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DOSSIER
Por
Clara Soares
Ilustrações
Júlio Vanzeler

“Queres sair comigo hoje?” A pergunta parece simples, inocente. Há algumas décadas, poderia abrir caminho a uma sequência de expectativas que, na melhor das hipóteses, levaria a um hipotético compromisso futuro e, na pior, se ficaria por uma amizade morna, com futuro incerto.

A amizade entre sexos sempre foi encarada como utópica ou improvável, independentemente de qualquer das partes ter (ou não) um relacionamento com terceiros. Se ambos forem livres, o mais certo é que comecem a correr rumores de que “aqueles dois têm um caso”. Quando um deles – ou ambos – tem parceiro ou cônjuge, o fantasma do ciúme costuma ganhar terreno e tende a alimentar o receio de um triângulo amoroso.

Por todas estas razões, as amizades entre sexos nunca foram um assunto pacífico, sendo etiquetadas de platónicas ou eróticas – o que raramente sucede entre pessoas do mesmo sexo, embora actualmente seja cada vez menos líquida essa certeza, devido à crescente aceitação da homo e bissexualidade e até à tendência para a sexualização das interacções sociais e laborais, alimentada em parte pelos códigos publicitários, assentes nos princípios do prazer e da sedução.

Desde que a moda unissexo passou a barreira do vestuário e acessórios e se entranhou aos poucos na pele e na mente de cada um, a amizade entre eles e elas ganhou um fôlego diferente e deixou de ser uma questão polémica. Porém, a liberdade de formas de estar e de se relacionar contribuiu para aumentar a complexidade das regras do jogo.

Fernando e Glória sabem disso. Dois trintões bem-dispostos, livres e urbanos, decidiram sair juntos, sem o grupo de amigos ou colegas de trabalho, para tomar um copo ao final da tarde. Ela, mais cautelosa, sugeriu uma esplanada que sabia não ser frequentada por pessoas conhecidas, “para evitar mexericos”.

“Logo ali, dei-me conta de um quê de clandestinidade implícito, mesmo que, conscientemente, não tivesse a intenção de um encontro romântico”, lembra Glória.

Repetiram a dose uma semana depois e gostaram daquele novo ritual nas rotinas de ambos, feito de trocas de impressões dos respectivos locais de trabalho, histórias e gostos pessoais, pormenores do quotidiano.

Já lá vão três anos de uma sólida amizade, sem haver propriamente regras definidas. “Às vezes, passava-se um mês em que não nos víamos e tínhamos por hábito manter uma certa leveza nos encontros”, explica Glória. E finalmente, a confissão: “Por três ou quatro vezes, tivemos sexo casual.”

Glória já teve dois compromissos duradouros e admite que, de momento, não tem em vista uma pessoa suficientemente interessante para partilhar o quarto. Porém, isso parece não incomodá-la particularmente. “Vivo o momento e sei que ele também faz o mesmo. Ambos sabemos que é só sexo e não queremos mais do que isso – nem passar de amigos a namorados, porque nunca foi esse o registo.”

Este “registo”, que vive das (in)certezas de cada dia, marca cada vez mais uma progressiva faixa de pessoas, que não se privam de ter prazer só porque não têm uma relação (como manda – ou mandava – a regra).

E se um deles encontrar um parceiro fixo? Estes encontros “em aberto” terão os dias contados? “Não sei”, responde Glória. A verdade é que não pensa sequer nisso, deixando que o momento dite a regra e aceitando, como até agora, as vontades de cada um, sem se forçar ou forçar o outro.

Envolver-se sexualmente sem compromisso está a converter-se numa moda. Entre adolescentes mas também entre adultos.
“Às vezes, não é fácil”, conclui. “Mas pior seria se nos privássemos de todo, quando nos apetecer a ambos.”

Mónica e Luís também pensam assim. A diferença é que ambos já foram casados e são um pouco mais velhos, na casa dos 40. Tanto um como outro reconstituíram o lar, se assim se pode dizer, e têm um filho em comum. Em comum, ano e meio depois do divórcio amigável, têm também alguns encontros furtivos, “quando apetece e a ocasião permite”. Conciliar desejo e disponibilidades parece intensificar o gosto especial de aventura – que tinha morrido na fase final do casamento – e, curiosamente, contribuir para harmonizar a vida de casal de cada um.

