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EM DESTAQUE

por Ana Paula Lemos
fotografias de Clara Azevedor
ilustração de José Luís Moreira

Sou uma mulher que nasceu num corpo masculino.” Assim se consubstancia a história de Lara Crespo, de 30 anos, jornalista e Webdesigner, o Zé para a família, uma pessoa que, por enquanto, ainda parece um pouco de homem e quase mulher.

Jó Bernardo, uma referência na vida destas mulheres
“Ser mulher é algo de natural em mim. Trata-se de uma especial maneira de olhar o mundo. Nós, mulheres, temos um universo próprio. Não tenho uma vagina e uma vulva, mas é exactamente como se tivesse.” Eis a forma como um transexual feminino fala de si e da sua sexualidade.

De todas as variantes da sexualidade humana, escreve Cristiane Segatto, autora de um texto sobre transexualidade publicado na revista brasileira Época, “nenhuma é tão incompreendida quanto o transexualismo, a bizarra experiência de nascer com cromossomas, genitais e hormonas de um sexo, mas ter a convicção íntima de pertencer ao género oposto. Enquanto gays, lésbicas e travestis assumem os órgãos genitais que têm, os transexuais repudiam o que a natureza lhes legou”.
Lara Crespo numa pose bem feminina.

“A aventura da sexualidade humana não obedece a parâmetros pré-estabelecidos. Encontramos um mundo onde todas as hipóteses de relação são possíveis”, sublinha Nuno Nodin, psicólogo e investigador.

Não foi com qualquer sentimento de dúvida que abordei as minhas entrevistadas. Os primeiros acordes de comunicação foram ensaiados com a Lara. E não foi nada difícil. Lara fala como uma mulher, tem tiques que nós, mulheres, infelizmente, dizem os homens, vamos perdendo, nomeadamente o cuidado com o corpo, senta-se e gesticula como só as mulheres sabem fazer, e assim remete--nos com naturalidade para o género social que é o nosso: mulher.

Jó Bernardo maquilha, nesta página Lara Crespo.
A voz de Lara ainda é gorda, mas desfaz-se nos encantos de tons suaves, educados, cultos. Enquanto conversámos, só falhei duas vezes na aplicação correcta dos pronomes: disse “eles”, embora estivesse a pensar em duas mu-lheres, e apenas criei uma situação ambígua que surgiu quando Lara, aqui na Máxima, me pediu para ir à casa de ba-nho. “Peço-lhe desculpa”, disse, “mas qual delas frequenta habitualmente?”

Lara ultrapassou elegantemente a questão e, com a classe própria de uma senhora, respondeu: “Claro que vou à casa de banho das mulheres...” Acompanhei Lara. Também eu precisava daquele momento. Só que a minha imaginação estava solta e pouco serena. E pensava... como se sente Lara sempre que tem de ir à casa de banho? Uma vez mais, falámos sobre o assunto sem rodeios. Lara desarma os preconceitos que inundam a minha cabeça e responde: “Não sinto os meus genitais. É como se não os tivesse.” Que drama, pensei. Na rua, as pessoas olham e perguntam: é homem ou mulher? Isto na melhor das hipóteses, diz Lara, porque, na pior, o público em geral tende a infernizar-lhes ainda mais a vida, chamando-as de “bichas”, “travecas”, “maricas”.

Com a Jó Bernardo, de 40 anos, livreira, a conversa foi menos tensa, mais informal. Estávamos mais soltas e o facto de o nosso encontro ter tido lugar na sua livraria, rodeadas de literatura gay e lésbica, transexual e transgénera por todos os lados, contextualizava me-lhor a intenção de tornar esta matéria assunto de todas as idades, de todos os sexos, de todas as raças e religiões.

Socialmente, basta de hipocrisia, clamaram as minhas entrevistadas. Jó foi mais longe e contou-nos que durante os 20 anos em que se prostituiu, os homens bissexuais eram a maioria dos seus clientes, procurando desmesuradamente sexo oral. Mas havia outros, muito sós, contou-nos ainda, que investiam neste mercado acalentando apenas o secreto desejo de fazer sexo com um pénis e carícias com uma mulher. Sabe que “os homens gostam de sexo oral feito por outros homens?”, perguntou-nos.

Jó, Jorge na outra “encarnação”, é uma referência absolutamente incontornável na sociedade destas mulheres. Solidária, atenta, Jó sabe ouvir as fantasias femininas e actuar sobre o delírio trémulo das amigas que automedicamentam as hormonas, que perseguem sem medo as coisas típicas de mulheres, como o peito, as ancas acentuadas, os saltos altos, as cabeleiras fartas, os pós-de-arroz e, claro, os bâtons e as unhas encarnadas.

