É a única jornalista
portuguesa que acompanha o Papa em todas as suas viagens.
Aura Miguel
conhece pessoalmente João Paulo II há 16 anos.
Já rezou com ele. E no séquito papal, acompanhou
a vida íntima de Sua Santidade.
Por Ana Paula Lemos l Fotografia
de Luís de Barros
“Esta é uma jornalista
da Rádio Renascença, a emissora católica
portuguesa”, disseram de Aura Miguel ao Papa. Foi
a primeira vez que João Paulo II viu e falou com
a vaticanista. Corria o mês de Julho de 1987. Pelo
seu lado, a jornalista recorda assim aquele primeiro encontro:
“O olhar era penetrante e a fisionomia sorridente.
Beijo-lhe o anel pontifício e, entusiasmada pela
sua afabilidade, falo-lhe do amor que os jovens portugueses
têm ao Papa e digo-lhe que rezo todos os dias por
ele.”
Há 16 anos que Aura Miguel e João Paulo II
se co-nhecem. O Papa reconhecerá nos cabelos grisalhos
de Aura a passagem do tempo percorrido por ambos nas “quase”
50 viagens que realizaram juntos. A característica
do Santo Padre que Aura Miguel mais acentua é o seu
olhar: “Penetrante.” Depois, não desiste
de nos chamar a atenção para uma dependência
de João Paulo II: “O Papa depende totalmente
de Cristo.”
| Os
segredos do Papa
Em
2002, Aura Miguel publicou o seu primeiro livro, O
Segredo que Conduz o Papa – A Experiência
de Fátima no Pontificado de João Paulo
II, obra que já vendeu milhares de exemplares,
com traduções em francês, alemão,
italiano, espanhol, polaco e russo.
Em Outubro deste ano, a jornalista escreveu Porque
Viajas Tanto?, uma edição da Lucerna,
com o apoio da Rádio Renascença. O livro
é a síntese possível das mais
de 50 viagens que a jornalista fez com o Papa. Documento
extraordinário de reportagem, este livro é
também uma memória descritiva de impressões,
emoções e afectos de algumas das mais
importantes viagens. |
O que o Papa representa
na vida desta jornalista não se diz, porque não
se consegue dizer. Aura Miguel tenta falar de Sua Santidade
apenas como jornalista. Mas percebe-se que João Paulo
II é a pessoa mais importante da sua vida. A que
mais a marcou. “É um bocado pretensioso dizer
que conheço o Papa. Mesmo que vivesse ao lado dele,
nunca me sentiria com coragem de dizer que conheço
bem o Papa”, afirma.
A vaticanista já pertenceu ao séquito papal,
isto é, ao grupo das pessoas mais restritas que acompanham
o Papa nas suas viagens, para além dos dias em que
com ele “coabita” sempre que viajam juntos.
O Vaticano é um lugar onde as mulheres praticamente
não existem, carregado de séculos de História
diplomática, orientado por leis seguras, mas por
vezes impermeáveis ao tempo... Enfim, um espaço
religioso, social e político, também ele cheio
de contradições e, talvez por isso mesmo,
profundamente humano.
Portanto, ser vaticanista não é uma tarefa
fácil e menos ainda aliciante. Existem jornalistas
de todo o mundo acreditados no Vaticano e geralmente pertencem
aos jornais mais prestigiados. É com eles que Aura
Miguel também viaja. Ao todo, segundo nos explica
no seu livro Porque Viajas Tanto?, os repórteres
chegam a ser mais de 50.
Aura Miguel não vive em Roma, apesar de passar muito
do seu tempo nesta cidade. Vai para Itália sempre
que o tema “Papa” a chama ou sempre que a Rádio
Renascença entende ser relevante.
O dia-a-dia da jornalista é passado na Rádio
Renascença, ao Chiado, em Lisboa, onde Aura Miguel
“aterrou” depois de ter sonhado ser diplomata,
justamente para poder viajar muito.
A primeira coisa que a jornalista faz quando chega ao seu
local de trabalho é ler o Boletim da Santa Sé.
É fundamental começar o dia com esta tarefa,
porque “é a partir do Boletim que podemos seguir
toda a actividade do Papa”. Quem são as pessoas
que recebe, que nomeações fez, os discursos
que proferiu.
