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DOSSIER
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por ANA PAULA LEMOS
ilustrações de JÚLIO VANZELER
Ambiciosas? Nós, mulheres?
Claro que sim. E porque não? As palavras, como
as pessoas, têm a sua história. Existem palavras,
no entanto, a que as pessoas retiraram, a dado passo da
história, o seu verdadeiro sentido. A ambição
é uma dessas palavras, também ela vítima
do riso e do esquecimento de uma sociedade, mentalmente
construída sobre modelos e padrões de sucesso,
profundamente masculinizados, da qual excluíram
as mulheres como sujeitos de desejo.
Ela está pois envolta num profundo equívoco,
que não a deixa ter na vida das mulheres e dos
homens o seu verdadeiro papel, que é tão
só a valorização do desejo no desenvolvimento
da pessoa humana. Claro que o facto de a termos hipotecado
unicamente às nossas aspirações materiais
tornou-a tão vã quanto o vil metal. Mas,
como sabemos, sem ambição nem um monge consegue
abraçar um caminho de perfeição.
“Algumas escolas ensinam aos nossos filhos que a
ética é ajudar os outros. Isso, porém,
não é ética, é ambição.
Ajudar os outros deveria ser um objectivo de vida, a ambição
de todos, ou pelo menos da maioria”, escreveu Stephen
Kanitz, professor na Universidade de Harvard. O problema
do mundo, afirma ainda este investigador, “é
que normalmente decidimos a nossa ambição
antes da nossa ética, quando o certo seria o contrário”.
E porquê?, pergunta Stephen Kanitz. “Porque
dependendo da ambição, torna-se difícil
impor uma ética que frustrará os nossos
objectivos. Quando percebemos que não conseguiremos
alcançar os nossos objectivos, a tendência
é reduzir o rigor ético, e não reduzir
a ambição.”
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Empreender
Não existe liderança sem ambição.
Mas ambição sem talento também
não nos leva muito longe. O ideal, dizem os
especialistas, é sermos empreendedores porque
o verbo empreender sintetiza os conteúdos mais
importantes para definir a ambição.
• Nos
Estados Unidos, na década de 80, o número
de empreendedoras era de oito milhões, representando
30 por cento dos negócios daquele país
• Em Singapura,
nos últimos 20 anos, a percentagem destas mulheres
líder foi de 80 por cento. E segundo consultores
americanos, especialistas em Recursos Humanos (Allen
& Truman), por cada três empresas criadas
na Alemanha e na Dinamarca, uma foi empreendida por
mulheres •
Em França, os números apurados
registam uma empresa lançada por uma mulher
em cada quatro. E em países como a Grécia,
Espanha, Itália, Irlanda, Reino Unido e Escandinávia,
só uma empresa em cada cinco foi criada por
mulheres
A importância destes números e o completo
significado deste enunciado reside apenas na magia
desta palavra: ambição. |
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A mulher
líder
Muitos estudos sobre mulheres empreendedoras, realizados
na década de 80, foram pautados pela tentativa
de definir um perfil psicológico ou comportamental
das mulheres. 1.No
Journal of Small Business Management, Neider, um
estudioso da ambição e da liderança,
para quem uma e outra pertencem ao mesmo universo
relacional, apontou como características
da personalidade destas mulheres o facto de serem
activas, persistentes e sobretudo muito inclinadas
a influenciar os outros
2.No
que se refere a valores, as pesquisas feitas pelo
cientista G.T. Solomon apresentam a responsabilidade,
a independência, a honestidade, a ambição,
a liberdade, o auto-respeito, a saúde e a
segurança familiar como os grandes elementos
informadores das mulheres empreendedoras
3.Estudos
recentes afirmam ainda que as mulheres líder
tendem mais do que os homens a utilizar o comportamento
transformacional que se caracteriza por articular
a visão da sua empresa de forma partilhada
com os seus subordinados e de manifestar claramente
a preferência pela eficácia, em detrimento
da eficiência |
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Até
à segunda metade do século XX,
ainda uma imensa maioria de mulheres, cidadãs do
mundo ocidental, so-nhava ambicionar sem culpa. O que
é que isto quer dizer? Imaginemos que tinha sido
nomeada administradora geral de uma empresa. Como reagiria
o seu marido? Quem suportaria a logística das crianças?
Quais seriam os níveis de culpa provocados pelas
ausências? Isto para não falarmos da pressão
social traduzida pelos seus agentes, desde o infantário
até aos amigos, pais e irmãos que, no silêncio
falacioso dos seus olhares reprovadores, a conduziriam
a níveis de culpa absolutamente insuportáveis.
É aqui que entra nas nossas vidas o divã
do psicanalista.
