Sou uma mulher que nasceu num corpo masculino.”
Assim se consubstancia a história de Lara Crespo, de
30 anos, jornalista e Webdesigner, o Zé para a família,
uma pessoa que, por enquanto, ainda parece um pouco de homem
e quase mulher.
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Jó Bernardo,
uma referência na vida destas mulheres |
“Ser mulher é algo de natural
em mim. Trata-se de uma especial maneira de olhar o mundo. Nós,
mulheres, temos um universo próprio. Não tenho
uma vagina e uma vulva, mas é exactamente como se tivesse.”
Eis a forma como um transexual feminino fala de si e da sua
sexualidade.
De todas as variantes da sexualidade humana, escreve Cristiane
Segatto, autora de um texto sobre transexualidade publicado
na revista brasileira Época, “nenhuma é
tão incompreendida quanto o transexualismo, a bizarra
experiência de nascer com cromossomas, genitais e hormonas
de um sexo, mas ter a convicção íntima
de pertencer ao género oposto. Enquanto gays, lésbicas
e travestis assumem os órgãos genitais que têm,
os transexuais repudiam o que a natureza lhes legou”.
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Lara Crespo
numa pose bem feminina.
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“A aventura da sexualidade
humana não obedece a parâmetros pré-estabelecidos.
Encontramos um mundo onde todas as hipóteses de relação
são possíveis”, sublinha Nuno Nodin, psicólogo
e investigador.
Não foi com qualquer sentimento de dúvida que
abordei as minhas entrevistadas. Os primeiros acordes de comunicação
foram ensaiados com a Lara. E não foi nada difícil.
Lara fala como uma mulher, tem tiques que nós, mulheres,
infelizmente, dizem os homens, vamos perdendo, nomeadamente
o cuidado com o corpo, senta-se e gesticula como só
as mulheres sabem fazer, e assim remete--nos com naturalidade
para o género social que é o nosso: mulher.
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Jó Bernardo
maquilha, nesta página Lara Crespo. |
A voz de Lara ainda é gorda, mas
desfaz-se nos encantos de tons suaves, educados, cultos. Enquanto
conversámos, só falhei duas vezes na aplicação
correcta dos pronomes: disse “eles”, embora estivesse
a pensar em duas mu-lheres, e apenas criei uma situação
ambígua que surgiu quando Lara, aqui na Máxima,
me pediu para ir à casa de ba-nho. “Peço-lhe
desculpa”, disse, “mas qual delas frequenta habitualmente?”
Lara ultrapassou elegantemente
a questão e, com a classe própria de uma senhora,
respondeu: “Claro que vou à casa de banho das
mulheres...” Acompanhei Lara. Também eu precisava
daquele momento. Só que a minha imaginação
estava solta e pouco serena. E pensava... como se sente Lara
sempre que tem de ir à casa de banho? Uma vez mais,
falámos sobre o assunto sem rodeios. Lara desarma os
preconceitos que inundam a minha cabeça e responde:
“Não sinto os meus genitais. É como se
não os tivesse.” Que drama, pensei. Na rua, as
pessoas olham e perguntam: é homem ou mulher? Isto
na melhor das hipóteses, diz Lara, porque, na pior,
o público em geral tende a infernizar-lhes ainda mais
a vida, chamando-as de “bichas”, “travecas”,
“maricas”.
Com a Jó Bernardo, de 40 anos, livreira, a conversa
foi menos tensa, mais informal. Estávamos mais soltas
e o facto de o nosso encontro ter tido lugar na sua livraria,
rodeadas de literatura gay e lésbica, transexual e
transgénera por todos os lados, contextualizava me-lhor
a intenção de tornar esta matéria assunto
de todas as idades, de todos os sexos, de todas as raças
e religiões.
Socialmente, basta de hipocrisia, clamaram as minhas entrevistadas.
Jó foi mais longe e contou-nos que durante os 20 anos
em que se prostituiu, os homens bissexuais eram a maioria
dos seus clientes, procurando desmesuradamente sexo oral.
Mas havia outros, muito sós, contou-nos ainda, que
investiam neste mercado acalentando apenas o secreto desejo
de fazer sexo com um pénis e carícias com uma
mulher. Sabe que “os homens gostam de sexo oral feito
por outros homens?”, perguntou-nos.
Jó, Jorge na outra “encarnação”,
é uma referência absolutamente incontornável
na sociedade destas mulheres. Solidária, atenta, Jó
sabe ouvir as fantasias femininas e actuar sobre o delírio
trémulo das amigas que automedicamentam as hormonas,
que perseguem sem medo as coisas típicas de mulheres,
como o peito, as ancas acentuadas, os saltos altos, as cabeleiras
fartas, os pós-de-arroz e, claro, os bâtons e
as unhas encarnadas.