“São situações raras e especiais, mas o facto de serem para o que são, sem outros assuntos a interferir, funciona como um carregar de baterias seguro, com quem se conhece já e sem obrigações à mistura”, elucida Mónica. O seu primeiro casamento resultou de uma paixão iniciada no final da faculdade, quando ambos ainda eram imaturos. Depois os ânimos esfriaram e eles não foram capazes de dar a volta à situação. Com a relação parental e novas histórias de amor “mais maduras”, o cenário em que mantiveram contacto foi-se transformando, ao ponto de hoje se verem como “amigos cúmplices que ocasionalmente fazem amor”, sem pesos na consciência. Adultério? Affair? “Não vemos as coisas assim, até porque nesses casos há uma regularidade que, entre nós, não existe nem tem de existir.”

MORANGOS SEM AÇÚCAR
São amizades com muitas cores, muitos sabores, mas nem sempre isentas de dores. Como se definem?

• Voláteis ou intermitentes
• Sem vínculos afectivos
• Imediatismo (sem as etapas habituais do ver-se, conhecer-se, primeiro beijo, apresentar aos amigos…)
• Sem obrigações (fidelidade, compromisso)
• Clandestinas (na maioria dos casos, embora haja excepções)

A vaga de divórcios que dominou a última década, a par da diminuição do número de casamentos, conduziu sociólogos e antropólogos a questionarem a instituição do matrimónio como valor seguro. Por outro lado, o discurso da sexualidade livre deixou de ser apenas um discurso, entrando paulatinamente nos hábitos dos portugueses, um pouco à semelhança do que sucede noutros países, onde o número de adultos que vivem sozinhos é muito superior ao nosso (segundo o Census, em 2001, existiam mais de 600 mil famílias unipessoais).

Há ainda quem vaticine o fim do mito da monogamia – não faltam livros sobre o assunto – e a tónica desloca-se agora para um fenómeno emergente, que dá pelo nome de amizades coloridas.

O termo nasceu no Brasil e aplica-se para designar relações em que o compromisso fica de fora. “No strings attached”, dizem os americanos. “Sexo com companhia”, dizem os que conhecem por dentro a experiência, mas que ainda não ousam falar disso abertamente ou usando o nome verdadeiro, como os casos anteriores. Afinal, trata-se de uma minoria que nem sequer foi alvo de estudo estatístico ou qualitativo. Porém, revela-se nas conversas de bastidores com pessoas de confiança, que “não vão dar com a língua nos dentes”, por assim dizer.

As regras do jogo são tácitas e nem todos terão perfil para jogá-las. Uma delas é não assumir, à boa maneira do adultério. Talvez por isso sejam mais comuns em faixas etárias superiores aos 30, quando já se tem uma noção de si mais diferenciada, com mais “calo”, e se passou pela turbulência de amores e desamores.

O médico Pedro de Freitas, especializado em Saúde Mental e a terminar um doutoramento em Sexologia Clínica, confirma este fenómeno. Nas consultas de psicoterapia a que se dedica há vários anos, alguns dos pacientes mencionam en passant este tipo de amizades, que funcionam, no entender dos visados, como complemento de uma vida que se quer bem vivida e sem culpas.

“Não posso traçar um perfil, mas consigo afirmar que são mais frequentes em pessoas entre os 35 e os 40 anos, com percursos profissionais bem sucedidos, que já tiveram um ou mais relacionamentos estáveis e não pretendem continuar nesse registo.” Ao clínico, admitem que se sentem confortáveis em amizades, de longa data ou recentes, que por vezes evoluem para “cenas de cama, frescas, discretas e sem segundos pensamentos” (neste caso, de afectos ou compromisso futuro).

O discurso da sexualidade livre deixou de ser apenas um discurso, entrando paulatinamente nos hábitos dos portugueses.
A leitura que o médico faz deste padrão “não formal” é a seguinte: o medo de um novo fracasso leva-os – homens e mulheres – a fugir do envolvimento, mantendo a actividade sexual sem amarras, com pessoas que conhecem bem.

Entre amigos ou entre amantes? Esta última classificação desagrada a quem prefere amizades privilegiadas (ou seja, em que o sexo pode bater à porta). Basta que um dos amigos se envolva emocionalmente e fica tudo confuso. Quando uma das partes começa a querer “sair com” ou a perguntar “Quando é que nos vemos de novo?”, isso pode ser um sinal amarelo para aviso de retirada (se o acordo tácito “ambos não quererem uma relação” for ameaçado). O pior risco é ficar vinculado, cair naquele registo “sexo e afecto” que durante tanto tempo pautou os modelos de saúde mental aplicados aos relacionamentos.