Ora a ambição é uma palavra tão
legítima quanto pacífica, tão necessária
quanto determinante, tão imprescindível
quanto impulsionadora da realização plena
da nossa condição de seres humanos, disse-nos
Paulo Sargento, professor universitário, especialista
neste tema e subdirector do departamento de Psicologia
da Universidade Lusófona.
Basta, por isso, de lhe imputarmos defeitos congénitos,
reprovações morais, legitimidades sexuais,
espartanos enquadramentos. A ambição, reclama
Paulo Sargento, é uma palavra tão humana
quanto o amor. Vamos assim aceitá-la nas nossas
vidas como produto natural e exclusivo da condição
de sermos pessoas.
Está demonstrado pela Psicologia que os homens
e as mulheres não apreendem do mesmo modo os conteúdos
da ambição, até porque os géneros
masculino e feminino são construções
sociais assentes em heranças culturais distintas.
O psicólogo Paulo Sargento, para nos elucidar acerca
desta contradição, contou-nos que uma investigadora
do departamento de Psicologia da Universidade Lusófona
criou um jogo e pôs rapazes e raparigas a jogá-lo
em alturas e situações diferentes. A primeira
conclusão a que chegou foi que os rapazes, apesar
de fazerem batota uns com os outros, de se insultarem
e maltratarem, nunca qui-seram parar de jogar. As raparigas,
pelo contrário, à mais pequena situação
de conflito, pararam de jogar. E das duas, uma: ou partiram
para outro jogo ou pura e simplesmente desistiram de jogar.
A conclusão é simples, explica-nos o professor:
as mulheres, ou melhor, as pessoas do sexo feminino, para
preservar o mundo dos afectos e das relações,
evitam a ruptura em qualquer situação. Para
as mulheres, a preservação da relação
está em primeiro lugar e esta, obviamente, não
deve em circunstância alguma ser afectada.
Estas diferenças correspondem assim a mecanismos
neuropsicológicos formulados sobretudo pelos antagonismos
sexuais que nos caracterizam. Para a Psicologia, é
justamente esta dicotomia que lança a base da construção
social, embora a herança social e cultural determine
o futuro da História.
É neste enquadramento que podemos reflectir a ambição,
nomeadamente o modo como os homens e as mulheres a vivem.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) informou
a Comunicação Social que “as mulheres
ganham presença nos Parlamentos Nacional e Europeu,
que a percentagem de licenciados é superior no
sexo feminino, que a população feminina
aumentou nas taxas de actividades”.
Que leitura tirar destes dados, se comparados com o número
reduzido de mulheres que desempenha cargos de direcção
ou mesmo de administração?
O
comportamento das mulheres ambiciosas
Estudos sobre mulheres ambiciosas ou empreendedoras,
realizados em diferentes localidades do mundo e trabalhados
por Hilka Vier Machado, professora e investigadora
da Universidade de Maringá, apontam o seguinte
quadro como características deste tipo de mulheres: |
| Objectivos |
Estrutura |
Estratégia |
Estilo de liderança |
| Culturais e sociais |
Ênfase na cooperação |
Inovadora |
Poder partilhado |
| Segurança e satisfação
no trabalho |
Baixo grau de formalismo |
Procura da qualidade |
Motivação dos outros |
| Satisfação dos clientes |
Busca de integração e
boa comunicação |
Busca da sobrevivência e crescimento |
Valorização do trabalho
dos outros |
| Responsabilidade social |
Descentralização |
Procura da satisfação
geral |
Atenção às diferenças
individuais |
Falta-lhes
ambição? Não!, dizem
os nossos entrevistados. Não se identificam com
os modelos de sucesso vigentes? Sim!, defende Paulo Sargento.
Aliás, no mesmo boletim emitido pelo INE, pode
ler-se: “São sobretudo as mulheres que cuidam
dos filhos e das tarefas domésticas, enquanto que
os homens dedicam mais tempo à sua actividade profissional
e contribuem mais para as despesas domésticas.”
Solange Farinha, de 36 anos, directora-geral do grupo
Gillette Portugal, é uma das quatro mulheres líderes
de mercado desta multinacional. Licenciou-se em Gestão
e Administração pela Universi-dade Católica,
tem um filho, e hoje desdobra a sua vida entre Lisboa
e Madrid, eixo comercial da sua responsabilidade.
Não serão muitas as mulheres que, em Portugal
ou mesmo no resto do mundo, poderão contar na primeira
pessoa uma história semelhante à de Solange
Farinha. Mas também não são muitas
as que aceitaram correr estes riscos, souberam desafiar
as regras de sucesso dominantes ou disseram, sem qualquer
preconceito: “Eu quero ir por aqui.” E para
Solange, o “eu quero” significou definir estratégias,
determinar objectivos, perseguir metas – numa palavra,
ser ambiciosa.