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Salomé
Gomes Amaro tem o sonho de ser mulher.
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“A coisa pior que podem dizer
a meu respeito é que sou um homem vestido de mulher”,
afirma. Não sei o que dizem de Jó. Mas, o que
pensam, creio poder imaginar. Quando almoçámos
juntas num restaurante em Lisboa, senti o formigueiro que se
gerou à nossa volta, os comentários mudos, típicos
dos autistas sociais, a reacção das mulheres que
não gostam de ver nas outras o jeito de ser excessivamente
feminino e os homens que não suportam saber que existem
pessoas, no seu entender homens, que admitem abdicar dos seus
genitais em nome de uma certeza: a de serem mulheres.
Jó foi a mulher clandestina que na resistência
da vida lutou pelos direitos dos transexuais femininos portugueses.
Parece que a comunidade lhe tem um respeito infinito...
Lara Crespo não personifica o padrão--tipo dos
transexuais portugueses femininos. Para além de um emprego
socialmente digno, webdesigner num prestigiado jornal português,
ainda goza do sossego de uma família normal, do alento
dos amigos, do apoio psicológico e médico do Serviço
Nacional de Saúde e do amor indestrutível da irmã
com quem partilha ao pormenor a sua vida privada.
“Nunca falei com o meu pai, mas expliquei à minha
mãe o que se passava comigo, embora este assunto seja
tabu em minha casa”, contou-nos a jornalista, num jeito
triste de ser.
“Eu nunca fui um homem, não sei o que é
que um homem sente”, diz Lara. E sem equívocos,
sem qualquer dúvida nem ponta de hesitação,
acrescenta: “Eu sempre fui uma mulher e vivo como qualquer
mulher.” Não conheci Lara senão como mulher.
À minha frente, sempre esteve uma senhora. Aliás,
esta conversa não teria sido possível se os seus
protagonistas não fossem apenas mulheres. Soubemos, por
isso, falar de nós. De como nós, mulheres, gostamos
de ser tocadas, amadas, desejadas. De como o feminino triunfa,
mesmo com um corpo a dificultar-lhe o caminho.
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Jó Bernardo
mostra toda a sua feminilidade. |
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“Quando faço amor, o
meu companheiro ignora a minha genitália.
É fácil. Eu sou uma mulher, porto-me na relação
em função do feminino e sinto-me assim”,
contou Lara. “Só comecei a ter orgasmos quando
assumi a minha feminilidade, isto é, quando deixei
transparecer a minha verdadeira sensibilidade.”
Das nossas entrevistadas, a única que se quer submeter
a uma cirurgia de mudança de sexo é a Salomé.
O seu nome consta da lista de espera do corredor da esperança.
Salomé espera obstinadamente. “Eu tenho um sonho”,
gritou--nos, num silêncio desmedido. “Eu quero
ser mulher”, disse-me várias vezes.
As transexuais têm uma teimosia própria do seu
género. É esta particularidade que nos deixa
desarmados. Mas Salomé, a par da mulher que mostra
ser, um dia foi pai de duas crianças, que jura amar,
com quem ainda hoje vive e presta alimentos. “O mais
velho, de 18 anos, chama-me pai. Mas o mais novo, que fez
agora 14, chama-me de mãe.” Salomé encanta-se
com os seus filhos. Da mala, um saco grande preto, tira as
fotografias expostas pela evidência do papel que ocupam.
Não é bem uma carteira, mas é alguma
coisa onde guarda os documentos e o dinheiro.
Associação
de transexuais portugueses
AT é a abreviatura da única
associação de transexuais portugueses.
Em rigor, chama-se Associação para o Estudo
e Defesa do Direito à Identidade do Género
e tem como objectivo fundamental o apoio e o encaminhamento
de todos os transgéneros portugueses que, segundo
Jó Bernardo, a sua fundadora, rondam os 500 associados
em todo o país.
“Viemos colmatar uma lacuna. Estamos ao dispor
de todos os que nos procuram”, garantiu a presidente
da Associação.
Para mais informações: AT, Travessa do
Monte do Carmo, 1, 1200-276 Lisboa, tel. 21 324 03 46. |
Salomé já foi Fernando.
No Bilhete de Identidade, assina este nome ao lado de uma fotografia
onde a maquilhagem afirma sem despudor que é mulher e
os cabelos teimam em obrigar-nos a nunca confundi-la. Mostra-nos
o BI como consolação, mas sabe que, mesmo sendo
operada, isto é, adquirindo plenamente a cidadania da
transexual feminina, transformado que foi o pénis numa
vagina reconstruída, nunca deixará de ser Fernando
porque os seus filhos têm um pai.
Esta é a história de uma vida dura, violenta,
amassada por dias muito tristes. Salomé já foi
maltratada pelos colegas, o patrão retirou-lhe os prémios
a que tinha direito, a família e os amigos abandonaram-na,
mas não desiste.
