo e bissexualidade e até
à tendência para a sexualização
das interacções sociais e laborais, alimentada
em parte pelos códigos publicitários, assentes
nos princípios do prazer e da sedução.
Desde que a moda unissexo
passou a barreira do vestuário e acessórios
e se entranhou aos poucos na pele e na mente de cada um,
a amizade entre eles e elas ganhou um fôlego diferente
e deixou de ser uma questão polémica. Porém,
a liberdade de formas de estar e de se relacionar contribuiu
para aumentar a complexidade das regras do jogo.
Fernando e Glória sabem disso. Dois trintões
bem-dispostos, livres e urbanos, decidiram sair juntos,
sem o grupo de amigos ou colegas de trabalho, para tomar
um copo ao final da tarde. Ela, mais cautelosa, sugeriu
uma esplanada que sabia não ser frequentada por pessoas
conhecidas, “para evitar mexericos”.

“Logo
ali, dei-me conta de um quê de clandestinidade implícito,
mesmo que, conscientemente, não tivesse a intenção
de um encontro romântico”, lembra Glória.
Repetiram a dose uma semana depois e gostaram daquele novo
ritual nas rotinas de ambos, feito de trocas de impressões
dos respectivos locais de trabalho, histórias e gostos
pessoais, pormenores do quotidiano.
Já lá vão
três anos de uma sólida amizade,
sem haver propriamente regras definidas. “Às
vezes, passava-se um mês em que não nos víamos
e tínhamos por hábito manter uma certa leveza
nos encontros”, explica Glória. E finalmente,
a confissão: “Por três ou quatro vezes,
tivemos sexo casual.”
Glória já teve dois compromissos duradouros
e admite que, de momento, não tem em vista uma pessoa
suficientemente interessante para partilhar o quarto. Porém,
isso parece não incomodá-la particularmente.
“Vivo o momento e sei que ele também faz o
mesmo. Ambos sabemos que é só sexo e não
queremos mais do que isso – nem passar de amigos a
namorados, porque nunca foi esse o registo.”
Este “registo”, que vive das (in)certezas de
cada dia, marca cada vez mais uma progressiva faixa de pessoas,
que não se privam de ter prazer só porque
não têm uma relação (como manda
– ou mandava – a regra).
E se um deles encontrar um parceiro fixo? Estes encontros
“em aberto” terão os dias contados? “Não
sei”, responde Glória. A verdade é que
não pensa sequer nisso, deixando que o momento dite
a regra e aceitando, como até agora, as vontades
de cada um, sem se forçar ou forçar o outro.
| Envolver-se sexualmente
sem compromisso está a converter-se numa moda.
Entre adolescentes mas também entre adultos. |
“Às vezes, não é fácil”,
conclui. “Mas pior seria se nos privássemos
de todo, quando nos apetecer a ambos.”
Mónica e Luís também pensam assim.
A diferença é que ambos já foram casados
e são um pouco mais velhos, na casa dos 40. Tanto
um como outro reconstituíram o lar, se assim se pode
dizer, e têm um filho em comum. Em comum, ano e meio
depois do divórcio amigável, têm também
alguns encontros furtivos, “quando apetece e a ocasião
permite”. Conciliar desejo e disponibilidades parece
intensificar o gosto especial de aventura – que tinha
morrido na fase final do casamento – e, curiosamente,
contribuir para harmonizar a vida de casal de cada um.
“São situações raras e especiais,
mas o facto de serem para o que são, sem outros assuntos
a interferir, funciona como um carregar de baterias seguro,
com quem se conhece já e sem obrigações
à mistura”, elucida Mónica. O seu primeiro
casamento resultou de uma paixão iniciada no final
da faculdade, quando ambos ainda eram imaturos. Depois os
ânimos esfriaram e eles não foram capazes de
dar a volta à situação. Com a relação
parental e novas histórias de amor “mais maduras”,
o cenário em que mantiveram contacto foi-se transformando,
ao ponto de hoje se verem como “amigos cúmplices
que ocasionalmente fazem amor”, sem pesos na consciência.
Adultério? Affair? “Não vemos as coisas
assim, até porque nesses casos há uma regularidade
que, entre nós, não existe nem tem de existir.”
MORANGOS
SEM AÇÚCAR
São amizades com muitas
cores, muitos sabores, mas nem sempre isentas de dores.
Como se definem?