Para quem passa a barreira – é mais frequente acontecer com o sexo feminino, mas também pode acontecer com os homens, quando se deparam com uma mulher emocionalmente distanciada – o final não é feliz: os sentimentos de desvalorização pessoal e de rejeição ganham em toda a linha. Um convívio lúdico que tinha por meta o prazer, a fuga ao tédio ou o não sofrimento, traz mais amargos de boca do que se não tivesse tido lugar à partida. “Infelizmente, este é um tema comum”, defende no seu site a popular sexóloga americana Patti Britton. “Quando se ultrapassa a linha da amizade platónica (recorde-se o par de detectives da série Ficheiros Secretos, e depressa se percebe de que é feita essa amizade, cheia de tensão latente e nunca consumada), a relação que existia muda definitivamente.” Há quem aceite a conversão de amigos para amantes, quem o faça e consiga entretanto abandonar o registo sexual e o romance, em troca da segurança da amizade, e quem nunca mais consiga fazer o caminho de regresso a essa base sólida de bons amigos.

Boa parte da confusão que se gera nestas situações tem alguma ligação com a aprendizagem dos modelos amorosos feita na infância. Para as gerações nascidas nos anos 60, em que ainda vigorava o paradigma da família feliz, tipo “um casal, uma casa, um ou dois filhos, um carro e um animal de estimação”, nem sempre se afigura fácil adoptar uma moral sexual isenta da capa afectiva, viver o sexo sem a chancela protectora (ou sufocante) do amor. Especialmente fora das sociedades anglo-saxónicas e do norte da Europa, onde essa vivência é mais comum.

Sob um prisma menos liberal, poder-se-ia supor que o romantismo já está fora de moda, que as pessoas se usam umas às outras para os mais variados fins, esfera sexual incluída. E, nesse caso, quem ganha e quem fica em desvantagem? “As mulheres”, argumenta João Moreira, que se dedica à investigação na área dos relacionamentos (www.iarr.org).

Baseando-se na teoria evolucionista, que considera os comportamentos humanos à luz da Biologia, o psicólogo advoga que a liberdade sexual beneficia os homens, que no passado tinham vantagens de replicação genética e, inconscientemente, tendem a preferir para parceiras ocasionais jovens (idades entre 18 e 24 anos), como mostram respostas masculinas a inquéritos efectuados em pesquisas internacionais. Esta escolha coincide com a idade em que a probabilidade de uma gravidez bem sucedida é maior. De acordo com a mesma teoria, as mulheres apenas tiram vantagem do sexo ocasional em termos de avaliação de potenciais parceiros a médio prazo ou para benefícios imediatos, como recursos materiais.

LIVRES OU NUMA PRISÃO?
A escolha depende do ponto de vista.

Vantagens
• Liberdade
• Facilidade
• Diversidade
• Prazer sem amarras

Desvantagens
• Risco aumentado de doenças sexualmente transmissíveis
• Dissociação dos afectos
• Insegurança
• Solidão (sobretudo para quem se envolve)

Motivações inconscientes à parte, “as amizades coloridas podem ser um sinal saudável na sociedade actual, para aqueles que não querem envolver-se precocemente ou para quem deseja ter prazer sexual, apesar de não ter alguém à altura de um compromisso”.

Porém, sublinha o reverso da medalha: “Este registo pode traduzir uma forma de evitar uma relação estável, devido a dificuldades em lidar com a intimidade, seja por experiências negativas recentes (divórcio, separação, perda), seja por vivências precoces de vinculação que condicionam um estilo inseguro.”

As mulheres apenas tiram vantagem do sexo ocasional em termos de avaliação de potenciais parceiros a médio prazo.
“Com as minhas amigas? Claro que sim”, responde Vasco, ao telefone. Foi fácil chegar a ele, através dos inúmeros canais de conversa disponíveis nos portais lusitanos. Pontos de encontro de milhares de adolescentes, são também o espaço perfeito para, longe dos olhares curiosos dos familiares, poderem ensaiar tácticas de aproximação ao sexo oposto. Não apenas nos chats, mas também nos anúncios classificados – secção “ele procura ela” ou “ela procura ele” –, faculta-se o número de telemóvel ou o e-mail e cada um diz ao que vem. Bem ao estilo do século XXI, tecnológico: “Sou o António, tenho 19 anos e gostaria de conhecer pessoas interessantes e dispostas a ter amizades coloridas.”