Salomé é servente. Há duas décadas
que trabalha nesta gráfica. Os colegas homens tiveram
a tentação de apalpá-la, mas as mulheres
gostam de partilhar consigo a lancheira do almoço. Dada
a sua função, Salomé entra mulher, mas
está no seu local de trabalho como um homem. Quando a
sirene toca, veste-se de novo como o seu género determina,
maquilha-se, repõe os seus gestos e caminha em direcção
à lida da casa. Só que Salomé não
se queixa de ser mulher.
| Cirurgia
da genitália feminina
1. O
pénis é esvaziado, mas a pele e os nervos
do órgão são preservados. Ele é
introduzido na abertura feita no períneo
2.
O tecido do pénis serve de revestimento para
a nova vagina.
A glande, muito sensível, fica no fundo do canal
e imita o colo do útero
3. Os
testículos são extraídos. Com a
pele, o cirurgião constrói os lábios
vaginais. O aspecto final é muito semelhante
à genitália feminina |
Jó Bernardo mostrou-me uma
fotografia tirada com o irmão, ainda os dois
eram rapazes. Já nessa altura, a pose de Jó contrastava
com a masculinidade do irmão. Estava mais penteada, cuidada...
e mesmo as pernas estavam arrumadas como manda o protocolo feminino:
juntas uma à outra. Jó gosta desta maneira de
ser. Prende o cabelo como as tias fazem quando passeiam à
beira-mar, usa uma blusa de alças bem justa ao corpo,
calça umas sandálias de tiras com um pouco de
salto (cá está o género feminino a mostrar
a sua raça) e mostra as curvas do corpo numas calças
que adornam as ancas.
Lara está ainda a transformar-se. “No meu caso,
quero apenas moldar-me um pouco mais, no fundo desejo olhar-me
ao espelho e sentir-me bem com o que vejo.”
Marcos
da história do transexualismo
1931- O Instituto Hirschfeld de Ciência
Sexual, em Viena, apresenta a primeira cirurgia de mudança
de sexo. Consistiu em retirar o pénis e criar uma
vagina.
1952 - Aos 26 anos,
o ex-soldado George Jorgensen Jr. torna-se o primeiro
americano a passar pela cirurgia e torna-se uma
celebridade. Adoptou o nome de Christine.
1962 - A Universidade
da Califórnia, em Los Angeles, começou
a aplicar
técnicas de comportamento para ensinar meninos
e meninas transexuais a conformar-se com os genitais.
1969 - O brasileiro
Airton Galiaci é o primeiro latino-americano
a ser operado. A cirurgia realiza-se em Marrocos.
1984 - Roberta Close
torna-se
a primeira transexual a posar nua para uma revista masculina
no Brasil.
2001 - A transexual
espanhola Angela Fernandez, de 28 anos, casa-se
oficialmente com Angel Romera, de 22. |
Lara contou-nos que todos os dias se encontrava
com um monstro. “Eu via--me como um monstro. Só
olhava para o espelho quando era obrigada, de manhã,
porque evitava até ao limite olhar-me.” Agora a
sua vida mudou bastante. Usa brincos, anéis, deixou crescer
o cabelo e polvilha-se dos encantos dermoestéticos.
Assim se faz uma mulher. “Eu não me transformei
no dia em que percebi que era uma mulher”, disse-nos Lara.
“As coisas foram acontecendo. Agora quero cuidar mais
de mim, da minha pele. E quero sobretudo fazer o tratamento
hormonal”, acrescentou ainda.
Nuno Nodin fez uma intervenção no 6.º Congresso
da Federação de Sexologia, em Chipre, sob o título
A Identidade Sexual Não Existe, em que explicou que a
sexualidade, para além de complexa, não permite
que as suas múltiplas manifestações possam
ser tratadas em pé de igualdade. Assim, diz-nos, identidade
de género, onde se incluem os transexuais, não
é o mesmo que falar de preferência sexual ou de
orientação sexual. Os transexuais podem ter várias
orientações sexuais, adverte Nuno Nodin. Podem
ser hetero, homo ou mesmo bissexuais.
Jó tem um relacionamento
amoroso há oito anos. Com um homem ou com
uma mulher? Com um homem, disse. E esse homem é homo
ou heterossexual? “Acho que heterossexual”, respondeu.
Então, perguntámos, o seu companheiro faz amor
com quem? Com um homem ou com uma mulher? “Comigo”,
respondeu Jó.
“Nós sofremos”, disse-nos Lara.”
As guerras que se travam dentro de nós e aquelas que
os outros nos obrigam a gerir tornam muitas vezes o nosso
dia-a-dia infernal. Mas é assim que somos felizes”,
contou-nos ainda. “E somos felizes porque somos mulheres.”
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