• Voláteis
ou intermitentes
• Sem vínculos afectivos
• Imediatismo (sem as etapas habituais do ver-se,
conhecer-se, primeiro beijo, apresentar aos amigos…)
• Sem obrigações (fidelidade,
compromisso)
• Clandestinas (na maioria dos casos, embora
haja excepções) |
A vaga de divórcios
que dominou a última década, a par da diminuição
do número de casamentos, conduziu sociólogos
e antropólogos a questionarem a instituição
do matrimónio como valor seguro. Por outro lado,
o discurso da sexualidade livre deixou de ser apenas um
discurso, entrando paulatinamente nos hábitos dos
portugueses, um pouco à semelhança do que
sucede noutros países, onde o número de adultos
que vivem sozinhos é muito superior ao nosso (segundo
o Census, em 2001, existiam mais de 600 mil famílias
unipessoais).

Há
ainda quem vaticine o fim do mito da monogamia – não
faltam livros sobre o assunto – e a tónica
desloca-se agora para um fenómeno emergente, que
dá pelo nome de amizades coloridas.
O termo nasceu no Brasil e aplica-se para designar relações
em que o compromisso fica de fora. “No strings attached”,
dizem os americanos. “Sexo com companhia”, dizem
os que conhecem por dentro a experiência, mas que
ainda não ousam falar disso abertamente ou usando
o nome verdadeiro, como os casos anteriores. Afinal, trata-se
de uma minoria que nem sequer foi alvo de estudo estatístico
ou qualitativo. Porém, revela-se nas conversas de
bastidores com pessoas de confiança, que “não
vão dar com a língua nos dentes”, por
assim dizer.
As regras do jogo são tácitas e nem todos
terão perfil para jogá-las. Uma delas é
não assumir, à boa maneira do adultério.
Talvez por isso sejam mais comuns em faixas etárias
superiores aos 30, quando já se tem uma noção
de si mais diferenciada, com mais “calo”, e
se passou pela turbulência de amores e desamores.
O médico Pedro de Freitas, especializado em Saúde
Mental e a terminar um doutoramento em Sexologia Clínica,
confirma este fenómeno. Nas consultas de psicoterapia
a que se dedica há vários anos, alguns dos
pacientes mencionam en passant este tipo de amizades, que
funcionam, no entender dos visados, como complemento de
uma vida que se quer bem vivida e sem culpas.
“Não posso traçar
um perfil, mas consigo afirmar que são
mais frequentes em pessoas entre os 35 e os 40 anos, com
percursos profissionais bem sucedidos, que já tiveram
um ou mais relacionamentos estáveis e não
pretendem continuar nesse registo.” Ao clínico,
admitem que se sentem confortáveis em amizades, de
longa data ou recentes, que por vezes evoluem para “cenas
de cama, frescas, discretas e sem segundos pensamentos”
(neste caso, de afectos ou compromisso futuro).
| O discurso da sexualidade
livre deixou de ser apenas um discurso, entrando paulatinamente
nos hábitos dos portugueses. |
A leitura que o médico faz deste padrão “não
formal” é a seguinte: o medo de um novo fracasso
leva-os – homens e mulheres – a fugir do envolvimento,
mantendo a actividade sexual sem amarras, com pessoas que
conhecem bem.
Entre amigos ou entre amantes? Esta última classificação
desagrada a quem prefere amizades privilegiadas (ou seja,
em que o sexo pode bater à porta). Basta que um dos
amigos se envolva emocionalmente e fica tudo confuso. Quando
uma das partes começa a querer “sair com”
ou a perguntar “Quando é que nos vemos de novo?”,
isso pode ser um sinal amarelo para aviso de retirada (se
o acordo tácito “ambos não quererem
uma relação” for ameaçado). O
pior risco é ficar vinculado, cair naquele registo
“sexo e afecto” que durante tanto tempo pautou
os modelos de saúde mental aplicados aos relacionamentos.
Para quem passa a barreira – é mais frequente
acontecer com o sexo feminino, mas também pode acontecer
com os homens, quando se deparam com uma mulher emocionalmente
distanciada – o final não é feliz: os
sentimentos de desvalorização pessoal e de
rejeição ganham em toda a linha. Um convívio
lúdico que tinha por meta o prazer, a fuga ao tédio
ou o não sofrimento, traz mais amargos de boca do
que se não tivesse tido lugar à partida. “Infelizmente,
este é um tema comum”, defende no seu site
a popular sexóloga americana Patti Britton. “Quando
se ultrapassa a linha da amizade platónica (recorde-se
o par de detectives da série Ficheiros Secretos,
e depressa se percebe de que é feita essa amizade,
cheia de tensão latente e nunca consumada), a relação
que existia muda definitivamente.” Há quem
aceite a conversão de amigos para amantes, quem o
faça e consiga entretanto abandonar o registo sexual
e o romance, em troca da segurança da amizade, e
quem nunca mais consiga fazer o caminho de regresso a essa
base sólida de bons amigos.