Salomé Gomes Amaro tem o sonho de ser mulher.
“A coisa pior que podem dizer a meu respeito é que sou um homem vestido de mulher”, afirma. Não sei o que dizem de Jó. Mas, o que pensam, creio poder imaginar. Quando almoçámos juntas num restaurante em Lisboa, senti o formigueiro que se gerou à nossa volta, os comentários mudos, típicos dos autistas sociais, a reacção das mulheres que não gostam de ver nas outras o jeito de ser excessivamente feminino e os homens que não suportam saber que existem pessoas, no seu entender homens, que admitem abdicar dos seus genitais em nome de uma certeza: a de serem mulheres.

Jó foi a mulher clandestina que na resistência da vida lutou pelos direitos dos transexuais femininos portugueses. Parece que a comunidade lhe tem um respeito infinito...

Lara Crespo não personifica o padrão--tipo dos transexuais portugueses femininos. Para além de um emprego socialmente digno, webdesigner num prestigiado jornal português, ainda goza do sossego de uma família normal, do alento dos amigos, do apoio psicológico e médico do Serviço Nacional de Saúde e do amor indestrutível da irmã com quem partilha ao pormenor a sua vida privada.

“Nunca falei com o meu pai, mas expliquei à minha mãe o que se passava comigo, embora este assunto seja tabu em minha casa”, contou-nos a jornalista, num jeito triste de ser.

“Eu nunca fui um homem, não sei o que é que um homem sente”, diz Lara. E sem equívocos, sem qualquer dúvida nem ponta de hesitação, acrescenta: “Eu sempre fui uma mulher e vivo como qualquer mulher.” Não conheci Lara senão como mulher. À minha frente, sempre esteve uma senhora. Aliás, esta conversa não teria sido possível se os seus protagonistas não fossem apenas mulheres. Soubemos, por isso, falar de nós. De como nós, mulheres, gostamos de ser tocadas, amadas, desejadas. De como o feminino triunfa, mesmo com um corpo a dificultar-lhe o caminho.

Jó Bernardo mostra toda a sua feminilidade.

“Quando faço amor, o meu companheiro ignora a minha genitália. É fácil. Eu sou uma mulher, porto-me na relação em função do feminino e sinto-me assim”, contou Lara. “Só comecei a ter orgasmos quando assumi a minha feminilidade, isto é, quando deixei transparecer a minha verdadeira sensibilidade.”

Das nossas entrevistadas, a única que se quer submeter a uma cirurgia de mudança de sexo é a Salomé. O seu nome consta da lista de espera do corredor da esperança. Salomé espera obstinadamente. “Eu tenho um sonho”, gritou--nos, num silêncio desmedido. “Eu quero ser mulher”, disse-me várias vezes.

As transexuais têm uma teimosia própria do seu género. É esta particularidade que nos deixa desarmados. Mas Salomé, a par da mulher que mostra ser, um dia foi pai de duas crianças, que jura amar, com quem ainda hoje vive e presta alimentos. “O mais velho, de 18 anos, chama-me pai. Mas o mais novo, que fez agora 14, chama-me de mãe.” Salomé encanta-se com os seus filhos. Da mala, um saco grande preto, tira as fotografias expostas pela evidência do papel que ocupam. Não é bem uma carteira, mas é alguma coisa onde guarda os documentos e o dinheiro.

Associação de transexuais portugueses

AT é a abreviatura da única associação de transexuais portugueses. Em rigor, chama-se Associação para o Estudo e Defesa do Direito à Identidade do Género e tem como objectivo fundamental o apoio e o encaminhamento de todos os transgéneros portugueses que, segundo Jó Bernardo, a sua fundadora, rondam os 500 associados em todo o país.

“Viemos colmatar uma lacuna. Estamos ao dispor de todos os que nos procuram”, garantiu a presidente da Associação.

Para mais informações: AT, Travessa do Monte do Carmo, 1, 1200-276 Lisboa, tel. 21 324 03 46.

Salomé já foi Fernando. No Bilhete de Identidade, assina este nome ao lado de uma fotografia onde a maquilhagem afirma sem despudor que é mulher e os cabelos teimam em obrigar-nos a nunca confundi-la. Mostra-nos o BI como consolação, mas sabe que, mesmo sendo operada, isto é, adquirindo plenamente a cidadania da transexual feminina, transformado que foi o pénis numa vagina reconstruída, nunca deixará de ser Fernando porque os seus filhos têm um pai.

Esta é a história de uma vida dura, violenta, amassada por dias muito tristes. Salomé já foi maltratada pelos colegas, o patrão retirou-lhe os prémios a que tinha direito, a família e os amigos abandonaram-na, mas não desiste.