Naturalmente, Vasco mostra-se receptivo ao meu contacto. Após uma breve troca de mensagens escritas – cheias de abreviaturas (“k fazes, donde teclas?”) e smileys –, passamos ao contacto de voz. Um pouco desiludido quando soube ao que eu vinha, lá pediu para mudar o nome – como manda a etiqueta – e foi dizendo que era normal “dar uma volta com” amigas (por vezes, suas colegas de faculdade), sem ter de “andar com elas”. Porquê? Para experimentar? “É algo que fazemos, só isso.”

Mesmo que um grande número de contactos on-line não passem disso mesmo, muitos funcionam como porta de acesso a aventuras descomprometidas, “sem as chatices do namoro certinho, que ainda é cedo para isso”.

E elas, serão assim tão disponíveis? Se sim, pelo menos não o demonstram e parecem ser em menor número. Adeus cartas de amor escritas em papel perfumado, agora o que conta são as mensagens escritas, as fotos enviadas pela Net ou por telemóvel e as sugestões em aberto que, noutros tempos, só seriam possíveis com aliança no dedo. Mas os relacionamentos parecem fechar uma série de possibilidades, o que está fora de questão para muitos estudantes que põem em primeiro lugar a carreira promissora e, em segundo, eventuais vínculos afectivos. Mesmo quando ainda estão no Secundário, entretêm-se nestes envolvimentos sem se envolver, mais a “curtir” que a namorar.

Esta questão vai ser pesquisada pela investigadora brasileira Marisalva Fávero, que conta com o apoio do Instituto Superior da Maia. A ideia consiste em estudar os comportamentos sexuais numa amostra de adolescentes entre os 12 e os 17 anos, com destaque para a prática do “curtir”, e simultaneamente analisar uma população dos 18 aos 30 anos (o “curtir” ao longo do tempo), bem como as atitudes dos pais e professores face ao tema.

“Estes encontros fugazes, casuais e esporádicos, sem fidelidade nem ‘chatices’ – como eles dizem – representam uma nova forma de relação, provisória e típica dos tempos de rapidez em que se vive.” Para Marisalva, o fim da certeza de ter um emprego fixo é aplicável ao universo das relações interpessoais. Se o impacto dessas mudanças é positivo ou negativo, a investigação que vai iniciar há-de dizer. Para já, um dossier publicado no New York Times, a 30 de Maio deste ano, mostra que os conceitos de namorar ou “andar com” (“dating”) e dar uma volta ou “curtir” (“hooking up”) viram o seu significado radicalmente alterado nos últimos anos. Assim, um encontro formal pode resumir-se a uma deslocação até ao centro comercial com um parceiro e alguns amigos. O primeiro passo é quase sempre feito on-line e só depois decidem se querem encontrar-se na vida real, de preferência sendo de outra escola ou localidade, para não dar nas vistas. O artigo refere os “amigos com benefícios” como sendo aqueles com quem “se curte”.

Estarão os rapazes dispostos a precipitar-se numa relação fixa? Mais uma vez, os testemunhos sugerem que elas tendem a perder bastante com este “começar pelo fim” – entre eles, o de Michael Milburn, co-autor do livro Inteligência Sexual, para quem estas amizades coloridas servem sobretudo o prazer dos rapazes. Ou o testemunho da socióloga Marline Pearson, certa de que nos anos 60 as raparigas tinham mais poder, comparativamente ao cenário actual, porque a primeira linha de acção era o beijo. Depois seriam as carícias no corpo e toda uma sucessão de etapas até à relação sexual.

Agora que os códigos se alteraram – sem esquecer o aumento das doenças sexualmente transmissíveis –, a questão está a agitar a opinião pública, nomeadamente os pais dos adolescentes.

O fenómeno alarga-se ao Japão, onde os “amigos sexuais” foram alvo de uma pesquisa conjunta entre as universidades da Califórnia e de Hiroshima: numa amostra de 602 adolescentes entre os 15 e os 19 anos, 43 por cento respondeu que tinha cinco ou mais amizades coloridas ao mesmo tempo.

A poesia dos encontros íntimos tem uma linguagem nova que vai atravessando gerações, numa sociedade que se transformou, como revela o mais recente projecto da universidade americana de Chicago, num imenso supermercado sexual, que desincentiva o matrimónio e a monogamia. Mais uma vez, com vantagem para os homens (elas são em número superior, tornando a oferta maior), em especial para os que têm um estatuto socioeconómico e profissional superior à média (na amostra, constituída por milhares de entrevistados, 40 por cento afirmava manter relações com pelo menos duas parceiras ao mesmo tempo; quanto mais elevado o estatuto, maior a probabilidade de ter parceiras múltiplas).

Perante os factos, apenas uma pergunta: teremos chegado ao fim da inocência?



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