Se pedir a qualquer responsável da área
de Recursos Humanos, consultor ou head-hunter, que lhe
enumere as características exigidas a um profissional
de sucesso, a resposta da maioria destacará atributos
como a capacidade para gerar resultados, coragem para
assumir riscos, persistência, determinação,
disposição para aprender, competitividade,
liderança... Numa palavra, ambição!
Um dos mais respeitados escritores sobre Administração,
James Champy, afirma mesmo que “um líder
é uma pessoa com muita ambição que
abriu caminho próprio na selva. Não conheço
nenhum líder que não seja ambicioso, mas
a ambição não é suficiente,
sem talento vem o fracasso; é preciso disciplina,
fundamentos de gestão e vários tipos de
habilidade para ser um grande líder”.
“As mulheres impõem à
administração um estilo próprio.
Nesta medida, são diferentes dos homens. Mas quanto
a mim, a questão central é mesmo o estilo”,
afirma a directora--geral da Gillette Portugal.
É natural que seja o estilo, adianta Paulo Sargento,
porque mesmo a ética competitiva das mulheres é
construída sobre aquilo que as diferencia do homem:
a sua estrutura neurobiopsíquica.
Isto mesmo é confirmado pelo estudo Women Entrepreneurs,
realiza-do por Holly Moore, conhecido investigador de
recrutamento humano, em que fala da ética do cuidado,
ou seja, esse atributo feminino que designa o “sentido
de responsabilidade presente nas mulheres e que as conduz
a buscar a melhor combinação na realização
das suas actividades, que geralmente resulta na satisfação
de todos os agentes envolvidos nas suas tomadas de decisão:
empregados, clientes, família e comunidade”.
Rosalina Machado, presidente da Ogilvy portuguesa, a única
mu-lher directora-geral do grupo, afirmou que “nós,
mulheres, temos a vantagem de associar à inteligência
a palavra emoção, o que torna as nossas
tomadas de decisão sempre mais conformes com os
objectivos da liderança actual. Somos também
mais intuitivas e temos uma leitura mais humana do mundo”.
Por outro lado, disse, sabemos trabalhar melhor em equipa.
Ao que Paulo Sargento acrescenta: “Essa capacidade
desenvolve--se nas práticas do exercício
da família, onde a mulher desempenha um papel preponderante
e onde tem de procurar uma visão de conjunto, de
modo a satisfazer objectivos colegiais.”
Se é verdade que as mulheres só agora começaram
a conviver com a ambição de uma forma mais
serena, assumindo-a mesmo como traço psicológico
e critério social, um grupo cada vez maior de homens
pre-fere recolher-se na intimidade privada da vida anónima.
Também eles são licenciados e desejam realizar-se
como pessoas. Mas, como nos conta Francisco Alvarez, de
34 anos, casado, engenheiro agrónomo e floricultor,
“decidi investir as minhas energias num modo e num
tempo diferente do urbano, isto é, da guerra dos
resultados, dos valores, dos sucessos”.
O mesmo aconteceu com António Pedro Silva, gestor,
casado, pai de dois filhos. Deixou Lisboa, vive em Montemor
e dedica-se à exploração agrícola
de uma herdade alentejana. Só que a mulher continua
a persistir numa outra maneira de conservar a paz, entregue
à azáfama da vida diária em Lisboa,
onde dá aulas e vive, sozinha, de segunda a quinta-feira,
enquanto António, no Alentejo, toma conta das crianças.
“A combinação de características
masculinas, como a iniciativa, a coragem e a determinação,
com a sensibilidade, a intuição e a cooperação,
geralmente presentes nas definições femininas,
fazem com que a mulher ambiciosa apresente um estilo próprio,
estilo este aliado à intensa dedicação
ao trabalho, que a torna um perfil muito cobiçado
no mercado de trabalho e nas relações sociais
em geral”, afirma Hilka Vier Machado no seu estudo
sobre mulheres empreendedoras.
Podemos
então dizer que a ambição
se escreve de maneira diferente, consoante é ou
não protagonizada no feminino ou no masculino?
Paulo Sargento responde com um “sim” inequívoco.
Mas acrescenta que a ambição não
pode ser padronizada nem segmentada nem arrumada em função
do sexo, género ou condição. Existem
pessoas que querem mudar o mundo, os missionários,
por exemplo. Em relação a eles, podemos
não falar de ambição? Claro que não,
diz-nos Paulo Sargento. “A ambição
é estrutural ao ser humano. Mesmo um monge ambiciona.”
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