Boa parte da confusão
que se gera nestas situações
tem alguma ligação com a aprendizagem dos
modelos amorosos feita na infância. Para as gerações
nascidas nos anos 60, em que ainda vigorava o paradigma
da família feliz, tipo “um casal, uma casa,
um ou dois filhos, um carro e um animal de estimação”,
nem sempre se afigura fácil adoptar uma moral sexual
isenta da capa afectiva, viver o sexo sem a chancela protectora
(ou sufocante) do amor. Especialmente fora das sociedades
anglo-saxónicas e do norte da Europa, onde essa vivência
é mais comum.
Sob um prisma menos liberal, poder-se-ia supor que o romantismo
já está fora de moda, que as pessoas se usam
umas às outras para os mais variados fins, esfera
sexual incluída. E, nesse caso, quem ganha e quem
fica em desvantagem? “As mulheres”, argumenta
João Moreira, que se dedica à investigação
na área dos relacionamentos (www.iarr.org).
Baseando-se na teoria evolucionista, que considera os comportamentos
humanos à luz da Biologia, o psicólogo advoga
que a liberdade sexual beneficia os homens, que no passado
tinham vantagens de replicação genética
e, inconscientemente, tendem a preferir para parceiras ocasionais
jovens (idades entre 18 e 24 anos), como mostram respostas
masculinas a inquéritos efectuados em pesquisas internacionais.
Esta escolha coincide com a idade em que a probabilidade
de uma gravidez bem sucedida é maior. De acordo com
a mesma teoria, as mulheres apenas tiram vantagem do sexo
ocasional em termos de avaliação de potenciais
parceiros a médio prazo ou para benefícios
imediatos, como recursos materiais.
LIVRES
OU NUMA PRISÃO?
A escolha depende do ponto
de vista.
Vantagens
• Liberdade
• Facilidade
• Diversidade
• Prazer sem amarras
Desvantagens
• Risco aumentado de doenças sexualmente
transmissíveis
• Dissociação dos afectos
• Insegurança
• Solidão (sobretudo para quem se envolve) |
Motivações inconscientes à parte, “as
amizades coloridas podem ser um sinal saudável na
sociedade actual, para aqueles que não querem envolver-se
precocemente ou para quem deseja ter prazer sexual, apesar
de não ter alguém à altura de um compromisso”.
Porém, sublinha o reverso da medalha: “Este
registo pode traduzir uma forma de evitar uma relação
estável, devido a dificuldades em lidar com a intimidade,
seja por experiências negativas recentes (divórcio,
separação, perda), seja por vivências
precoces de vinculação que condicionam um
estilo inseguro.”
| As mulheres apenas
tiram vantagem do sexo ocasional em termos de avaliação
de potenciais parceiros a médio prazo. |
“Com as minhas amigas? Claro que sim”, responde
Vasco, ao telefone. Foi fácil chegar a ele, através
dos inúmeros canais de conversa disponíveis
nos portais lusitanos. Pontos de encontro de milhares de
adolescentes, são também o espaço perfeito
para, longe dos olhares curiosos dos familiares, poderem
ensaiar tácticas de aproximação ao
sexo oposto. Não apenas nos chats, mas também
nos anúncios classificados – secção
“ele procura ela” ou “ela procura ele”
–, faculta-se o número de telemóvel
ou o e-mail e cada um diz ao que vem. Bem ao estilo do século
XXI, tecnológico: “Sou o António, tenho
19 anos e gostaria de conhecer pessoas interessantes e dispostas
a ter amizades coloridas.”
Naturalmente, Vasco
mostra-se receptivo ao meu contacto. Após uma breve
troca de mensagens escritas – cheias de abreviaturas
(“k fazes, donde teclas?”) e smileys –,
passamos ao contacto de voz. Um pouco desiludido quando
soube ao que eu vinha, lá pediu para mudar o nome
– como manda a etiqueta – e foi dizendo que
era normal “dar uma volta com” amigas (por vezes,
suas colegas de faculdade), sem ter de “andar com
elas”. Porquê? Para experimentar? “É
algo que fazemos, só isso.”