Aura
foi para a Rádio Renascença para falar de
religião com uma linguagem normal, tão acessível
ao ouvinte como qualquer outra matéria informativa.
“O director de informação da altura
explicou-me que havia a tentação de falar
dos assuntos da Igreja de uma forma beata ou teológica
e que, por essa razão, precisava de uma pessoa capaz
de falar destes assuntos como se fala de qualquer outro.”
Ser vaticanista constitui, profissionalmente, uma das tarefas
de mais prestígio na área do jornalismo. “A
quem muito é dado, muito é pedido”,
explica Aura, naquele seu jeito único de não
ceder à exuberância, própria de quem
tem um currículo invejável e uma experiência
de vida única. Para entendermos isto, basta lermos
o seu livro mais recente, uma espécie de memória
descritiva não só do que têm sido as
suas vivências ao lado do Papa como dos lugares mais
esquecidos do planeta, da selva amazónica à
pobreza do Chade.
Em Porque Viajas Tanto?, há ainda uma voz que vagueia
permanentemente pelas suas páginas: a dos anónimos
cidadãos a quem a sociedade do espectáculo
nunca concederá cinco minutos de fama. Porque, de
facto, a tarefa que estas pessoas (no caso, os missionários
portugueses) realizam é a mais sublime – a
entrega das suas vidas àqueles que mais precisam.
É assim que os missionários portugueses espalhados
pelos lugares mais inóspitos cumprem o “juramento”
que fizeram: anunciar Cristo a todos os homens da Terra.
“Algumas pessoas querem retirar importância
à acção do Papa, sobretudo agora que
se encontra muito doente.” Mas a jornalista pensa
o contrário. “A nossa tentação
é olhar para a Igreja como se ela fosse uma multinacional,
uma IBM, por exemplo, e para João Paulo II como se
fosse o presidente do conselho de administração.
Por isso é que nós criticamos o facto de o
Papa estar tão velho e continuar a andar pelo mundo,
cumprindo a sua missão.” Mas “existe
uma dimensão de mistério na vida da Igreja
que não pode ser esquecida. Claro que há estratégias
e lobbies, mas o Vaticano tem uma sabedoria infinita, data
de 2000 anos, e um registo de prioridades bem diferentes
das nossas. Não podemos esquecer que o Papa não
precisa de ganhar eleições”. E a vaticanista
acrescenta: “Em África e na Ásia, o
registo é bem diferente do das nossas sociedades.
Os povos desses países olham para o Papa com um respeito
imenso e até como se ele fosse um sábio. Só
no Ocidente é que somos bombardeados pela imagem
da felicidade. O resto do mundo não trabalha para
ter corpos perfeitos.”
Trabalhar com o Papa para a
Igreja, mais do que uma profissão, é uma missão.
Nem todos os vaticanistas são crentes. A Aura Miguel
é--o. Aliás, deve-se à sua vida profissional,
nomeadamente às inúmeras viagens que faz a
Itália, o facto de existir em Portugal o Movimento
Comunhão e Libertação. Quando, em Roma,
contactou pela primeira vez este movimento, a jornalista
rapidamente percebeu que Comunhão e Libertação
respondia às inquietações racionais
da sua fé. Hoje, é um dos movimentos mais
importantes e activos no nosso país.
Diz o Cardeal José Saraiva Martins, no prefácio
do li-vro Porque Viajas Tanto?, que “ao viajar com
o Santo Padre, Aura Miguel cresceu na fé e no amor
à Igreja. A proximidade com João Paulo II
aumentou nela a ternura, a comoção, a adesão
simples e entusiástica às verdades da fé”.
E acrescenta o Prefeito da Congregação da
Causa dos Santos: “(...) Ao longo de vinte anos de
jornalismo – e dezasseis seguindo de perto o Papa
– ela olhou sempre com atenção, ouviu
com confiança, falou com liberdade. De tudo o que
viu, ouviu e viveu guarda minuciosa memória. Muitas
coisas só ela viu, só ela notou: são
pormenores divertidos, ou intensos, ou comoventes, que atestam
a atenção do repórter a quem nada escapa.” |