Salomé é servente. Há duas décadas que trabalha nesta gráfica. Os colegas homens tiveram a tentação de apalpá-la, mas as mulheres gostam de partilhar consigo a lancheira do almoço. Dada a sua função, Salomé entra mulher, mas está no seu local de trabalho como um homem. Quando a sirene toca, veste-se de novo como o seu género determina, maquilha-se, repõe os seus gestos e caminha em direcção à lida da casa. Só que Salomé não se queixa de ser mulher.


Cirurgia da genitália feminina

1. O pénis é esvaziado, mas a pele e os nervos do órgão são preservados. Ele é introduzido na abertura feita no períneo

2. O tecido do pénis serve de revestimento para a nova vagina.
A glande, muito sensível, fica no fundo do canal e imita o colo do útero

3. Os testículos são extraídos. Com a pele, o cirurgião constrói os lábios vaginais. O aspecto final é muito semelhante à genitália feminina

Jó Bernardo mostrou-me uma fotografia tirada com o irmão, ainda os dois eram rapazes. Já nessa altura, a pose de Jó contrastava com a masculinidade do irmão. Estava mais penteada, cuidada... e mesmo as pernas estavam arrumadas como manda o protocolo feminino: juntas uma à outra. Jó gosta desta maneira de ser. Prende o cabelo como as tias fazem quando passeiam à beira-mar, usa uma blusa de alças bem justa ao corpo, calça umas sandálias de tiras com um pouco de salto (cá está o género feminino a mostrar a sua raça) e mostra as curvas do corpo numas calças que adornam as ancas.

Lara está ainda a transformar-se. “No meu caso, quero apenas moldar-me um pouco mais, no fundo desejo olhar-me ao espelho e sentir-me bem com o que vejo.”

Marcos da história do transexualismo

1931- O Instituto Hirschfeld de Ciência Sexual, em Viena, apresenta a primeira cirurgia de mudança de sexo. Consistiu em retirar o pénis e criar uma vagina.

1952 - Aos 26 anos, o ex-soldado George Jorgensen Jr. torna-se o primeiro americano a passar pela cirurgia e torna-se uma
celebridade. Adoptou o nome de Christine.

1962 - A Universidade da Califórnia, em Los Angeles, começou a aplicar
técnicas de comportamento para ensinar meninos e meninas transexuais a conformar-se com os genitais.

1969 - O brasileiro Airton Galiaci é o primeiro latino-americano a ser operado. A cirurgia realiza-se em Marrocos.

1984 - Roberta Close torna-se
a primeira transexual a posar nua para uma revista masculina no Brasil.

2001 - A transexual espanhola Angela Fernandez, de 28 anos, casa-se
oficialmente com Angel Romera, de 22.

Lara contou-nos que todos os dias se encontrava com um monstro. “Eu via--me como um monstro. Só olhava para o espelho quando era obrigada, de manhã, porque evitava até ao limite olhar-me.” Agora a sua vida mudou bastante. Usa brincos, anéis, deixou crescer o cabelo e polvilha-se dos encantos dermoestéticos.

Assim se faz uma mulher. “Eu não me transformei no dia em que percebi que era uma mulher”, disse-nos Lara. “As coisas foram acontecendo. Agora quero cuidar mais de mim, da minha pele. E quero sobretudo fazer o tratamento hormonal”, acrescentou ainda.

Nuno Nodin fez uma intervenção no 6.º Congresso da Federação de Sexologia, em Chipre, sob o título A Identidade Sexual Não Existe, em que explicou que a sexualidade, para além de complexa, não permite que as suas múltiplas manifestações possam ser tratadas em pé de igualdade. Assim, diz-nos, identidade de género, onde se incluem os transexuais, não é o mesmo que falar de preferência sexual ou de orientação sexual. Os transexuais podem ter várias orientações sexuais, adverte Nuno Nodin. Podem ser hetero, homo ou mesmo bissexuais.

Jó tem um relacionamento amoroso há oito anos. Com um homem ou com uma mulher? Com um homem, disse. E esse homem é homo ou heterossexual? “Acho que heterossexual”, respondeu. Então, perguntámos, o seu companheiro faz amor com quem? Com um homem ou com uma mulher? “Comigo”, respondeu Jó.

“Nós sofremos”, disse-nos Lara.” As guerras que se travam dentro de nós e aquelas que os outros nos obrigam a gerir tornam muitas vezes o nosso dia-a-dia infernal. Mas é assim que somos felizes”, contou-nos ainda. “E somos felizes porque somos mulheres.”

 



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