Mesmo que um grande número de contactos on-line não
passem disso mesmo, muitos funcionam como porta de acesso
a aventuras descomprometidas, “sem as chatices do
namoro certinho, que ainda é cedo para isso”.
E elas, serão assim tão disponíveis?
Se sim, pelo menos não o demonstram e parecem ser
em menor número. Adeus cartas de amor escritas em
papel perfumado, agora o que conta são as mensagens
escritas, as fotos enviadas pela Net ou por telemóvel
e as sugestões em aberto que, noutros tempos, só
seriam possíveis com aliança no dedo. Mas
os relacionamentos parecem fechar uma série de possibilidades,
o que está fora de questão para muitos estudantes
que põem em primeiro lugar a carreira promissora
e, em segundo, eventuais vínculos afectivos. Mesmo
quando ainda estão no Secundário, entretêm-se
nestes envolvimentos sem se envolver, mais a “curtir”
que a namorar.
Esta questão vai ser pesquisada pela investigadora
brasileira Marisalva Fávero, que conta com o apoio
do Instituto Superior da Maia. A ideia consiste em estudar
os comportamentos sexuais numa amostra de adolescentes entre
os 12 e os 17 anos, com destaque para a prática do
“curtir”, e simultaneamente analisar uma população
dos 18 aos 30 anos (o “curtir” ao longo do tempo),
bem como as atitudes dos pais e professores face ao tema.

“Estes encontros fugazes, casuais e esporádicos,
sem fidelidade nem ‘chatices’ – como eles
dizem – representam uma nova forma de relação,
provisória e típica dos tempos de rapidez
em que se vive.” Para Marisalva, o fim da certeza
de ter um emprego fixo é aplicável ao universo
das relações interpessoais. Se o impacto dessas
mudanças é positivo ou negativo, a investigação
que vai iniciar há-de dizer. Para já, um dossier
publicado no New York Times, a 30 de Maio deste ano, mostra
que os conceitos de namorar ou “andar com” (“dating”)
e dar uma volta ou “curtir” (“hooking
up”) viram o seu significado radicalmente alterado
nos últimos anos. Assim, um encontro formal pode
resumir-se a uma deslocação até ao
centro comercial com um parceiro e alguns amigos. O primeiro
passo é quase sempre feito on-line e só depois
decidem se querem encontrar-se na vida real, de preferência
sendo de outra escola ou localidade, para não dar
nas vistas. O artigo refere os “amigos com benefícios”
como sendo aqueles com quem “se curte”.
Estarão os rapazes dispostos a precipitar-se numa
relação fixa? Mais uma vez, os testemunhos
sugerem que elas tendem a perder bastante com este “começar
pelo fim” – entre eles, o de Michael Milburn,
co-autor do livro Inteligência Sexual, para quem estas
amizades coloridas servem sobretudo o prazer dos rapazes.
Ou o testemunho da socióloga Marline Pearson, certa
de que nos anos 60 as raparigas tinham mais poder, comparativamente
ao cenário actual, porque a primeira linha de acção
era o beijo. Depois seriam as carícias no corpo e
toda uma sucessão de etapas até à relação
sexual.
Agora que os códigos
se alteraram – sem esquecer o aumento
das doenças sexualmente transmissíveis –,
a questão está a agitar a opinião pública,
nomeadamente os pais dos adolescentes.
O fenómeno alarga-se ao Japão, onde os “amigos
sexuais” foram alvo de uma pesquisa conjunta entre
as universidades da Califórnia e de Hiroshima: numa
amostra de 602 adolescentes entre os 15 e os 19 anos, 43
por cento respondeu que tinha cinco ou mais amizades coloridas
ao mesmo tempo.
A poesia dos encontros íntimos tem uma linguagem
nova que vai atravessando gerações, numa sociedade
que se transformou, como revela o mais recente projecto
da universidade americana de Chicago, num imenso supermercado
sexual, que desincentiva o matrimónio e a monogamia.
Mais uma vez, com vantagem para os homens (elas são
em número superior, tornando a oferta maior), em
especial para os que têm um estatuto socioeconómico
e profissional superior à média (na amostra,
constituída por milhares de entrevistados, 40 por
cento afirmava manter relações com pelo menos
duas parceiras ao mesmo tempo; quanto mais elevado o estatuto,
maior a probabilidade de ter parceiras múltiplas).
Perante os factos, apenas uma pergunta: teremos chegado
ao fim da inocência?